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São Beda, o Venerável (672-735).

Precursor na morte como na vida
São Beda, o Venerável (c. 673-735), monge, Doutor da Igreja
Hino ao Martírio de São João Baptista; PL 94, 630)

Ilustre precursor da graça e mensageiro da verdade,
João Baptista, tocha de Cristo,
torna-se evangelista da Luz eterna.
O testemunho profético que não cessou de dar
com a sua mensagem, com toda a sua vida e a sua actividade,
assinala-o hoje com o seu sangue e o seu martírio.
Sempre tinha precedido o Mestre:
ao nascer, anunciara a Sua vinda a este mundo.
Ao baptizar os penitentes do Jordão,
tinha prefigurado Aquele que vinha instituir o Seu baptismo.
E a morte de Cristo redentor, seu Salvador, que deu a vida ao mundo,
também João Baptista a viveu antecipadamente,
derramando o seu sangue por Ele, por amor.

Bem pode um tirano cruel metê-lo na prisão e a ferros;
em Cristo, as correntes não conseguem prender
aquele que um coração livre abre para o Reino.
Como poderiam a escuridão e as torturas de um cárcere sombrio
dominar aquele que vê a glória de Cristo,
e que recebe Dele os dons do Espírito?
Voluntariamente oferece a cabeça ao gládio do carrasco;
como pode perder a cabeça
aquele que tem a Cristo por seu chefe?

São Sofrônio de Jerusalém (séc. VI).

Vida de Santa Maria do Egito
 São Sofrônio de Jerusalém

Prólogo
É algo louvável esconder o segredo dos Reis; mas há glória em publicar as obras de Deus, como diz o Anjo a Tobias, quando este recobra de maneira miraculosa a visão – tendo passado por tantos perigos goza então, dos efeitos do amor e da ajuda de Deus. É bastante perigoso descobrir os segredos dos príncipes e, contrariamente, causa muito prejuízo à alma calar-se sobre as ações ilustres, que Deus faz em favor dos homens pelo excesso de Sua bondade e de Sua misericórdia. É portanto temerário encobrir com o silêncio as maravilhas divinas, por um justo julgamento. Seria cair na mesma condenação daquele servo inútil que ao invés de aproveitar do talento recebido escondeu-o na terra. Eu não sepultaria nas trevas uma história tão santa quanto esta que chegou ao meu conhecimento. E não é preciso sequer acrescentar fé ao que vou escrever, considerando-se o espanto, que ações tão extraordinárias causarão. Deus me proteja de ser mentiroso em assuntos santos, e de violar a verdade daquilo que concerne a Sua glória; não tomarei parte no perigo que correm aqueles, que não compreendem senão as coisas baixas, e julgando indignamente a grandeza de um Deus que Se fez homem, não acrescentarão nada de fé a este discurso. E há pessoas que depois de o terem lido, recusam-se a lhe dar o crédito e a admiração que merece uma história tão miraculosa. Suplico a Deus que tenha piedade delas e abra-lhes o espírito, a fim que elas escutem Sua Santa palavra, e que não se tornem culpadas pelo desprezo, de tantos milagres que Ele decidiu fazer em toda a eternidade a favor de Seus Eleitos; assim elas agem considerando a fraqueza da natureza humana, julgando impossível tudo o que lhes é contado sobre as ações extraordinárias dos Santos.


Eu vou então começar esta narrativa, onde escreverei palavra por palavra segundo aquilo que se sabe ter acontecido e que me foi reportado por um homem santo, alimentado pela ciência e pela prática das coisas divinas. E, que ninguém se deixe tomar pela incredulidade, como se fosse impossível que tão grande milagre acontecesse hoje em dia, visto que a graça de Deus – que século a seculo circula na alma dos santos – torna-os Seus amigos e faz Profetas; assim como Salomão nos ensina através do conhecimento que Ele lhe deu. Mas não se deve separar o relato deste grande e generoso combate de Maria do Egito, do modo com que ela terminou seus dias na terra.

Capítulo 1

Santa Maria do Egito recebendo os Divinos Mistérios
das mãos do Padre Zózimo


Havia num mosteiro da Palestina um homem chamado Zózimo que, tendo sido desde a sua infância instruído com grande zelo nos exercícios da vida solitária e educado santamente, fazia brilhar em suas palavras e em suas ações uma verdadeira piedade. Entretanto, não imaginem que eu queira aqui falar daquele Zózimo acusado de ensinar erros no que concerne a crença; os nomes são os mesmos. Este de quem falo, ficou primeiramente em um mosteiro da Palestina e passando por todos os exercícios da vida solitária, tornou-se muito recomendado pela pureza de seus hábitos e o seu fervor na penitência; pois observava inviolavelmente todas as instruções que lhe davam aqueles que desde a juventude haviam sido alimentados deste santo modo, de forma a mantê-lo capaz de suportar os combates que se lhes apresentavam na prática exata das regras e, não bastando, acrescentou ainda muito de si, pelo desejo que trazia de sujeitar a carne ao espírito. Assim, jamais percebeu-se uma pequena falta na menor das coisas e ele realizava tão perfeitamente tudo o que se esperava de um solitário, que se via com freqüência muitos outros, tanto das redondezas quanto das províncias distantes, virem até ele e, por suas instruções e seus exemplos, portarem-se com mais ardor do que antes, nos outros santos exercícios da penitência.

Tendo tantas qualidades excelentes, meditava sem cessar sobre as Santas Escrituras, pois, quer estivesse deitado para um pequeno repouso, quer estivesse levantado, quer trabalhasse com as mãos ou comesse, seu espírito ocupava-se sempre deste objetivo que se lhe tornara tão familiar e nunca interrompida a obra de recitar os Salmos e de meditar sobre as Sagradas Escrituras. Assim, tornado-se digno de ter seu espírito esclarecido por Deus, aqueles que viviam com ele asseguravam que freqüentemente era favorecido com visões; o que não é nem estranho nem incrível, pois nosso Senhor Jesus Cristo diz: “Bem-aventurados os puros de coração, pois verão a Deus;” com mais razão ainda àqueles que purificaram a sua carne, que sempre permaneceram em abstinência e cujo espírito jamais adormece no caminho da piedade; esses podem ter os olhos iluminados pelas luzes divinas, como marca da felicidade que os espera na outra vida, onde O verão em toda a Sua majestade e glória.

Zózimo dizia que estava naquele mosteiro praticamente desde ter deixado o seio materno, onde viveu até os 53 anos na observância das regras da vida solitária, e um dia, vendo-se tentado por alguns pensamentos que lhe faziam crer ser perfeito, em todas as instruções de quem quer que fosse, dizia consigo: “Há algum Solitário no mundo que possa ensinar-me algo de novo, ou mostrar-me algo que eu ainda não tenha realizado por minhas próprias ações, nesta santa maneira de viver? Haverá alguém que me ultrapasse”?

Como ele se entretinha com estes pensamentos e alguns outros parecidos, apresentou-se um homem diante dele que lhe disse: “Zózimo, é verdade que combateste generosamente e tanto quanto um homem poderia fazer. É verdade que correste bastante na carreira da vida solitária. Mas não há nenhum homem que possa se vangloriar de ser perfeito, sobretudo porque tu não sabes ainda que o presente combate é mais difícil de suportar do que os passados, e a fim de que conheças que há muitas outras vias para chegar à Salvação, sai de teu país, sai do meio dos teus próximos, sai da casa de teu pai como o grande patriarca Abraão, e vai-te ao mosteiro que fica ao longo do Jordão .”

Seguindo aquilo que lhe havia sido recomendado, Zózimo saiu do mosteiro onde havia sido alimentado desde a sua infância, e tendo chegado à beira do Jordão – o mais santo de todos os rios – foi conduzido pelo mesmo homem ao mosteiro, onde Deus lhe ordenara ir. Tendo batido à porta e falado com o porteiro, este irmão foi dizer ao abade o qual veio recebê-lo, reconhecendo por seu hábito e por sua continência tratar-se de um Solitário. Depois que Zózimo pôs-se de joelhos conforme o costume dos Solitários e que pediu a sua bênção, o abade lhe disse: “De onde vens, meu irmão? E que assunto te traz até os pobres Solitários?” Zózimo respondeu: “Meu pai, não estimo ser necessário dizer-vos de onde venho, e penso que é suficiente que saibais, que o que me traz é o desejo de encontrar aqui temas de edificação, pois soube coisas tão vantajosas deste mosteiro e tão dignas de elogio, que são capazes de levar os homens a unirem-se a Deus.” O abade retorquiu: “Meu irmão, que Deus, o único que pode curar as enfermidades da alma, queira por Sua graça instruir-te e a nós também com Seus mandamentos e conduzir nossos passos para caminharmos nos santos caminhos; pois não há homem algum que seja capaz de fazer outros, avançarem na virtude. É preciso que cada um vele cuidadosamente sobre si mesmo e, sem elevar alto demais seus pensamentos, faça o que lhe for mais vantajoso para chegar à perfeição; Deus cooperando com ele. Todavia, já que dizes que a caridade de Jesus Cristo te traz aqui para ver os pobres solitários, podes permanecer conosco se é este o teu desejo; e o Bom Pastor, que deu a vida para nossa salvação e que chama as suas ovelhas cada uma por seu nome, nos alimentará pela graça de Seu Espírito Santo.” Tendo o abade concluído suas palavras, Zózimo ajoelhou-se ainda e após ter recebido a benção, respondeu: “Assim seja” e ficou no mosteiro.

Capítulo 2

Ele viu lá, anciãos de rostos veneráveis, admiráveis em suas ações, fervorosos em espírito, e que serviam a Deus sem qualquer interrupção. Não havia hora durante a noite em que não se cantasse os salmos, e durante o dia eles estavam sempre em suas bocas, enquanto trabalhavam incessantemente com as mãos. Não se sabia o que eram cuidados inúteis. Não tinham o menor pensamento sobre o bem nem sobre outras coisas temporais, e apenas conheciam-lhes os nomes; mas empregavam todo o ano considerando o NADA desta vida, que não é senão, uma passagem cheia de dores e misérias e meditando sobre coisas semelhantes. Uma coisa somente parecia-lhes importante e trabalhavam com todo o ardor para adquiri-la: estarem mortos para o século, ao qual haviam renunciado quando deixaram o mundo e todas as coisas que dependiam dele. Vivendo assim, como se não vivessem mais, alimentavam o espírito com uma carne que não lhes faltava nunca, a Palavra de Deus, e o seu corpo com pão e água somente, a fim de terem mais motivo para esperar a misericórdia de seu Mestre. Como contou depois, Zózimo foi bastante edificado por esta maneira de viver, e excitava-se com os exemplos para avançar na perfeição, encontrando pessoas que trabalhavam tão poderosamente com ele para adquirí-la, e mostravam com tanta alegria um novo Paraíso na terra.

Poucos dias depois, chegou o tempo recomendado aos cristãos pela tradição da igreja, para celebrarem o santo jejum da Quaresma e para purificarem as almas a fim de se tornarem dignos de verem os dias da morte e da ressurreição de nosso Salvador. Ora, estes Solitários faziam todas as suas funções sem serem jamais perturbados, pois não se abria nunca a porta principal da casa, devido ser este um lugar de solidão que não somente não era freqüentado, como também não era conhecido pela maior parte dos vizinhos; e esta regra era observada desde o estabelecimento do mosteiro, o que me faz crer que foi por esta razão que Deus enviou Zózimo para lá.

Quero reportar aqui a ordem que observavam estes Solitários. No primeiro domingo de quaresma celebravam-se os divinos mistérios segundo o costume, e cada um recebia o corpo e sangue precioso de Nosso Senhor Jesus Cristo, que dá a vida aos homens. Em seguida, depois de terem comido um pouco como de hábito, eles se reuniam no Oratório, onde, tendo feito a oração de joelhos, davam-se uns aos outros o santo beijo, e ajoelhando-se, beijavam seu abade e pediam-lhe a bênção, a fim de serem assistidos por suas orações no combate que iriam empreender. Abriam-se em seguida todas as portas do mosteiro, e, cantando todos a uma só voz o Salmo: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei? O Senhor é a minha proteção, quem será capaz de me assustar?” eles saíam deixando um ou dois irmãos no mosteiro; não para guardarem o que lá ficava, pois não tinham nada que fosse bom para os ladrões, mas para não deixarem que o Oratório ficasse sem alguém que cantasse os louvores a Deus. Cada um levava consigo o que precisava para viver conforme suas necessidades; uns levavam figos, outros damascos, outros legumes molhados com água, e haviam os que não levavam nada, senão seus corpos e seus hábitos, comendo apenas ervas que crescem no deserto, quando pressionados pela fome. Cada um, era regra para si próprio e era uma lei inviolavelmente observada entre eles, não revelarem em que abstinência haviam vivido durante aquele tempo. Para isso passavam o Jordão e afastavam-se bastante uns dos outros; tinham a solidão por companhia. E, se viam ao longe vir em sua direção um irmão, desviavam-se de seu caminho e iam para outro lado, vivendo somente para Deus e sozinhos, cantando frequentemente os Salmos, e não comendo, senão em determinados momentos. Após haverem jejuado, voltavam ao mosteiro antes do dia da Gloriosa Ressurreição de Jesus Cristo nosso Salvador, que é a vida de nossas almas, e, no domingo em que a Santa Igreja celebra com ramos, eles estavam todos de volta. Cada um trazia de volta consigo o testemunho de sua própria consciência, sobre como havia trabalhado durante o retiro, e as sementes que havia lançado em sua alma, de maneira a torná-la forte e generosa para empreender novos trabalhos para o serviço de Deus; e não se perguntavam jamais uns aos outros, como já vos disse, como tinham vivido durante esse tempo de separação e de solidão.

Eis a regra daquela casa, observada perfeitamente, e a maneira pela qual cada um daqueles Solitários unia-se a Deus no deserto e combatia contra si mesmo, de maneira a tornar-se agradável a Deus somente, e não aos homens, sabendo que todas as coisas feitas por amor aos homens e com o desejo de agradá-los, mais prejudicam do que servem, àqueles que as executam.

Capítulo 3

Segundo o costume deste mosteiro, Zózimo passa o Jordão, levando somente seu hábito e alguma coisa para viver. Assim, ele observava a regra e atravessando aquela solidão, não comia senão quando a necessidade a isso o obrigava. Deitava-se na terra, onde o surpreendesse a noite, para repousar e dormir um pouco; e tão logo as primeiras luzes do dia apareciam, apressava-se a caminhar tendo continuamente no espírito; como contou mais tarde; o desejo de entrar mais adiante neste Deserto, com a esperança de aí encontrar algum bom pai, de quem pudesse aprender alguma coisa; e, sem cessar avançava ao acaso, como se estivesse em direção à alguém que lhe fosse conhecido. Depois de ter caminhado durante vinte dias, tendo chegada a hora das Sextas, parou um pouco, e voltando-se para o Oriente fez sua prece normal, pois havia se acostumado a parar em certas horas do dia e a cantar os Salmos de pé e a fazer ajoelhado as orações.

Quando então cantava os Salmos, e com olhar fixo mantinha os olhos elevados para o Céu, viu em sua mão direita algo como a sombra de um corpo humano, o que o encheu primeiramente de espanto e medo, por crer tratar-se de uma ilusão do diabo; mas tendo-se armado com o Sinal da Cruz e tendo perdido toda a apreensão e chegado ao fim das orações, viu, ao voltar os olhos, alguém que de fato andava na direção do Ocidente. Ora, aquilo que via era uma mulher, cujo corpo o ardor do sol havia tornado extremamente negro e cujos cabelos eram brancos como a lã, mas tão curtos que iam somente até o pescoço.

Vendo isto, que acabo de relatar, e regozijando-se na esperança de receber o consolo que esperava, Zózimo correu com todas as suas forças ao lugar, onde aquilo que lhe aparecia apressava-se em ir, pois sua alegria era muito grande; porque durante todo o tempo que havia caminhado no deserto, não havia visto nenhuma forma nem de homem, nem de bestas selvagens, nem de pássaros, nem de quaisquer animais, o que aumentava seu desejo de saber o que é que lhe aparecia; esperando tirar grande lucro disso. Ela porém, vendo Zózimo seguí-la, fugiu em direção ao fundo do deserto. Esquecendo a fraqueza de sua idade e não considerando o trabalho que lhe daria o caminho, ele correu em grande velocidade, pelo desejo que tinha de ver mais perto, aquilo que fugia dele; e assim correndo mais veloz que ela, aproximava-se cada vez mais.

Quando ele estava a uma distância que ela poderia ouvir a sua voz, ele gritou-lhe chorando: “Serva de Deus, porque fugis deste pecador e pobre velho? Quem quer que sejais, conjuro-vos pelo Deus, pelo amor de quem passais vossa vida nesta horrível solidão, a suportar-me; conjuro-vos pela esperança que tendes de ser um dia recompensada de tantos trabalhos. Parai e não recuseis a nossa bênção e nossas orações, àquele que vô-las pede em nome de Deus, que jamais rejeitou ninguém .” Zózimo misturando assim suas conjurações às suas lágrimas, chegaram ambos correndo a certo lugar, onde as águas de uma torrente haviam cruzado, e então aquilo que fugia, desceu e subiu em seguida de outro lado. Zózimo continuava gritando e não podendo passar além, permaneceu aquém da torrente que estava seca, e redobrou de tal maneira seus lamentos e suspiros que se podia escutá-los ainda muito longe.

Capítulo 4

Então aquela pessoa que fugia disse-lhe: “Abade Zózimo, peço-vos em nome de Deus perdoar-me, por não me voltar para falar convosco, pois sou uma mulher e como podeis ver estou nua; mas, se desejais assistir com vossas orações uma pobre pecadora, lançai-me vossa capa para que eu me cubra e possa assim voltar-me para vós e receber a vossa bênção.” Zózimo ficou tomado de um maravilhoso espanto misturado com temor e sentindo-se transportado para fora de si mesmo ao ouvir estas palavras, pois, sendo um homem excelente e que a graça de Deus havia dotado de muita prudência, julgou que aquela mulher não o tendo jamais visto ou ouvido falar dele, não o tivesse chamado por seu nome, sem uma graça particular de Deus. Executou prontamente o que ela havia ordenado, e após haver desabotoado sua capa lançou-a, virando-se de costas. Tendo-a recebido, ela cobriu-se a maior parte do corpo, e assim envolvida voltou-se para Zózimo e lhe disse: “Meu pai, que desígnio trouxe-vos a ver uma pecadora, e o que desejais saber e aprender de mim, para não temer tanto trabalho, quanto tivestes que sofrer para vir até aqui?”

Prostando-se por terra Zózimo pediu-lhe a bênção, como é costume fazer, e ela, prostrando-se por sua vez, pediu-lhe a sua também.

Permaneceram muito tempo assim e por fim ela lhe disse: “Meu pai, cabe a vós dar-me a benção e fazer a oração, visto que sois honrado pelo Presbiterado, e que há tantos anos servindo ao Santo Altar, penetrais pela graça e pela luz que Deus vos dá, nos segredos e mistérios de Jesus Cristo.” Estas palavras aumentaram o temor e a emoção de Zózimo e via-se tremer esse santo ancião e correr o suor em grandes gotas pelo seu rosto. Assim, não tendo mais forças e como se estivesse prestes a dar o último suspiro, ele lhe disse: “Ó mãe espiritual, te conheço o bastante pelo pouco que vi, pois estais toda com Deus e que quase não vives mais na terra; e posso crer que Ele vos concedeu dons muito extraordinários; pois, sem terdes jamais me visto, chamastes-me pelo meu nome; mas visto que na dignidade das funções onde se é chamado, não acontece que tenhamos uma graça igual ao cargo que temos de exercer, e que esta graça se conhece principalmente pelos efeitos maravilhosos que produz nas almas, abençoai-me pelo amor de Deus, e assisti-me com vossas orações, a fim de tornar-me um digno de imitar a vossa virtude.”

Então, compadecendo-se da teimosia do santo ancião, ela diz: “Bendito seja o Senhor que opera a salvação das almas.” Ao que Zózimo respondeu: “Assim seja” e levantaram-se os dois e ela disse-lhe: “Quem, então, vos trouxe até uma pecadora como eu? De todo o modo, já que o Espírito Santo vos conduziu até aqui por Sua graça, a fim de prestar-me alguma assistência à minha fraqueza, dizei-me, suplico-vos, de que maneira se conduzem os cristãos hoje; de que maneira agem os imperadores; e de que maneira o rebanho de Jesus Cristo é agora governado na Santa Igreja?” Zózimo respondeu: “Minha mãe, Deus concedeu às vossas santas orações uma paz, concedida aos fiéis. E não recuseis, suplico-vos em Seu nome, a um bastante indigno Solitário; o consolo que vos peço pelo amor dc Jesus Cristo por todo mundo, e particularmente para este pobre pecador, a fim de que, não tenha feito inutilmente um tão longo e laborioso caminho através desta vasta solidão.” Ela repondeu-lhe: “Meu pai, já vos disse que cabe a vós honrado com o Sacerdócio, orar a todo mundo e por mim também, visto ser uma das funções, às quais a vossa vocação vos obriga; visto que a obediência é uma das coisas que nos são mais recomendadas, farei de bom grado aquilo que me ordenares.”

Concluindo estas palavras, ela se voltou para o oriente e elevando os olhos ao céu e estendendo as mãos, começou a rezar, mexendo somente os lábios e sem que se pudesse ouvir sequer uma de suas palavras. Como mais tarde relatou, Zózimo ficou bastante espantado e, sem dizer nada, baixou o olhar contra a terra, depois vendo que ela continuava longamente em oração, levantou os olhos e viu que ela elevava-se um côvado da terra e que orava assim suspensa no ar; aquilo que tinha Deus por testemunho era muito verdadeiro. Então sentiu-se repleto de uma tão extrema apreensão, empapado de suor jogou-se no chão, sem ousar partir e dizia somente consigo: “Senhor, tem piedade de mim.”

Capítulo 5

Como ele estava neste estado, veio-lhe uma tentação, de que talvez fosse algum espírito maligno fingindo rezar. Então, a mulher voltando-se para ele e reanimando-o, disse-lhe: “Porque, meu pai, vossos pensamentos vos levam a escandalizar-vos a propósito de mim, fazendo-vos crer que não sou senão um espírito e que minha oração não é senão fingimento? Não duvideis de que sou uma mulher e uma pobre pecadora; mas tal como sou, recebi o Batismo, e bem distante de ser um espírito não sou senão pó e cinza, senão carne, e não tenho ao menos espírito para conceber as coisas espirituais.” Concluindo estas palavras ela fez o Sinal da Cruz sobre a sua fronte, sobre os seus olhos, sobre os seus lábios e sobre o seu estômago, e acrescentou: “Meu pai, Deus nos livra se quiser do demônio, e de tudo o que vem dele, que de nós tem sem dúvida, muita inveja.”

A estas palavras o ancião prostrou-se a seus pés e disse-lhe chorando: “Conjuro-vos por Nosso Senhor Jesus Cristo, nosso verdadeiro Mestre, que por nossa salvação dignou-se nascer dc uma Virgem e pelo amor de quem estais revestida desta nudez e fizeste sacrifício de vosso corpo para Lhe serdes agradável, não escondais nada, suplico-vos, ao vosso servo, mas dizei-me quem sois, de onde vinde, quando e por que razão viestes para esta solidão, e de maneira geral, sobre todas as coisas que vos dizem respeito; a fim de que, eu conheça assim a grandeza das obras de Deus, pois que benefício pode trazer um tesouro escondido e uma ciência não declarada, assim como diziam as Escrituras? Dizei-me, então, sem escrúpulos, todas as coisas pelo amor de Deus, pois não será por vaidade mas para satisfazer este pobre pecador ainda que ele seja indigno disso. E tomo como testemunha o mesmo Deus para quem vivcs somente, e com quem conversais continuamente, e não creio ter sido trazido para esta solidão, senão pelo desejo Dele de tornar manifesto, tudo o que se passou convosco, visto que não está em nosso poder resistir às Suas vontades, e que se nosso Senhor Jesus Cristo não tivesse desejado fazer-vos conhecer e fazer saber os combates que empreendestes em Seu serviço, Ele não teria jamais permindo que alguém vos tivesse visto, e na fraqueza em que me encontrava que mal me permitia sair de minha cela, Ele não me teria dado forças para fazer com tanta diligência um tão longo caminho.”

Falando assim e acrescentando várias coisas semelhantes, aquela mulher disse-lhe: “Perdoai-me, meu pai, se morro de vergonha de vos deixar ouvir qual foi a infâmia de minhas ações. Entretanto como vistes que eu estava nua, descobri-las-ei também completamente, para que conheçais a força com que as minhas impurezas encheram a minha alma de confusão e vergonha. E estou longe, como dissestes, de querer contar, por algum sentimento de vaidade as coisas que me concernem; pois de que me poderia glorificar tendo sido um vaso de eleição não de Deus, mas do diabo? E estou certa de que assim que começar a vos fazer ouvir toda a história de minha vida, vós fugireis de mim como de diante da serpente e vossos ouvidos não quererão escutar os inúmeros crimes que cometi. Contudo contá-los-ei com verdade e sem nada disfarçar, após vos ter suplicado não interromper nunca as orações por mim, a fim de que me torne digna da misericórdia de Deus e que eu a receba no dia do julgamento.” O ancião, com estas palavras, derramou muitas lágrimas e ela começou então, a sua narrativa.

Capítulo 6

Meu pai, meu país é o Egito. Estando meu pai e minha mãe ainda vivos, parti com 12 anos contra a vontade deles para Alexandria, onde não consigo pensar sem enrubescer que perdi primeiramente a honra e deixei-me levar pelo desejo contínuo e insaciável da volúpia infame e criminosa. Precisaria de muito tempo para dizer tudo em pormenores, mas dir-vos-ei tudo o mais breve que puder e tanto quanto seja necessário, para vos fazer saber, como era o ardor excessivo que me consumia no pecado. Permaneci publicamente durante mais de dezessete anos neste abrasamento funesto, e não foi absolutamente por causa de presentes, que deixei de ser virgem, pois recusava tudo o que me ofereciam; o furor que me agitava e que me levava a um tamanho excesso, fazia-me julgar que haveria muito mais urgência, quando eu não desejava absolutamente outra recompensa pelo pecado, senão o próprio pecado. Mas, não vos espanteis por eu me preocupar tão pouco com o dinheiro, visto que, eu queria viver de esmola ou daquilo que roubava, tanto que, como já vos disse, eu não tinha outra paixão senão mergulhar continuamente na lama das minhas impudências. Esta era a única coisa que me agradava e acreditava que era verdadeiramente viver, o abusar assim incessantemente do corpo que Deus me dera.

Como vivia ao acaso, vi um certo dia de verão um grande número de egípcios e líbios que corriam na direção do mar. Tendo perguntado ao primeiro que encontrei: “Para onde correm eles com tanta pressa!” Ele respondeu-me: “Vão para Jerusalém para a Exaltação da Santa Cruz, que como de costume deve ser celebrada dentro de alguns dias.” “Crês ,” perguntei-lhe, “que eles me aceitariam se eu quisesse ir com eles?” “Isto é simples,” respondeu-me, “se tivesses os meios de pagar a passagem.” “Com certeza,” repliquei, “não tenho com que pagar a passagem, nem como pagar as minhas despesas, mas não deixarei de ir, subirei no navio que eles alugaram e se recusarem a me receber, dar-me-ei eu mesma como dinheiro, e tendo desta forma meu corpo em seu poder, me receberão como pagamento. Ora, o que me fazia desejar ir com eles; perdoai-me meu pai o que ouso dizer; era ter muitos cúmplices para o meu furor.

Disse-vos bastante meu pai, sofrei, suplico-vos, e ficarei por aqui; não me obrigueis a continuar a relatar aquilo que me cobre de tão estranha confusão. Pois Deus sabe que eu não poderia falar disso sem tremer, e parece-me que todas as minhas palavras são como manchas, que sujam a pureza do ar onde ecoam.” Zózimo respondeu-lhe, regando com suas lágrimas a terra: “Em nome de Deus, minha mãe, continuai e não omitais nada de uma tão difícil narrativa.” Ela continuou então:

“Aquele jovem foi-se indo com a resposta que eu lhe havia dado, e eu, jogando fora o fuso que trazia na mão e do qual de tempos em tempos servia-me para viver, corri na direção do mar como os outros, e vi em pé na margem nove ou dez jovens cujos rostos e porte agradaram demasiadamente à minha paixão desregrada. Haviam outros também que já tinham subido ao barco, e jogando-me no meio deles despudoradamente como de costume, disse-lhes: recebei-me convosco nesta viagem, e não serei cruel demais convosco. Ao que acrescentando outras palavras mais livres e piores que estas, fi-los rir a todos. Aquelas pessoas percebendo o meu descaramento, pegaram-me e levaram-me num pequeno barco e então começamos nossa navegação.

Ó servo de Deus, como poderia eu contar-vos o que aconteceu em seguida? Que língua pode proferir e que ouvidos escutar, aquilo que se passou naquele pequeno barco durante o caminho, e de que maneira eu incitava ao pecado, aqueles miseráveis que não queriam cometê-lo? Não há palavras que possam representar a imagem detestável, dos crimes em que eu me mostrava tão sábia, e que fiz, com que aqueles pobres miseráveis cometessem. Contentai-vos portanto, meu pai, com que vos diga que não me espantaria, que o mar pudesse sofrer pelas minhas iniquidades e que a terra se abrisse, para me fazer descer viva ao inferno, eu que fazia caírem tantas almas nas redes da morte. Mas Deus, que não deseja a perda de ninguém e que quer que todos sejam salvos, pedia com certeza que eu fizesse penitência; pois Ele não quer a morte do pecador, mas espera a sua conversão com paciência impar.

Fomos assim para Jerusalém e empreguei todos os dias que aí permaneci antes da festa, em ações tão detestáveis quanto as anteriores, e ainda piores, pois não me contentando com o mal que fazia no mar com aqueles jovens, fiz ainda perderem-se muitos outros, tanto da cidade quanto os de fora, aos quais eu solicitava tomarem parte de minhas impudências.

Capítulo 7

Quando chegou a festa gloriosa da Exaltação da Cruz de Nosso Senhor, eu prosseguia como antes no desejo de perder as almas dos jovens e, tão logo o dia começou a despontar, vendo que todos corriam para a igreja, corri também como os outros, e fui com eles à praça que ficava diante do Templo. Na hora da cerimônia, esforçava-me para avançar. Enfim, com extrema dificuldade cheguei à porta da igreja, mas quando quis entrar como faziam todos os outros sem nenhuma dificuldade, era impedida por um poder divino que me repelia para fora, e assim miserável que estava, encontrei-me sozinha naquela praça diante da igreja. Imaginando que isso provinha de minha fraqueza, lancei-me de novo entre aqueles que acabavam de chegar, e esforçando-me com todo o meu poder para entrar com eles, trabalhava sempre inutilmente.

Tão logo eu tocava a soleira da porta, pela qual todos os outros entravam sem dificuldade, eu era a única rejeitada; e como se houvesse uma multidão de soldados que tivessem ordem de fechar-me a entrada da igreja, eu sentia de repente um poder escondido que fazia o mesmo efeito, e de novo encontrava-me na praça como antes.

Tendo acontecido assim três ou quatro vezes, e vendo que todos os meus esforços eram inúteis, desesperava-me para poder entrar, e não tendo mais quase força para sustentar-me, tanto que meu corpo havia sido imprensado, retirei-me para um canto daquela praça, onde comecei enfim a considerar, qual poderia ser a causa, que me impedia de ver aquele santo madeiro, sobre o qual um Deus morreu para dar a vida aos homens; e um pensamento salutar tendo-me sacudido o espírito e aberto os olhos de minha alma, julguei que a abominação de minha vida, era o que me fechava a entrada do templo. Então, inundada de lágrimas e bastante perturbada, dei socos no estômago, dei grandes suspiros do mais profundo do coração, e misturando meus gritos com soluços, percebi acima de mim uma imagem da Santa Mãe de Deus.

Dirigindo-me logo a ela e olhando-a fixamente eu disse-lhe: “Santa Virgem, que concebeste segundo a carne um Deus todo poderoso, sei que não parece que, estando eu imunda como estou por causa de tantos crimes, eu ousaria adorar a vossa imagem e lançar os olhos sobre vós, que sois uma Virgem muito pura e cuja alma assim como o corpo estão isentos de toda mancha; mas que ao contrário, é bastante justo que vossa incomparável pureza tenha horror de uma pessoa tão abominável quanto eu. Entretanto, já que aprendi que este Deus a quem foste digna de carregar em vosso seio, fez-Se homem para chamar os pecadores à penitência, suplico-vos que me assistais no abandono de socorro em que estou. Recebei a confissão que vos faço de meus enormes pecados, e permiti-me entrar na igreja, afim de que não seja tão infeliz, por ser privada da visão do madeiro precioso onde Deus-homem, que concebeste permanecendo virgem, foi pregado e derramou Seu sangue pela minha salvação. Ordenai, Rainha do Céu, ainda que eu seja indigna, que a porta me seja aberta para adorar a Divina Cruz, e dou-vos por caução o mesmo Jesus Cristo que deste ao mundo; que não me aconteça jamais no futuro cair nas detestáveis impurezas com a qual sujei meu corpo; corpo este, que deveria ter cuidado para conservá-lo casto, e tão logo tenha visto o santo madeiro onde vosso filho quis sofrer por nós, renunciarei ao mundo e a todas as coisas que vem dele, e partirei na mesma hora para ir ao lugar que vos aprouver levar-me, ó Virgem Santa, como minha caução e meu guia.”

Tendo concluído estas palavras e o ardor da fé, que já começava a sentir no coração dando-me algum consolo, e fazendo-me ter confiança na bondade tão terna e tão caridosa da Mãe de Deus, parti do lugar onde havia feito a minha oração, e misturando-me àqueles que iam à igreja, não encontrei mais nada que me repelisse nem que impedisse a minha entrada. Então, fui tomada por um tremor como transportada fora de mim; todas as coisas espantavam-me, e os obstáculos que antes encontrei haviam cessados, e aquele poder secreto que me repelia, parecia agora facilitar-me a entrada; cheguei sem nenhuma dificuldade até o coração da igreja, onde recebi a graça de adorar o precioso madeiro da Cruz gloriosa, que dá a vida aos homens.

Conhecendo assim, o incompreensível excesso da misericórdia de Deus, e como Ele está sempre pronto para receber os pecadores na penitência, joguei-me na terra e após haver beijado o santo chão da igreja, sai e corri para Aquela que havia me respondido. Tendo chegado ao lugar onde minha promessa estava escrita, ajoelhei-me diante da imagem da Santa Virgem e dirigi-Lhe a minha oração desta maneira: “Muito misericordiosa Mãe de Deus, fizestes-me ver os efeitos da vossa incomparável bondade, visto que não rejeitastes minha humilde súplica ainda que indigna de ser ouvida. Vi a glória que os maus são justamente privados de ver, a glória de Deus todo poderoso, que por vossa intercessão recebe a penitência dos pecadores. Mas, miserável que sou, que necessidade há de lembrar-me e de falar mais sobre meus crimes? É tempo, Virgem Sagrada, de realizar com vossa assistência aquilo que vos prometi. Envia-me então, onde vos aprouver, sede meu guia no caminho da minha salvação; instrui-me na verdade; e mostrai-me a via que conduz à penitência.” Falando assim, ouvi uma voz como de alguém que me chamava de muito longe: “Se passares o Jordão, encontrarás um feliz repouso.” Escutando estas palavras e acreditando que eram ditas para mim, gritei chorando e olhando a imagem da Virgem: “Rainha do Universo, por quem a salvação chegou aos homens, não me abandoneis, suplico-vos.” Depois destas palavras saí daquele lugar e fui-me com grande pressa. Alguém que me viu, deu-me três peças de dinheiro e disse-me: “Recebei isto.” Tomando-as comprei três pães para a viagem que ia empreender com a graça de Deus, e tendo pedido ao padeiro o caminho do Jordão, soube por ele, por qual porta da cidade deveria sair, e fui-me então correndo e chorando.

Empreguei assim o resto do dia fazendo sem cessar, reflexões sobre mim mesma. Ora, era por volta da terceira hora do dia, quando tive a felicidade de ver a Santa e Preciosa Cruz de Nosso Salvador; e o sol estando prestes a se pôr, percebi a Igreja de São João Batista, que assentava-se ao longo do Jordão. Fui logo para o rio e lavei as mãos e o rosto com aquela água santa, e voltei para a sua igreja onde recebi o precioso Corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, que dá a vida às almas. Depois, tendo comido a metade de um dos meus pães e bebido a água do rio, descansei a noite na terra.

Capítulo 8

Tendo chegado a alvorada, passei para o outro lado do Jordão e lá pedia ainda à Santa Virgem como meu guia, que me conduzisse ao lugar que lhe agradasse; e cheguei assim nesta solidão onde desde aquele tempo até hoje afasto-me cada vez mais, o quanto posso, evitando o encontro com quem quer que seja, e esperando a vinda do meu Deus, que salva os pequenos e os grandes que a Ele se convertem.”

Então Zózimo lhe disse: “Minha mãe, há quantos anos estais nesta solidão!” Ela respondeu: “Segundo os cálculos que fiz, há 47 anos saí da Cidade Santa.” “E o que encontrastes desde então e o que podeis encontrar ainda todos os dias,” retorquiu Zózimo, “com que vos possais alimentar?” Ela replicou: “Quando cruzei o Jordão, tinha ainda dois pães e meio, que logo ressecaram e ficaram duros como pedras, e durante alguns anos comia um pouco de cada vez”: Zózimo lhe disse: “Pudestes passar assim tanto tempo sem sofrer muitas penas e sentir muitas perturbações em vosso espírito, por tão grande mudança?”

“Fazeis uma pergunta,” disse ela, “à qual não saberia responder, sem tremer pela lembrança de tantos perigos, que pela minha maldade fizeram agitar demais a minha alma; pois temo que relatando-os, eles me inquietem ainda.” “Dize-me, eu vos suplico, minha mãe”, respondeu-lhe Zózimo, “sem esquecer coisa alguma, pois tendo Deus querido que vós me conhecesseis, não deveis esconder-me nada.”

Então ela retomou a palavra: “É verdade, meu pai, que passei dezessete anos combatendo sempre contra desejos violentos, importunos e despropositados quando começava a comer; pois desejava carne, lamentava os peixes do Egito, e desejava muito vinho, do qual gostava tanto e que no mundo bebia em excesso ao ponto de perder a razão; no lugar onde me encontrava, então, sem haver uma gota d’água somente, o que acendia em minhas veias uma sede tão ardente, que me reduzia à extremidade. Também morria de vontade de cantar aquelas canções dissolutas, que são canções do diabo, que havia aprendido pela vida, e que voltando à memória enchiam meu espírito de perturbação; mas, de repente, começando a chorar e batendo-me no estômago, representava-me a promessa tão solene que havia feito, ao vir para esta solidão e em espírito punha-me diante da imagem da Santa Mãe de Deus que me tinha sob sua proteção, suplicava-lhe em lágrimas que afastasse de mim estes pensamentos que tanto afligiam a minha alma. Muito cheia de dor, depois de ter chorado extremamente e mortificado-me com golpes, via depois uma luz e meu espírito voltava à calma.”

“Perdoai-me, meu pai, se não vos posso contar em detalhes todos os pensamentos, que me agitavam ainda por levarem-me no desejo do pecado. Sentia-me queimar com um ardor infeliz, que me arrastava, como à força, no desejo de cometê-lo; mas quando estas tentações me perseguiam, prostrava-me contra a terra, regava-a com minhas lágrimas e acreditando ver verdadeiramente diante de meus olhos, Aquela que havia respondido por mim, parecia-me que ela me reprovava com ameaças o excesso de fúria que me agitava e que, cheia de cólera, me fazia ver quais seriam os castigos assustadores pela minha horrível infidelidade; e não me levantava nunca, senão depois que aquela luz tão doce e tão favorável me houvesse iluminado como antes e banido estas perturbações de meu espírito. Era assim que eu elevava incessantemente o meu coração para aquela Santa Virgem, que carregava em Seu seio o Autor da castidade, e que eu havia tomado como minha caução para com Deus, suplicando a Ela que me assistisse naquela solidão e em minha penitência; ao que Ela jamais faltou.”

“Eis aí meu pai, como passei estes dezessete anos em um combate perpétuo, contra tantas tentações e perigos. E, desde então, esta feliz Mãe de Deus que é todo o meu recurso e todo o meu auxílio nunca me abandonou, e serviu-me de guia em geral em todas as coisas.”

Então Zózimo disse-lhe: “De que vos alimentastes e vestistes?” Ela respondeu: “Aqueles pães como vos disse duraram dezessete anos; e depois disto vivi das ervas que encontrei no deserto. Quanto às roupas, as que tinha quando cruzei o Jordão tendo-se estragado completamente, sofri muitas penas; o ardor excessivo do verão queimando-me e os frios insuportáveis do inverno reduzindo-me a um tal estado, que traspassada e tremendo, caía frequentemente no chão e permanecia como morta sem poder me mexer, combatendo assim, contra tantas necessidades e tentações diversas. Mas, no meio destas penas, o poder de Deus, de mil diferentes maneiras, conservou até hoje o meu corpo e a minha alma; e repassando em meu espírito de que males o Senhor me livrou, alimento-me de uma carne que não me falta jamais, e estou saciada pela esperança que tenho de minha salvação. A palavra de Deus que contém todas as coisas, serve-me também de alimento e de abrigo. Pois o homem não vive do pão somente. E quando àqueles, que são despojados dos afetos do pecado, faltam vestes, encontram rochedos que os cubram.”

Capítulo 9

Zózimo, vendo que ela citava passagens das Santas Escrituras, tiradas dos livros de Moisés, de Jó, e dos Salmos, disse-lhe: “Minha mãe, aprendestes os Salmos e lestes outros livros das Sagradas Escrituras?” Ela respondeu sorrindo: “Asseguro-vos, que desde que passei o Jordão para vir a este deserto, não vi outro homem do mundo senão a vós, nem encontrei nenhuma besta selvagem, nem nenhum outro animal. Também não aprendi, nem nunca escutei alguém que cantasse os Salmos ou os lesse; mas a palavra de Deus que é viva e eficaz, penetrando fundo no espírito humano, o instrui e ensina-lhe de maneira bastante particular. Agora, tendo acabado de prestar-vos conta daquilo que me concerne, conjuro-vos pela Encarnação do Verbo Eterno, que oreis por mim, pois sabeis que tenho cometido muitos crimes.”

A estas palavras, o ancião pôs-se de joelhos e prostrou-se contra a terra dizendo em voz alta: “Bendito seja o Senhor, que sozinho, faz maravilhas inumeráveis, tão grandes, tão admiráveis e tão gloriosas, que enchem o espírito de espanto. Bendito sede vós, meu Deus, que me fizestes ver hoje quais são os favores, com os quais cumularás aqueles que vos temem. Ó Senhor, é bem verdade que não abandonais nunca as pessoas que vos procuram.” A Santa tomando-o pela mão não lhe permitiu continuar por mais tempo contra a terra, e disse, levantando-o: “Conjuro-vos por Jesus Cristo nosso Salvador não contar a quem quer que seja, as coisas que vos disse, até que Deus me tenha libertado da prisão de meu corpo; conservai sob o selo do segredo, e com a graça de Deus rever-me-eis ainda no ano que vem, na mesma época em que estamos. Peço-vos também em Seu nome para faltar com aquilo que vos pedi, que na próxima Quaresma não passeis o Jordão segundo o costume do mosteiro onde estais.” Zózimo assombrado de ver que ela sabia deste costume e que ela falava disso como uma pessoa informada a este respeito, clamava sem cessar: “Glória seja dada a Deus, que concede àqueles que o amam, muito mais do que eles Lhe pediram.”

Ela continuou assim: “Meu pai, não saiais, suplico-vos, durante este tempo do mosteiro, de onde, quando quiserdes não estará em vosso poder sair, e na noite da Santíssima Ceia de Nosso Senhor, trazei-me num vaso sagrado e digno de tão grande mistério, o divino corpo e sangue vivificante de nosso Salvador e esperai-me do lado do Jordão, que encontra os países habitados pelas gentes do mundo, a fim de que quando eu chegar, receba estes ricos presentes que dão a vida aos fiéis. Pois, desde que comunguei na igreja do bem-aventurado Precursor antes de passar o Jordão, nunca mais recebi este Santíssimo alimento; o que me faz conjurar-vos com tanta insistência a que não recuseis meu pedido, mas trazei-me, peço-vos, o Divino Sacramento que é a vida de nossas almas; à mesma hora que Nosso Senhor criando-Os com Seus discípulos, tornou-os partícipes. Dizei a João, abade do mosteiro onde permaneceis, que vele por si mesmo e por seu rebanho, porque passam-se coisas lá, que precisam de correção. Entretanto não desejo que lhe deis este aviso presentemente, mas quando Deus vô-lo ordenar.”

Tendo acabado de proferir estas palavras e pedido a bênção do santo ancião, foi-se rapidamente para o fundo do deserto.

Capítulo 10

Zózimo jogando-se no chão beijou o rastro dos passos da Santa, e depois voltou glorificando a Deus e prestando-Lhe infinitas ações de graça. Passando pelo mesmo caminho que havia feito no deserto, ele voltou ao mosteiro no mesmo tempo que os outros, e permaneceu todo o ano seguinte no silêncio, não ousando falar daquilo que havia visto; mas orava a Deus que lhe permitisse ver ainda aquela pessoa, por quem tinha tanto respeito e tanta admiração, e o tempo custava tanto a passar, que ele suspirava pensando no quanto este ano era longo.

Quando chegou a época do Santo Jejum e os outros Solitários depois da oração costumeira, saíram no primeiro Domingo da Quaresma cantando os Salmos, ele foi impossibilitado de ir, por uma febre que o obrigou a permanecer no mosteiro. Então lembrou-se do que a Santa lhe havia dito, que mesmo que quisesse, ele não poderia sair de lá, e alguns dias mais tarde foi aliviado de sua indisposição. Voltando os Solitários, ele realizou o que lhe havia sido ordenado, colocando em um pequeno cálice o Corpo e Precioso Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e levou também dentro de uma cesta de vime alguns figos, damascos e lentilhas embebidos em água. Depois chegando a noite, sentou-se à beira do Jordão para esperar a Santa, não se deixando adormecer, pois que ela tardava a chegar; mas olhava atentamente para o lado do deserto à espera do que desejava tanto ver, e dizia: “Não teria ela vindo, e não tendo-me encontrado, teria retornado, então?” Acompanhava suas palavras com lágrimas, e erguendo os olhos para o céu com ardor, fazia esta oração: “Meu Deus, não me recuseis ver ainda aquela que já me concedestes o favor de vê-la; mas temo, que os meus pecados me tornem indigno de receber esta graça.”

Assim orando e chorando, ocorreu-lhe um outro pensamento, e dizia consigo: “Mas se ela vier, o que fará? Como passará o Jordão para vir a mim pobre pecador, já que não há aqui nenhum barco? Ai! Infeliz que sou, quem me terá feito perder a felicidade, que eu tinha tanto motivo para esperar?” Estando o ancião assim, a Santa chegou e ficou do outro lado do rio. Zózimo, ao vê-La, levantou-se, e transportado pela alegria dava graças a Deus. Mas como ele estava sempre em extrema inquietação de como ela poderia passar o Jordão, ele a viu fazer o Sinal da Cruz sobre o rio (pois a lua estava então cheia e seus raios tornavam a noite extremamente clara) e em seguida caminhar sobre as águas como se estivesse em terra firme, o que o espantou de tal maneira que quis ajoelhar-se, mas ela impediu-o gritando: “Que fazeis, meu pai? Não vos lembrais de que sois padre de Deus e que levais os Divinos Mistérios?” Ele obedeceu a estas palavras, e ela, após ter passado o rio, disse-lhe: “Meu pai, dai-me a vossa bênção.” Ao que ele respondeu ainda sob a impressão extrema que lhe havia causado tamanho milagre: “Em verdade Deus é bastante fiel, quando promete tornar semelhante a Ele, aqueles que se purificam com tanto zelo pelo Seu amor. Meu Deus e meu Mestre, sede glorificado para sempre, por aquilo que me fizestes ver na pessoa de vossa serva, o quanto estou longe da verdadeira perfeição.” Ela pediu-lhe em seguida que recitasse o Símbolo e começasse a Oração Dominical. Quando terminou, segundo o costume, a Santa deu ao ancião o beijo da paz e depois recebendo o Santíssimo Sacramento estendeu as mãos para o Céu, e misturando seus suspiros às suas lágrimas, proferiu em voz alta: “Senhor, permiti agora à vossa serva, segundo a vossa Divina Palavra, partir em paz, pois meus olhos viram o meu Salvador,” e voltando-se para o ancião disse-lhe: “Perdoai-me, meu pai, o mal que vos causei, e concedei-me ainda este outro pedido: voltai agora sob a condução de Deus para vosso mosteiro, e quando o tempo estiver terminado, ide à torrente, onde vos falei pela primeira vez; mas, em nome de Deus, não falteis, e ver-me-eis então da forma que Ele quiser.” O ancião respondeu-lhe: “Aprouve a Deus que estivesse em meu poder seguir-vos e gozar da felicidade da vossa presença. Mas, suplico-vos, minha mãe, não recuseis um pequeno pedido que tenho para vos fazer: que queirais comer alguma coisa, daquilo que vos trouxe.” Então ela tomou somente 3 grãos de lentilha, os colocou na boca dizendo, que a graça do Espírito Santo era suficiente para conservar a alma na pureza, e acrescentou dirigindo-se ao ancião: “Rogo-vos, meu pai, em nome de Deus, orai por mim e não esqueçais nunca as minhas misérias.” Zózimo beijando seus pés santos, conjurou-a a rezar pela Igreja, pelo Império e por ele. E chorando e suspirando, deixou-a partir, pois não ousava retê-la mais e mesmo que quisesse não teria conseguido.

Capítulo 11

A Santa fez ainda o Sinal da Cruz sobre o Jordão e depois caminhando sobre as águas, atravessou-o da mesma forma que havia feito ao vir, e Zózimo voltou cheio de alegria e espanto, e com pena, por não ter-lhe perguntado seu nome. Mas esperava consertar este erro no ano seguinte. E quando este ano foi concluído e os costumes ordinários do mosteiro tendo sido observados, ele voltou ao deserto que está para além do Jordão, e caminhava com muita pressa pelo desejo de gozar da felicidade de rever aquela gloriosa Santa. Mas, avançando naquela imensa solidão, e olhando e procurando de todos os lados encontrar alguma marca, que o conduzisse ao lugar onde desejava com tanto ardor chegar; como fazem os caçadores para encontrar os animais que querem caçar; enfim não vendo nenhum vestígio, encharcou de lágrimas o seu rosto e disse erguendo os olhos para o céu: “Muito humildemente eu vos suplico, meu Deus, ver este Anjo em corpo mortal, ao qual o mundo inteiro não é digno de ser comparado.”

Tendo terminado esta oração, chegou à torrente; e como todo o alto deste lugar, estava iluminado pelos raios do sol, ele percebeu na terra o corpo morto da Santa, cujo rosto estava voltado para o oriente e as mãos cruzadas. Correu logo para lá, lavou seus pés com suas lágrimas sem ousar tocar nenhuma parte de seu corpo. Tendo em seguida cantado os Salmos e recitado as orações costumeiras em ocasiões semelhantes, disse consigo: “É possível que a Santa não se agradasse daquilo que faço.” Como estava nestes pensamentos, viu estas palavras escritas na terra: “Meu pai Zózimo, enterrai o corpo da miserável Maria, devolvei a terra o que é da terra, pó ao pó. Em nome de Deus, orai por mim, neste décimo dia de Abril, na véspera da Paixão de Jesus Cristo Nosso Salvador e após ter sido tornada partícipe de Seu Santíssimo e Divino Corpo.”

Tendo lido estas palavras, o ancião pensava consigo quem poderia tê-las escrito, visto que a Santa havia-lhe dito que ela não sabia escrever, e tivera uma extrema alegria por desta maneira ter sabido o seu nome. Ele soube desta forma, que no instante em que ela recebera o Santo Sacramento à beira do Jordão, viera para aquele lugar e passara ao Céu; e que assim ela havia feito em um momento, o mesmo caminho em que ela havia empregado 20 dias inteiros caminhando sem parar. Este bom ancião tendo prestado infinitas ações de graças a Deus e encharcado com seu pranto o corpo da Santa, pôs-se a dizer: “É tempo, Zózimo, de executar o que te foi ordenado. Mas infelizmente como farei, pois não tenho como cavar a terra, nem pá nem coisa alguma.” Enquanto falava ao acaso, viu um pequeno pedaço de madeira e tomou-o, e começou a tentar abrir a terra; mas era tão dura, e ele tão extremamente fraco por conta de seus jejuns e com o caminho tão longo, que foi-lhe de todo impossível. Então, encharcado de suor do esforço que havia feito inutilmente, deu profundos suspiros, e levantando os olhos percebeu junto ao corpo da Santa um enorme leão, que lhe lambia os pés, o que o encheu primeiramente de um maravilhoso pavor e principalmente porque a Santa lhe havia dito, não ter jamais visto nenhum animal selvagem naquele deserto. Mas assegurou-se pelo Sinal da Cruz e pela fé, que aquele santo corpo poderia protegê-lo de todo o perigo. E o Leão começou a fazer-lhe carícias como para saudá-lo. Então Zózimo disse-lhe: “Rei dos animais, já que Deus enviou-te aqui, a fim de que o corpo de Sua serva não permaneça insepulto, cumpre o teu encargo, dando-me os meios de colocá-lo na terra; pois além de minha velhice que me tira a força de cavar, não há nada aqui que seja apropriado, e eu não poderia depois fazer um tão longo caminho como o que já fiz; mas visto que recebeste ordens de Deus para isso, usa tuas unhas nesta obra.”

Obedecendo ao ancião, o leão cavou de súbito uma fossa suficiente, e Zózimo depois de regar com suas lágrimas os pés da Santa, e com muitas orações, implorando sua assistência para todo o mundo e particularmente por ele; cobriu o corpo de terra, deixando-o como o havia encontrado; coberto somente uma parte, por aquele velho casaco rasgado, que havia jogado para a Santa dois anos antes. Enquanto isso, o leão permaneceu firme, e quando o oficio de piedade acabou, retiraram-se os dois ao mesmo tempo. Este soberbo animal e uma doce ovelha foram-se para o fundo do deserto, e Zózimo voltou bendizendo a Deus e cantando um Cântico de louvor a Jesus Cristo Nosso Salvador.

Quando voltou ao mosteiro, contou-lhes desde o começo o que lhe havia acontecido, sem nada esconder-lhes do que vira ou escutara, para que aprendendo os efeitos milagrosos da Onipotência de Deus, fossem cheios de admiração e que assim celebrassem com temor e com amor; o dia da bem aventurada passagem daquela gloriosa Santa, por cuja opinião o abade João percebeu, que alguns de meus irmãos precisavam de correção e converteu-os pela assistência da misericórdia de Deus. Quanto a Zózimo, depois de ter vivido até a idade de 100 anos naquele mosteiro, foi-se em paz gozar da Presença de Deus pela Graça de Jesus Cristo, ao qual com Seu Pai e o adorável Espírito Santo vivificador das almas, a honra, o poder e a glória pertencem pelos séculos dos séculos. Amém.

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Fonte: Padres do Deserto (http://www.padresdodeserto.net)
Tradução: Jandira Soares Pimentel

São Martinho de Braga (séc VI)

Martinho de Dume, Martinho Dumiense ou ainda Martinho de Braga (ou Martinho Bracarense) são os vários nomes por que é conhecido Martinho da Panónia, um bispo de Braga e de Dume considerado santo pela Igreja Católica.
Martinho nasceu na Panónia, actual Hungria, no século VI. Estudou grego e ciências eclesiásticas no Oriente. De volta ao Ocidente, dirigiu-se para Roma e para a França, onde visitou o túmulo do seu conterrâneo Martinho de Tours. É tido como o apóstolo dos Suevos, responsável maior pela sua conversão do arianismo ao catoliscismo.
Estabeleceu um mosteiro numa aldeia das proximidades de Braga, Dume, a partir do qual começou a irradiar a sua pregação. Estabeleceu a diocese de Dume (caso único na história cristã - confinada ao mosteiro a que presidia), da qual foi primeiro bispo e, depois, por vacatura da diocese bracarense, foi feito metropolita de Braga, então capital do reino suevo.
Reuniu o Concílio de Braga em 563, tendo proibido que se cantassem muito dos hinos e cantos de carácter popular que estavam incluídos nas missas e noutras celebrações. Ao longo dos anos, a música litúrgica foi sendo fixada no Cantochão, mas o povo, apoiado num substrato musical muito antigo, apoderou-se de alguns destes cânticos da Igreja e popularizou-os, dando-lhes a sua interpretação própria.
Para além de batalhador pela ortodoxia contra os arianos, foi também um fecundo escritor. Entre as principais obras, citamos: Escritos canônicos e litúrgicos. Destacou-se também como tradutor (designadamente, dos Pensamentos dos padres egípcios). Morreu no dia 20 de março de 579 e foi sepultado na catedral de Dúmio. Para si compôs o seguinte epitáfio: Nascido na Panônia, atravessando vastos mares, impelido por sinais divinos para o seio da Galiza, sagrado bispo nesta tua igreja, ó Martinho confessor, nela instituí o culto e a celebração da missa. Tendo-te seguido, ó patrono, eu, o teu servo Martinho, igual em nome que não em mérito, repouso agora aqui na paz de Cristo.

Wikipédia


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Da Correção dos Rústicos (De Correctione Rusticorum )
São Martinho de Braga


(Instrução Pastoral sobre Superstições Populares)

Ao digníssimo senhor e para mim muito querido irmão em Cristo, o bispo Polémio, Martinho, bispo.

[1] Recebi de sua santa caridade uma carta na qual me escreve que, para admoestação das gentes rurais, que continuam presas a antigas superstições de pagãos e prestam culto e veneram mais os demónios do que a Deus, te dirigisse por escrito algumas considerações, ao menos um resumo do muito que se poderia dizer, sobre a origem dos ídolos e das suas perversidades. Porém, porque se trata de proporcionar a jeito de exemplo, uma informação que para eles seja pertinente, ainda que breve, começando na criação do mundo, tornou-se-me necessário, em exposição condensada, de ligeiro resumo, abranger a floresta ingente dos momentos do passado e do que então aconteceu e preparar para gente rural alimento em linguagem rústica. Por isso mesmo, com a ajuda de Deus, será este o exórdio da tua pregação:

[2] Desejaríamos, filhos caríssimos, apresentar-vos, em nome do Senhor, algo de que ou nunca ouvistes falar, ou que, se porventura ouvistes, votastes ao esquecimento. Dirigimo-nos, por isso, à vossa caridade a fim de que, quanto vos é proposto para vossa salvação, o escuteis com a devida atenção. É verdade que é largo o desenvolvimento que segue pela via das Sagradas Escrituras, mas, para que retenhais ao menos alguma coisa na memória, dentre muitos ensinamentos confiamo-vos o pouco que se segue.

[3] Depois de, no princípio, ter Deus feito o céu e a terra, fez, naquela morada celeste, criaturas espirituais, isto é, os anjos, para estarem na sua presença e O louvarem. Um de entre eles, que, por ser o primeiro de todos, fora feito arcanjo, ao ver-se em tamanha glória, não prestou honra a Deus, seu criador, mas proclamou-se igual a Ele; foi por causa desta arrogância que, juntamente com outros anjos que lhe deram assentimento, foi derribado daquele assento celestial para o firmamento que fica debaixo do céu; e ele que antes era arcanjo perdeu a luz da sua glória e tornou-se em diabo tenebroso e horrível. De igual modo os outros anjos que lhe tinham dado assentimento foram com ele atirados para fora do céu e, perdendo o esplendor da sua glória, foram transformados em demónios. Porém, os restantes anjos, que se mantiveram submissos a Deus, continuam, na glória da sua claridade, na presença do Senhor, e são chamados anjos santos, enquanto aqueles que, com o seu príncipe Satã, pela sua arrogância foram expulsos, recebem o nome de anjos transviados ou demónios.

[4] Foi, portanto, depois desta queda dos anjos, que aprouve a Deus plasmar o homem do limo da terra; pô-lo no Paraíso e disse-lhe que, se observasse o preceito do Senhor, passaria, sem morrer, para aquele lugar celestial, de onde os anjos rebeldes tinham caído. Se, porém, transgredisse os mandamentos de Deus, teria morte certa. Vendo, pois, o diabo (ou os seus ministros, os demónios) que o homem tinha sido criado com um fim, que era o de ocupar o seu lugar, no reino de Deus de onde caíra, levado pela inveja, persuadiu o homem a transgredir as ordens de Deus. Por esta ofensa foi o homem expulso do Paraíso para o exílio deste mundo, onde haveria de padecer muitos trabalhos e dores.

[5] Ora, teve o primeiro homem o nome de Adão e sua mulher, que Deus criou da carne dele, recebeu o de Eva. Foi a partir destes dois seres humanos que se propagou o género humano. Esquecidos eles de Deus, seu Criador, praticaram muitos crimes e exasperaram a Deus até à indignação. Por tal motivo, Deus enviou o dilúvio e exterminou-os a todos, excepto a um homem justo, chamado Noé, a quem salvaguardou com seus filhos, para restabelecer o género humano. Ora, desde o primeiro homem, Adão, até ao dilúvio, decorreram dois mil duzentos e quarenta e dois anos.

[6] Após o dilúvio, de novo o género humano foi restabelecido pelos três filhos de Noé, preservados juntamente com suas mulheres. E, corno começasse a crescer a multidão, os homens, esquecendo-se outra vez de Deus criador do mundo, abandonaram o criador e começaram a prestar culto às criaturas. Uns adoravam o sol, outros a lua ou as estrelas, uns o fogo, outros a água profunda ou as fontes de água, julgando que todas estas coisas não tinham sido criadas por Deus para os homens delas se servirem, mas que elas próprias, criadas por si mesmas, eram deuses.

[7] Então o diabo e os seus ministros, os demónios, que tinham sido lançados fora do céu, vendo que os homens, na sua ignorância, haviam abandonado o seu Criador e andavam errantes pelas criaturas, começaram a aparecer-lhes em diversas formas, a falar com eles e a reclamar-lhes que lhes oferecessem sacrifícios no cimo dos montes e nas florestas frondosas e lhes prestassem culto como a Deus, disfarçando-se com nomes de homens criminosos, que tinham passado a sua vida em toda a sorte de crimes e delitos, de tal modo que um se dizia Júpiter, o qual tinha sido mago e tinha cometido tantos incestos que tivera por sua esposa a própria irmã, que se dizia Juno, violou as suas filhas, Minerva e Vénus, e, na sua torpeza, cometeu também incestos com netas e com todos os seus aparentados, enquanto que outro demónio se deu o nome de Marte e foi instigador de litígios e de discórdia. De seguida, outro demónio quis tomar para si o nome de Mercúrio, o qual foi um inventor astucioso, em tudo o que era de furto e de fraude; a este, qual deus do lucro, os homens gananciosos ao passarem pelas encruzilhadas, atiram pedradas e oferecem-lhe montões de pedras em sacrifício. Outro demónio ainda aplicou a si próprio o nome de Saturno, o qual, vivendo de todo o género de crueldades, devorava até os seus filhos logo ao nascerem. Outro demónio fingiu também que era Vénus, que tinha sido uma meretriz que não só se prostituiu com um sem número de homens, mas também com Júpiter, seu pai, e com Marte, seu irmão.

[8] Aí está quem foram, naquele tempo, esses homens desgraçados, aos quais, por seus expedientes mais que perniciosos, homens ignorantes dos campos honraram e cujos nomes, pois, os demónios se puseram a si próprios para lhes prestarem culto, como se fossem deuses, e imitarem as acções daqueles cujos nomes invocavam. Persuadiram-nos também os demónios a construírem-lhes templos, a colocarem aí imagens ou estátuas de homens criminosos e a levantarem-lhes altares onde lhes derramassem sangue não só de animais, mas até de seres humanos. Além disso, aliás, muitos demónios dos que foram expulsos do céu figuram como patronos, seja no mar seja nos rios seja nas fontes seja nas florestas, e há homens que, na sua ignorância de Deus, de modo semelhante, lhes prestam culto, como se fossem deuses e lhes oferecem sacrifícios. No mar, realmente, dão-lhes o nome de Neptuno, nos rios o de Lâmias nas fontes o de Ninfas, nos bosques o de Dianas, que tudo são demónios malignos e espíritos nefandos. São eles quem faz mal e atormenta os homens sem fé, que não sabem munir-se do sinal da cruz. Todavia, não lhes fazem mal sem permissão de Deus, porque Deus está irado com eles. E eles não crêem na fé de Cristo com todo o coração, mas vivem de tal forma equivocados que até para cada dia da semana invocam nomes de demónios, chamando-lhes dia de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vénus, de Saturno, que nunca fizeram dia algum, mas foram homens muito maus e criminosos entre as gentes dos Gregos.

[9] Ora, foi Deus omnipotente, quando fez o céu e a terra, quem criou então a luz; e foi para diferenciar as obras de Deus que esta foi posta a perfazer sete revoluções. De facto, na primeira, fez Deus a luz, que recebeu o nome de dia; na segunda, foi feito o firmamento do céu; na terceira, a terra foi separada do mar; na quarta, foram feitos o sol, a lua e as estrelas; na quinta, os quadrúpedes, os voláteis e os animais aquáticos; na sexta, foi plasmado o homem; ao sétimo dia, porém, depois de completado o mundo todo e o seu ornamento, deu-lhe Deus o nome de descanso. Uma Única e mesma luz, pois, que foi a primeira a ser criada nas obras de Deus, ao fazer a revolução sete vezes, para diferenciar as obras de Deus, recebeu o nome de se(pti)mana. Que loucura é, pois, essa que um homem baptizado na fé de Cristo não cultua o dia de domingo, em que Cristo ressuscitou, e afirma cultuar o dia de Júpiter, de Mercúrio, de Vénus e de Saturno, que não são senhores de qualquer dia, antes foram adúlteros, magos e iníquos e morreram com má reputação na sua pátria? Pelo contrário, como dissemos, sob o disfarce desses nomes é prestada honra e veneração a demónios, por homens estultos.

[10] De igual modo, um outro embuste se intrometeu em homens ignorantes dos campos para pensarem que o início do ano são as calendas de Janeiro, o que é uma falsidade total e completa. Na verdade, segundo diz a Escritura santa, o início do primeiro ano ocorreu a oito das calendas de Abril no equinócio. Assim, com efeito, se lê: e fez Deus a divisão entre a luz e as trevas. Ora, toda a divisão perfeita pressupõe igualdade, tal como acontece a oito das calendas de Abril em que o dia tem tantas horas como a noite. E por isso é falso que o começo do ano sejam as calendas de Janeiro.

[11] Já agora, que há que dizer, não sem mágoa, de um estultíssimo erro que leva a observarem os dias das lagartas e dos ratos e, se é que é permitido dizê-lo, leva um homem cristão a venerar ratos e lagartas em vez de Deus? Se com o resguardo de uma cuba ou de uma gaveta, não se lhes subtrai um pão ou um pano, de forma alguma, por lhes serem dedicados uns dias de festa, eles pouparão o que encontrarem. Sem razão, aliás, arranja esse pobre homem tais prognósticos, como o de que, por no começo do ano ter em tudo fartura e prosperidade, assim também lhe tocará todo o ano. Todas essas observâncias dos pagãos são maquinadas por estratagemas dos demónios. Mas ai daquele homem a quem Deus não for favorável e não houver dado abastança de pão e segurança de vida! Eis que estas vãs superstições vós as praticais quer às ocultas quer às claras. E nunca cessais de fazer estes sacrifícios dos demónios. Então, porque não vos proporcionam que tenhais sempre fartura, segurança e prosperidade? Porque é que, quando Deus se indigna, esses sacrifícios são inúteis para vos defenderem de gafanhotos, ratos e outras muitas atribulações que Deus vos manda na sua indignação?

[12] Não está claro para a vossa compreensão que os demónios vos mentem nessas vossas observâncias que em vão praticais e que vos enganam com os augúrios a que prestais atenção com tanta frequência? Na verdade, como diz Salomão em sua grande sabedoria: adivinhações e augúrios são coisas vãs; e quanto mais andar inquieto o homem com elas, tanto mais vive no engano o seu coração. Não lances neles o teu coração porque arruinaram a muitos. Eis que é a Escritura Sagrada que o diz, e é bem verdade assim, pois que os demónios tantas vezes persuadem os homens na sua infelicidade através do piar das aves que, por coisas frívolas e vãs perdem a fé de Cristo, e, sem se aperceberem, caem no abismo da sua morte. Não mandou Deus que o homem conhecesse o futuro, mas que, vivendo sempre no seu temor, esperasse d 'Ele orientação e auxílio para a sua vida. Só a Deus pertence saber algo antes que isso aconteça; aos homens insensatos, porém, os demónios enganam-nos com diversos argumentos até os levarem a ofender a Deus e arrastarem consigo as almas deles para o inferno, como desde o início fizeram por inveja da sua parte, para o homem não entrar no reino dos céus, do qual eles foram expulsos.

[13] Foi também por esta razão que, quando Deus viu os homens na sua infelicidade de tal modo enganados pelo diabo e seus anjos maus que, esquecidos do seu Criador adoravam os demónios por Deus, enviou Ele o seu Filho, isto é, a sua Sabedoria e o seu Verbo, a fim de os retirar do engano diabólico para o culto do verdadeiro Deus. E como a divindade do Filho de Deus não podia ser vista pelos homens, tomou carne humana do seio da Virgem Maria, concebida não da união com um homem, mas do Espírito Santo. Tendo, pois, o Filho de Deus nascido em carne humana, escondendo por dentro a Deus invisível, enquanto por fora ficava visível o homem, pregou aos homens; ensinou-lhes que abandonassem os ídolos e as obras más, saíssem do poder do diabo e voltassem ao culto do seu Criador. Depois de ter completado o seu ensino, quis deixar-se morrer pelo género humano. Sofreu a morte voluntariamente, sem ser forçado; foi crucificado pelos judeus, a julgamento de Pôncio Pilatos, que, sendo originário do Ponto, naquela altura estava à frente da província da Síria; deposto da cruz, foi colocado num sepulcro; ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos e durante quarenta dias conviveu com os seus doze discípulos, e, para demonstrar bem que era verdadeira a carne que tinha ressuscitado, comeu perante os seus discípulos depois da ressurreição. Passados, porém, quarenta dias, ordenou aos seus discípulos que anunciassem a todos os povos a ressurreição do Filho de Deus e os baptizassem em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, para remissão dos pecados, e ensinassem os que tivessem sido baptizados a afastarem-se das más acções, i.e., dos ídolos, de homicídio, de furtos, de perjúrio, de fornicação, e que aquilo que não queriam que lhes fizessem a eles não o fizessem aos outros. E depois de ter ensinado isto, à vista dos seus discípulos, subiu ao céu e aí está à direita do Pai, e daí, no final deste mundo, há-de vir com a mesma carne que levou consigo para o céu.

[14] Quando, porém, vier o fim deste mundo, todos os povos e todo o homem cuja origem procede dos primeiros seres humanos, isto é, de Adão e Eva, todos ressuscitarão tanto bons como maus; e todos hão de vir ante o tribunal de Cristo. E, nessa altura, aqueles que durante a sua vida foram bons fiéis serão separados dos maus e entrarão no reino de Deus com os santos anjos. E as almas deles ficarão, com a sua carne, no descanso eterno, para não morrerem mais. Aí já não haverá para eles nem fadiga nem dor nem tristeza, não haverá fome ou sede, nem calor ou frio, nem trevas ou noite, mas, viverão sempre na alegria e na abundância. Em luz e glória, serão semelhantes aos anjos de Deus, pois mereceram ter entrada naquele lugar de onde caiu o diabo com os anjos que a ele deram assentimento. Aí, pois, permanecem eternamente todos aqueles que ficaram fiéis a Deus. Com efeito, os que não tiveram fé ou os que não foram baptizados, ou por outro lado os que, tendo-o sido realmente, depois do baptismo de novo voltaram aos ídolos e a homicídios, ou a adultérios e augúrios ou a perjúrios e outras más acções e morreram sem penitência, todos os que assim forem encontrados serão condenados com o diabo, e com todos os demónios a quem cultuaram e cujas obras fizeram, e são metidos, com a sua carne, em fogo eterno, no inferno, onde um braseiro inextinguível está perpetuamente vivo e onde essa carne, já recebida da ressurreição, por entre gemidos, é atormentada eternamente. Deseja morrer de novo, para não sentir os castigos, mas não é permitido morrer, a fim de sofrer torturas eternas. Eis o que diz a lei, o que dizem os profetas, o que o Evangelho de Cristo, o que o Apóstolo e o que a Escritura Santa toda atestam, e é isto que nós agora vos resumimos ao mínimo e com termos simples. A vós, filhos caríssimos, a partir daqui pertence recordar o que por nós acaba de ser dito e, ou, agindo bem, esperar o repouso futuro no reino dos céus, ou (que isso não aconteça!), agindo mal, aguardar que haverá um fogo perpétuo. Com efeito, quer a vida eterna, quer a morte eterna são deixados ao arbítrio do homem. O que cada um escolher para si próprio, isso terá.

[15] Vós, pois, homens crentes, que tivestes acesso ao baptismo, em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, considerai que pacto fizestes com Deus nesse mesmo baptismo. Com efeito, quando cada um de vós deu o nome junto das fontes, por exemplo, Pedro ou João ou qualquer outro nome, foi-vos perguntado assim pelo sacerdote: «Como te chamas?» Respondeste ou tu, se já podias responder, ou, ao menos quem por ti testemunhou, quem estava a acolher-te da fonte, dizendo: «Chama-se João». E perguntou o sacerdote: «João, renuncias ao diabo e aos seus anjos, aos seus cultos e ídolos, a roubar e a enganar que são coisas dele, à fornicação e à embriaguez que vêm dele, e a todas as suas obras más?» E respondeste: «Renuncio». Depois desta renúncia ao diabo, de novo foste interrogado pelo sacerdote: «Crês em Deus Pai omnipotente?» respondeste: «Creio». «E em Jesus Cristo, seu único Filho, Senhor nosso, que nasceu, pelo Espírito Santo, da Virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado e sepultado, ao terceiro dia ressuscitou vivo dos mortos, subiu aos céus, está sentado à direita do Pai de onde há-de vir julgar os vivos e os mortos, crês?» E respondeste: «Creio». E de novo te foi perguntado: «Crês no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na remissão de todos os pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna?» E respondeste: «Creio». Eis, pois! Tende em conta que pacto fizestes com Deus no baptismo: prometestes renunciar ao diabo e aos seus anjos e a todas as suas obras más, e confessastes que acreditáveis no Pai e no Filho e no Espírito Santo e que esperáveis no fim dos séculos a ressurreição e a vida eterna.

[16] Eis qual o vosso penhor e confissão que se guarda junto de Deus! Como é que alguns de vós, que renunciaram ao demónio e aos seus anjos, e aos seus cultos e às suas obras más, agora voltam ao culto do diabo? Pois acender velinhas a pedras, a árvores e a fontes e pelas encruzilhadas, o que é isso senão culto ao diabo? Observar adivinhações, augúrios e dias dos ídolos, que outra coisa é senão cultuar o diabo? Observar Vulcanálias e Calendas, ornar mesas, pôr louros, fazer observância do pé e derramar grãos e vinho no fogo, sobre um tronco, ou atirar com pão para a fonte, que outra coisa é senão culto do diabo? As mulheres invocarem Minerva no tear, e observarem o dia de Vénus para o casamento, e atenderem ao dia em que se sai para viajar, que outra coisa é senão culto do diabo? Fazer encantamentos de ervas para malefícios e invocar os nomes dos demónios com encantamentos, que outra coisa é senão culto ao diabo? E há muito mais que seria demorado enumerar. Eis que tudo isto fazeis depois de renúncia ao diabo, após o baptismo, e, tornando ao culto dos demónios e às más acções da idolatria, já violastes a vossa fé e já rompestes com o pacto que fizestes com Deus. Deixastes de lado o sinal da cruz que recebestes no baptismo e apegais-vos a outros sinais do diabo, por aves e espirros e muitas outras coisas. Porque é que a mim, ou a qualquer outro cristão praticante, não faz mal um augúrio? Porque, onde tiver primazia o sinal da cruz, o sinal do diabo não é nada. Porque vos faz mal a vós? Porque desprezais o sinal da cruz e receais aquilo que vós próprios preparastes como sinal. Do mesmo modo pusestes de lado o encantamento sagrado que é o símbolo que no baptismo recebestes e que é Creio em Deus Pai omnipotente e a oração dominical, i. é, Pai nosso que estás nos céus, e atendes-vos a encantamentos e ensalmos do diabo. Quem quer que despreze o sinal da cruz de Cristo e volte a olhar para esses sinais, já perdeu o sinal da cruz que recebeu no baptismo. O mesmo se passa com aquele que se atém a outros sortilégios congeminados por magos e homens de mal; ao sortilégio do símbolo santo e da oração dominical que recebeu com a fé de Cristo, já o perdeu e calcou aos pés a fé de Cristo, pois não se pode cultuar ao mesmo tempo a Deus a ao diabo.

[17] Se, pois, filhos muito amados, compreendestes tudo isto que vos acabamos de dizer, se alguém reconhece que, depois de recebido o baptismo, fez estas coisas e rompeu com a fé de Cristo, não desespere de si nem diga no seu coração: «Como fiz tantas coisas más depois do baptismo, talvez Deus não me perdoe os meus pecados». Não duvides da misericórdia de Deus. Basta que tu, no teu coração, faças com Deus um pacto de nunca mais cultuar o que é próprio do demónio e não adorar nada a não ser o Deus do céu nem cometer homicídio nem adultério ou fornicação, não praticar furto e não fazer perjúrios. E quando tu de todo o coração prometeres isto a Deus e daí em diante não cometeres estes pecados, espera confiadamente o perdão de Deus, pois assim disse o Senhor pelo texto do Profeta: qualquer que seja o dia em que o pecador esquecer as suas iniquidades e praticar a justiça, também eu esquecerei todas as suas iniquidades. Deus, pois, espera por penitência. Esta é, porém, a verdadeira penitência: que o homem nunca mais cometa os erros que cometeu, mas peça indulgência para os pecados anteriores e se acautele quanto ao futuro para não voltar de novo a eles, mas, antes, pelo contrário, pratique boas obras e dê esmola aos pobres, restaure as forças ao estranho cansado e tudo quanto gostaria que lhe fosse feito a ele por outro ele o faça a outrem e o que não gostaria que lhe fizessem a ele não o faça a outrem, porque nesta palavra se cumprem os mandamentos de Deus.

[18] Por isso vos rogamos, irmãos muito queridos, que retenhais na memória estes preceitos que Deus, por nós, humílimos e exíguos, se digna dar-vos e penseis como haveis de salvar as vossas almas, de tal modo que não trateis unicamente das coisas transitórias, ainda que úteis, deste mundo, mas antes recordeis aquilo em que no símbolo prometestes acreditar, isto é, na ressurreição da carne e na vida eterna. Se, pois, acreditastes e continuais a acreditar que haverá ressurreição da carne e vida eterna no reino dos céus entre os anjos de Deus, como já acima vos dissemos, pensai o mais que puderdes nisso e não sempre na miséria do mundo. Preparai o vosso caminho com boas acções. Sede assíduos a orar a Deus, na igreja ou em locais dedicados aos santos. O dia do Senhor, que, por isso mesmo se chama domingo, dado que o Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, nele ressuscitou dos mortos, não o desrespeiteis mas cultuai-o com reverência. Trabalho servil, i. é, cuidar do campo, do prado, da vinha, ao menos enquanto se trata de trabalho pesado, não o façais em dia de domingo, exceptuando apenas o que respeita aos afazeres da cozinha para satisfazer as necessidades do corpo e a necessidade de uma longa viagem. No dia do Senhor é permitido ir a sítios próximos, mas não para ocasiões de pecado, antes de boas acções, como seja, ir a locais santos, visitar um irmão ou amigo, assistir um doente ou levar um bom conselho a um atribulado ou ajuda para boa causa. É assim, pois, que convém que o homem cristão venere o dia do Senhor. Na verdade seria por demais iníquo e vergonhoso que aqueles que são pagãos e ignoram a fé de Cristo, porque prestam culto aos ídolos dos demónios, cultuem o dia de Júpiter ou de qualquer outro demónio, e se abstenham de trabalhos quando é sabido que nunca os demónios criaram qualquer dia ou ele lhes pertence e nós, que adoramos o verdadeiro Deus e cremos que o Filho de Deus ressuscitou dos mortos, quanto ao dia da sua ressurreição, ou seja, o domingo, não o respeitássemos minimamente! Não façais, pois, injúria à ressurreição do Senhor, mas homai-a e cultuai-a com reverência, pela esperança que temos relativamente a ela. Na verdade, assim como Ele, Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, que é a nossa cabeça, ao terceiro dia ressuscitou dos mortos na sua carne, assim também nós, que somos seus membros, esperamos vir a ressuscitar na nossa carne, no fim do mundo, a fim de cada qual receber ou o descanso eterno ou a pena eterna; consoante procedeu com o seu corpo neste século, assim receba.

[19] Eis como nós, tomando como testemunhas a Deus e os santos anjos que nos ouvem, pelo uso que agora fazemos da palavra, satisfazemos a nossa dívida para com a vossa caridade, e como, da riqueza do Senhor, tal como nos está preceituado, vos fazemos penhor. Cabe-vos a vós agora pensar e procurar como cada um a quanto recebeu irá apresentá-lo com juros quando o Senhor vier no dia de juízo. Rogamos, pois, à clemência do Senhor, que vos proteja de todo o mal e vos faça dignos companheiros dos seus santos anjos, no seu reino. Isso vos conceda Aquele que vive e reina pelos séculos dos séculos. Ámen.

* * *
Fonte: Lealdade Sacra (http://64.233.169.104/)

São Gregório de Tours (538-594).

São Gregório de Tours (c. 538- 17 de Novembro de 594) foi um historiador galo-romano e bispo de Tours, o que o tornava o principal prelado da Gália. Ele escreveu em um latim deselegante, sem regras gramaticais e barbarizado numa tentativa de um estilo literário, que é no entanto vigoroso e cheio de termos francos e germânicos. Quando a inspiração falhava, ele era rápido em recorrer ao estilo lingüístico da doutrina. Ele é a principal fonte contemporânea da história merovíngia. Seu mais notável trabalho foi seu Decem Libri Historiarum ("Dez Livros de História"), mais conhecido como Historia Francorum ("História dos Francos"), um título dado por cronistas posteriores. Mas ele também é conhecido por suas explicações crédulas dos milagres dos santos, especialmente quatro livros dos milagres de Martinho de Tours. A tumba de São MArtinho era uma grande atração no século VI, e os escritos de Gregório tinham o aspecto prático de promover seu culto altamente organizado.







História dos Francos - Livro I
São Gregório de Tours

Aqui começa o Primeiro Prefácio

O culto das belas letras está em decadência e morre nas cidades da Gália. Enquanto as boas e as más ações se realizam, a barbárie dos povos se desencadeia, as violências dos reis redobram, as igrejas são atacadas pelos heréticos e protegidas pelos católicos, a fé do Cristo torna-se mais ardente entre muitos mas indiferente entre outros, as igrejas igualmente estão enriquecendo pelos devotos e despojadas pelos infiéis, não podemos encontrar um único letrado bastante versado na arte da dialética para descrever tudo isso em prosa ou em versos métricos.

Freqüentemente muitos se lamentavam, dizendo: “Maldita a nossa época, pois o estudo das letras está morto entre nós e não encontramos no povo ninguém capaz de relatar por escrito os acontecimentos presentes”. Assim, como eu não cessava de escutar essas reflexões e outras semelhantes, disse a mim mesmo que, para que a lembrança do passado se conservasse, ela devia chegar ao conhecimento dos homens que estão por vir mesmo sob uma forma grosseira. Eu não posso calar os conflitos dos medíocres nem a vida daqueles que vivem honestamente. Eu fui sobretudo estimulado, por que freqüentemente escutei dizer em meu círculo, para minha surpresa, que um retórico que filosofa é apenas compreendido por um pequeno número, mas aquele que fala a língua vulgar se faz entender pela massa. Quanto ao cálculo dos anos, eu decidi tomar o começo do mundo por ponto de partida do Livro Primeiro, ao qual indiquei abaixo os capítulos.

Começo (do quadro) dos capítulos do Livro Primeiro

I. Adão e Eva

II. Caim e Abel

III. Enoch, o justo

IV. O Dilúvio

V. Chus, inventor da idolatria

VI. Babilônia

VII. Abraão e Ninus

VIII. Isaac, Esaú, Jó e Jacó

IX. José no Egito

X. A travessia do Mar Vermelho

XI. O povo no deserto e Josué

XII. Cativeiro do povo de Israel e as gerações até Davi

XIII. Salomão e a construção do Templo

XIV. Divisão do Reino de Israel

XV. Cativeiro da Babilônia

XVI. Natividade do Cristo

XVII. Os diversos reinos das nações

XVIII. Em que época Lyon foi fundada

XIX. Presentes dos magos e morte dos bebês

XX. Milagres e paixão do Cristo

XXI. José que se esconde

XXII. Tiago, o apóstolo

XXIII. Dia da ressurreição do Senhor

XXIV. Ascensão do Senhor e morte violenta de Pilatos e de Herodes

XXV. Paixão dos apóstolos e Nero

XXVI. Tiago, Marcos e João, o evangelista

XXVII. Perseguição sob Trajano

XXVIII. Adriano; invenções dos heréticos; paixão de São Policarpo e de Justiniano

XXIX. São Potino, Irene e os outros mártires de lyoneses

XXX. Dos sete homens que foram enviados à Gália para pregar

XXXI. A Igreja de Bourges

XXXII. Crocus e o templo de Auvergne

XXXIII. Os mártires que foram supliciados em Auvergne

XXXIV. São Privado, mártir

XXXV. Cerin, bispo e mártir

XXXVI. Natividade de São Martinho e invenção da cruz

XXXVII. Jacques, bispo de Nisibis

XXXVIII. Morte de Antônio monge

XXXIX. Vinda de São Martinho

XL. A matrona Melanie

XLI. Morte violenta do imperador Valente

XLII. Reino de Teodoro

XLIII. Morte violenta do tirano Máximo

XLIV. Urbicus, bispo de Auvergne

XLV. São Hilídius, bispo

XLVI. Os bispos Nepotiano e Artemius

XLVII. Castidade de (dois) amantes

XLVIII. Morte de São Martinho

Fim do quadro dos capítulos do Livro I.

Em nome do Cristo, começo do Livro Primeiro das Histórias

Antes de descrever as lutas dos reis com as nações adversárias, dos mártires com os pagãos, das igrejas com os heréticos, eu desejo confessar minha fé, para que aquele que me leia não duvide que sou católico. Eu quis também, para aqueles que se desesperam com a aproximação do fim do mundo, indicar claramente o número de anos que escorre desde o começo do mundo, recolhendo nas crônicas e histórias um resumo dos fatos passados. Mas antes, eu suplico aos leitores que me desculpem se nas cartas e nas sílabas me acontece de transgredir as regras da arte da gramática, pois não as possuo plenamente.

Meu único cuidado é reter sem nenhuma alteração nem hesitação do coração aquilo que nos ordena acreditar na Igreja, pois sei que aquele que se tornou culpado de pecados pode obter o perdão de Deus pela pureza de sua fé.

Assim, eu acredito em Deus Pai Todo-Poderoso. Eu acredito em Jesus Cristo, seu filho único, Nosso Senhor nascido do Pai, que não foi engendrado, que sempre existiu com o Pai, não no tempo, mas antes do tempo, pois o Pai não poderia ser assim designado se ele não tivesse tido um Filho e este também não seria um filho se ele não tivesse um Pai. Quanto àqueles que dizem: “Foi um tempo onde não existia ainda”, eu os renego com execração e declaro que eles estão excluídos da Igreja. Eu acredito que o Cristo é o Verbo do Pai por quem todas as coisas foram criadas. Eu acredito que esse Verbo foi feito carne, que o mundo foi redimido por sua Paixão e acredito que foi Sua humanidade e não Sua divindade quem sofreu a Paixão. Eu acredito que Ele ressuscitou no terceiro dia, que libertou o homem que estava perdido, que subiu aos céus, que está sentado à direita do Pai e voltará e julgará os vivos e os mortos.

Eu acredito que o Espírito Santo procedeu do Pai e do Filho, que não lhes é inferior, que não é verdade que não tenha existido antes, mas que é igual a ambos, e que, sempre coeterno com o Pai e o Filho, é Deus, estando consubstancial em natureza com eles, igual a eles por sua toda-poderosa, sempiterna como eles em sua essência, que não foi jamais sem o Pai nem o Filho e que não é inferior nem ao Pai nem ao Filho. Eu acredito que essa Trindade Santa subsiste com Suas Pessoas distintas, que uma é a Pessoa do Pai, outra do Filho e outra do Espírito Santo. Eu confesso que nessa Trindade há apenas uma única Divindade, uma única Potência, uma única Essência. Eu acredito que a bem-aventurada Maria permaneceu virgem após sua concepção como ela o era antes, e acredito fielmente em tudo o que foi instituído em Nicéia por 318 bispos.

Quanto ao fim do mundo, eu penso como aprendi dos antigos que antes virá o Anticristo. Pois o Anticristo instituirá antes a circuncisão pretendendo ser o Cristo, pois ele colocará no templo de Jerusalém sua estátua para que o adoremos como o Senhor o disse. Nós leremos: “Vós vereis a abominação da desolação se instalar no lugar santo”. Mas esse dia permanece ignorado de todos os homens. O Senhor mesmo declara, quando diz: “Ninguém sabe nada desse dia, nem dessa hora, nem mesmo os anjos dos céus, nem o Filho, salvo somente o Pai”. Sobre isso nós responderemos aos heréticos que nos atacam, pretendendo que o Filho é inferior ao Pai, pois Ele ignora esse dia. Que eles saibam, pois, que essa palavra Filho designa o povo cristão de quem Deus profetizou: “Eu serei para eles um pai, e eles serão para mim filhos” . Se a predição fosse aplicada ao Filho único, jamais Deus teria colocado os anjos antes Dele. Ele disse, com efeito: “Nem os anjos dos céus, nem o Filho, para mostrar que ele não falava do Filho único, mas do povo adotivo”. Nosso fim é o Cristo, ele mesmo, que nos dará a vida eterna com uma larga bem-aventurança, se nos convertermos a Ele.

Quanto à cronologia desse mundo, as Crônicas de Eusébio, bispo de Cesaréia, e de padre Jerônimo, expõem claramente, apresentando um cálculo de toda a série dos anos. Por sua vez, Horósio, que fez pesquisas muito diligentes, reuniu em um volume a cronologia completa, desde o começo do mundo até o seu tempo. Victorius , também fez a mesma coisa, assim como uma pesquisa sobre a data das solenidades da Páscoa. Seguindo os exemplos dos escritores pré-citados, nós nos propomos, se o Senhor condescender-nos e nos prestar Seu socorro, de calcular todo o conjunto dos anos, desde a criação do primeiro homem até o nosso tempo. Assim, nós chegaremos mais facilmente se começarmos pelo próprio Adão.

Capítulo I

No começo, o Senhor formou o céu e a terra em seu Cristo, que é o princípio de todas as coisas, isto é, em Seu Filho, e, após a criação de todos os elemento do mundo inteiro, Aquele, pegando uma porção frágil de limo, fabricou um homem à Sua imagem e à Sua semelhança e soprou o sopro de vida sobre a face desse homem que se tornou assim uma alma vivente. Enquanto ele dormia, uma costela lhe foi retirada, uma mulher. Eva foi criada. Não é duvidoso que esse primeiro homem, Adão, prefigurou antes de pecar o Senhor redentor. O próprio Senhor, quando dormiu durante a Paixão, e de seu lado corria água e sangue, simbolizou a Igreja virgem e imaculada, redimida pelo sangue e purificada pela água, essa Igreja, que não tem mais esforço nem ferrugem, porque por seu esforço ela foi lavada nas águas por causa da ferrugem estendida sobre a cruz.

Pois, esses primeiros homens, que viveram felizes no meio das graças do Paraíso, seduzidos por uma astúcia de serpente, transgrediram os preceitos divinos e, expulsos de sua morada angelical, foram entregues ao sofrimentos do mundo.

Capítulo II

Tendo conhecido seu companheiro, a mulher concebeu e deu a luz a dois filhos. Mas enquanto Deus acolheu favoravelmente o sacrifício de um dos dois, o outro encheu-se de um ciúme ardente e, primeiro parricida, se dirigiu para retomar o sangue fraternal; ele atacou seu irmão, bateu-lhe, matou-lhe.

Capítulo III

Desde então, a raça inteira está violentada para uma criminalidade execrável, à exceção de Enoch, o justo, que, andando nas vias de Deus, foi adotado por causa de sua honestidade pelo próprio Senhor, que o arrancou do meio do povo pecador. Nós lemos, com efeito, isto: “Enoch foi com Deus e desapareceu porque Deus o levou.”

Capítulo IV

O Senhor, irritado com as iniquidades do povo que não andava sob seus traços, provocou o dilúvio e destruiu todos os seres vivos da superfície da Terra que inundou esse dilúvio. Só Noé, que lhe era muito fielmente ligado, e que representava um exemplar de seu modelo divino, foi salvo numa arca com sua própria mulher e aqueles seus três filhos para que sua posteridade fosse continuada.

Aqui os heréticos nos criticam, nos perguntando porque a Escritura Santa disse que Deus se colocou em cólera. Que eles saibam, pois, que nosso Deus não se coloca em cólera como um homem. Ele fica descontente para nos amedrontar, nos persegue para nos chamar à ordem, se coloca em cólera para nos corrigir. Mas eu não hesito em pensar que esta espécie de arca simbolizava a mãe Igreja. Ela também, com efeito, vagava no meio das torrentes e dos rochedos deste século, nos acolhendo em seu seio maternal, seu piedoso abraço e sua proteção nos defendem contra os males que nos ameaçam.

De Adão até Noé nós contamos dez gerações: Adão, Set, Enos, Cainã, Malaleel, Jared, Enoch, Matusalém, Lamech, Noé. Durante essas dez gerações, 2.242 anos escorreram. Adão foi enterrado na terra dos Enacim, que foi antes nomeada Hebron, como indica claramente o Livro de Josué.

Capítulo V

Noé tinha antes do Dilúvio três filhos: Sem, Cham e Jafé. Povos saíram de Jafé assim como de Cham e de Sem e, como conta a história antiga, é por eles que o gênero humano se disseminou sob todos os céus. O filho primogênito de Cham foi Chus. Este foi o primeiro inventor da arte da magia e da idolatria que lhe ensinou o diabo. Primeiro ele elevou, à instigação do diabo, um ídolo destinado a ser adorado; ele mostrou também aos homens um pretendido milagre das estrelas e do fogo caindo do céu. Ele retornou junto aos persas e os persas o denominaram Zoroastro, isto é, a estrela viva. Preparados assim por ele para adorar o fogo, estes o adoram mesmo como um deus que um fogo divino teria consumido.

Capítulo VI

Como os homens se multiplicando se dispersaram por toda a terra, eles descobriram ao sair do Oriente a planície verdejante de Sennaar, onde, edificando uma cidade, eles tentaram construir uma torre para tocar os céus. Mas Deus os confundiu, por sua vez, em sua vã pretensão e, em sua língua, dispersando o mundo sobre uma vasta extensão através de toda a terra, e o nome que se chamava a cidade era Babel, isto é, confusão, porque Deus aí teria confundido suas línguas. Babilônia foi edificada por Nemrod, o gigante, filho de Chus. Ela estava disposta, como conta a História de Orósio , em forma de quadrados, em uma planície admirável.

Suas muralhas, de pedra argilosa e de barro cozido, revestidas de betume, tinham cinquenta cúbitos de largura, duzentos cúbitos de altura e 470 estádios de torno. Um estádio mede cinco arependis, havia vinte e cinco portas de cada lado, o que perfazia (um total de) cem portas. Os batentes dessas portas, de uma grandeza extraordinária, eram de bronze fundido. O mesmo historiográfo conta bem outras coisas sobre essa cidade e acrescenta: “Apesar dessa magnificência de edifício, ele foi arruinado e demolido”.

Capítulo VII

O filho primogênito de Noé foi Sem. Abraão é seu descendente na décima geração. Essas gerações são: Noé, Sem, Arphaxad, Salé, Héber, Falech, Rheu, Saruc, Tharé, que engendrou Abraão. Durante essas dez gerações, a saber, de Noé até Abraão, se conta 942 anos. Nesse tempo reinava Ninus, que edificou a cidade de Ninus, que se chama Nínive. O profeta Jonas , avaliou o comprimento de seu perímetro em três jornadas de marcha. Foi no quadragésimo-terceiro ano de seu reinado que nasceu Abraão. Esse Abraão é o princípio de nossa fé. Ele recebeu as promessas.

O Cristo Nosso Senhor lhe revelou que nasceria e sofreria por nós operando uma mudança de vítima; ele próprio disse assim nos Evangelhos: “Abraão sobressaltou-se por ver meu dia; ele o viu, ele se rejubilou” . Esse holocausto foi oferecido sob o monte Calvário, onde o senhor foi crucificado, conta Sulpício Severo em sua Crônica, e ainda a opinião corrente, na própria cidade de Jerusalém. Sob esse monte se estabeleceu a cruz santa, a qual o Redentor foi pregado e da qual seu sangue bem-aventurado correu.

Esse Abraão recebeu o sinal da circuncisão para mostrar que o que ele operou em seu corpo nós devemos suportar em nosso coração, como disse o profeta: “Circuncisai-vos para vosso Deus, e circuncisais o prepúcio de vosso coração, e não seguireis os deuses estrangeiros”. Depois, ainda: “Todos aqueles que não tiverem o coração circuncisado não entrarão em meu santuário”. Deus denominou Abraão o pai de numerosas nações após ter juntado uma sílaba a seu nome.

Capítulo VIII

Quando esse último fez cem anos, engendrou Isaac. Depois, Isaac teve em sexagésimo ano dois filhos gêmeos de Rebeca. O primeiro foi Esaú ou Edom, isto é, o Camponês, que por glutonaria vendeu sua primogenitura. É o pai dos idumeus, dos quais saiu Jobab na quarta geração. Ele teve Esaú, Raguel, Zara, Jobab ou Jó. Esse último viveu 249 anos; ele estava no seu octagésimo nono ano quando ele foi libertado de sua enfermidade. Após sua cura ele viveu 170 anos, todos os seus bens lhe foram restituídos em dobro e teve a alegria de ter tantos filhos quantos tinha perdido.

Capítulo IX

O segundo foi Jacó. Jacó, o preferido de Deus, como ele disse pela boca do profeta: “Eu amei Jacó, mas odiei Esaú”. Depois de sua luta com o anjo, Jacó foi chamado Israel, e dele saíram os israelitas. Ele engendrou doze patriarcas: Rubens, Simão, Levi, Judá, Issachar, Zabulon, Dan, Naphatali, Gad, Asser. Depois eles engendraram José de Rachel quando ele estava no nonagésimo segundo ano de sua idade. Ele amou este último mais que seus outros filhos. Ele teve ainda dela Benjamin, o último de todos. Quando José tinha a idade de dezesseis anos, ele, que prefigurava o Redentor, teve sonhos que relatou a seus irmãos: parecia-lhe que ligava feixes de trigo e que seus irmãos adoravam o seu, e uma outra vez que o sol e a lua, assim como onze estrelas, avançavam diante dele. Essa coisa provocou junto a seus irmãos um grande ódio contra ele. Inflamados de ciúme, eles o venderam por trinta peças de prata aos ismaelitas, que iam ao Egito.

Na iminência de uma fome, no momento em que eles desciam ao Egito, eles foram reconhecidos por José, mas eles não reconheceram José. Finalmente, ele se fez conhecer a eles depois de os ter submetido a numerosas provas, e quando trouxeram Benjamin, pois este último também nascera de Rachel, sua mãe. Depois desses acontecimentos, todos os israelitas desceram ao Egito, e por intermédio de José gozaram do favor do faraó. Quanto a Jacó, depois de ter abençoado seus filhos, morreu no Egito e foi enterrado por José no sepulcro de seu pai na terra de Canaã. Após a morte de José e do faraó, toda a raça foi reduzida à servidão. Ela foi libertada por Moisés depois das dez pragas do Egito, quando o faraó desapareceu no Mar Vermelho.

Capítulo X

Como muitos falaram dessa travessia do mar, pareceu-me que devia inserir neste resumo alguns detalhes sobre o sítio deste reino e sobre a própria travessia. O Nilo corre através do Egito como vós o sabeis perfeitamente, e ele o irriga no seu curso, e é por isso que os egípcios são chamados também habitantes do Nilo. Numerosos visitantes desses lugares dizem que suas margens são agora cheias de monastérios sagrados. Sobre a margem desse rio está situada não a Babilônia que nós evocamos acima, mas a cidade de Babilônia, na qual José edificou, com uma arte admirável, silos em pedras de cantaria (taille) e em pedra não-talhada. Eles são muitos largos na base, mas estreitos no topo, de sorte que o trigo aí é introduzido por uma pequena abertura. Esses silos se vêem ainda hoje.

Foi desta cidade que o rei se dirigiu em perseguição aos hebreus com exércitos de carros e uma numerosa tropa a pé. O rio dito acima, que vem do Oriente, vai na direção do Ocidente para o mar Vermelho; mas à Ocidente se destaca um lago ou um braço do Mar Vermelho. Ele corre face a oeste em torno de cinqüenta milhas de comprimento e dezoito de largura. Na extremidade deste lago, a cidade de Clysma foi edificada não por causa da fertilidade do lugar, pois ele não é dos mais estéreis, mas pela comodidade de seu porto, por onde os navios que vinham da Índia aí paravam e de onde as mercadorias compradas são encaminhadas através de todo o Egito.

Os hebreus, que através do deserto se dirigiam em direção ao lago, chegavam até o dito mar e aí descobriram a água doce, eles aí acamparam. É nesse lugar, que está limitado por sua vez pelo deserto e o mar, que eles pararam como está escrito: “Faraó, sabendo que o mar e o deserto os tinham cercado e que eles não tinham solução para poder avançar, marchou em sua perseguição”. À aproximação dos egípcios, Moisés, que o povo tinha aclamado, jogou, sob a ordem da divindade, uma vara sob o mar, que se dividiu, e eles marcharam no seco e protegidos de todos os lados, como disse a Escritura, por uma muralha de água chegaram direito, são e salvos, até a margem que está ao pé do monte Sinai, sob a condução de Moisés, enquanto os egípcios se afogaram.

Contou-se muitas coisas sobre essa travessia, como eu disse, mas nós nos reservamos a não reproduzir nesta página apenas os fatos que nós obtivemos de pessoas competentes e de uma maneira certa de homens que foram àqueles lugares. Eles contam também que os sulcos que foram feitos pelas rodas dos carros permanecerem até os nossos dias e que são discerníveis no fundo da água tanto quanto o olhar aí possa penetrar. A agitação do mar os esconde um pouco; mas logo que ele se acalma eles reaparecem de novo miraculosamente tais como eles eram.

Outros dizem que depois de terem feito um pequeno circuito através do mar, os hebreus teriam voltado à mesma margem de onde tinham partido. Outros ainda afirmam que a entrada no mar foi a mesma para todos, mas no dizer de alguns, cada tribo viu se abrir sua via própria; eles interpretaram abusivamente o testemunho dos Salmos: “Ele dividiu o Mar Vermelho em sendas”. Nós precisamos interpretar estas sendas num sentido espiritual e não ao pé da letra. Há, com efeito, neste século, que chamou ao figurado um mar, muitas “sendas”. Todos os homens não podem uniformemente, nem seguindo o mesmo caminho, chegar à vida eterna.

Uns, com efeito, a alcançam na primeira hora; são aqueles, que, nascidos de novo pelo batismo, podem perseverar sem ser maculados por todos os pecados da carne até o fim da vida presente. Outros a alcançaram na terceira hora; são aqueles que, em sua maioria, se converteram; outros à sexta; são aqueles que reprimem os ardores da luxúria. É, pois, a essas diferentes horas, como expôs o evangelista, que eles são conduzidos à obra da vinha do Senhor segundo sua fé pessoal. Tais são as sendas pelas quais se atravessa esse mar.

Quanto à assertiva segunda a qual os hebreus chegados até o mar e teriam retornado para ocupar a margem do lago, é uma alusão ao que o Senhor disse a Moisés: “No seu retorno, que eles acampem na região de Phiairoth, que é entre Magdal e o mar frente a Beelsephon”. Não é duvidoso que essa passagem do mar e a coluna de nuvens simbolizam nosso batismo, assim como disse o bem-aventurado apóstolo Paulo: “Eu não quero vos deixar ignorar, irmãos, que nossos pais foram todos sob uma nuvem que todos foram batizados sob a condução de Moisés no meio da nuvem e do mar”. Quanto à coluna de fogo, ela prefigurou o santo espírito. Da natividade de Abraão até a saída do Egito dos filhos de Israel e a passagem do Mar Vermelho, que teve lugar no octogésimo ano de Moisés, conta-se um número de quatrocentos e sessenta de dois anos.

Capítulo XI

Em seguida, durante quarenta anos, os israelitas habitaram o deserto. Eles foram instruídos nas leis e foram alimentados de alimentos angélicos. Em seguida, depois de ter recebido a lei e atravessado o Jordão com Josué, eles obtiveram a terra prometida.

Capítulo XII

Após sua morte, enquanto eles desprezaram os preceitos divinos foram frequentemente submetidos ao jugo dos povos estrangeiros. Mas, convertendo-se, eles sofreram, e com o socorro de Deus eles foram libertados pelos braços dos homens fortes. Depois disso, eles pediram ao Senhor, por intermédio de Samuel, um rei como as outras nações; eles receberam primeiro Saul, depois David. Assim pois, de Abraão até David, houve quatorze gerações: Abraão, Isaac, Jacó, Judá, Pharis, Esdrom, Aram, Aminadab, Naasson, Salma, Booz, Obeth, Jessé, David; Davi engendrou, por sua vez, de Betsabé a Salomão. Este último foi elevado ao trono pelo profeta Nathan, por seu irmão e por sua mãe.

Capítulo XIII

Depois da morte de David, quando seu filho começou a reinar, o Senhor lhe apareceu e prometeu-lhe concordar com o que ele pedisse. Mas ele, desdenhando as riquezas terrestres, pediu, de preferência, a sabedoria. Isto agradou ao Senhor assim que o escutou: “Você não buscou os reinos do mundo, nem suas riquezas, mas você buscou a sabedoria; recebei-a pois. Antes de você não houve ninguém que fosse tão sábio e após você não haverá.” É o que se provou em seguida no julgamento que ele pronunciou em um litígio entre duas mulheres a respeito de uma criança. Salomão edificou um templo admirável ao Senhor; empregou muito ouro e prata, bronze e ferro, de sorte que alguns diziam que jamais semelhante edifício tinha sido construído no mundo.

Da saída do Egito dos filhos de Israel até a construção do templo, que teve lugar durante o sétimo ano do reino de Salomão, contam-se quatrocentos e oitenta anos do testemunho da história dos reis.

Capítulo XIV

Depois da morte de Salomão o reino foi dividido em duas partes por causa da duração de Roboão. Duas tribos ficaram com Roboão; chamavam-nas Judá. A Jeroboão adveio dez tribos que foram denominadas Israel. Depois disso, eles (os judeus) caíram na idolatria e nem as prédicas dos profetas, nem seus próprios males, nem os desastres da pátria, nem a queda de seus reis, os corrigiram.

Capítulo XV

Finalmente o Senhor, irritado, incitou contra eles Nabucodonosor, que os levou em cativeiro à Babilônia com tudo o que decorava o templo. Durante esse cativeiro, Daniel, profeta eminente, que, cercado de leões famintos, não tinha sofrido nenhum ferimento, e três crianças, que tinham escapado do meio das chamas vivas, partiram cativas. Foi também durante esse cativeiro que Ezequiel profetizou e nasceu o profeta Esdras.

Desde David até a destruição do templo e o cativeiro da Babilônia, houve catorze gerações: David, Salomão, Roboão, Abia, Asa, Josafá, Joram, Ozias, Joatham, Achaz, Ezequiel, Manassés, Amon e Josias. Durante essas catorze gerações conta-se um número de trezentos e noventa anos . E eles (os judeus) foram libertos desse cativeiro por Zorobabel, que restaurou, em seguida, o templo e a cidade. Esse cativeiro é, eu o penso, o símbolo do cativeiro na qual é conduzida a alma pecadora e onde ela será horrivelmente exilada, se Zorobabel, isto é, o Cristo, não libertá-la.

O próprio Senhor, com efeito, disse no Evangelho: “Quando o Filho vos tiver libertado, vós sereis livres.” Que se preparem então em nós um templo onde ele condescenderá habitar, um templo onde a fé luzirá como ouro, onde a eloquência da predicação resplandecerá como a prata, onde todos os ornamentos desse templo visível brilham graças à pureza de nossos sentimentos. Que à nossa boa-vontade ele condescenda consentir um efeito salutar, pois “se não é ele que terá edificado a morada, é em vão que trabalharão aqueles que quiseram-na edificar”. Diz-se que esse cativeiro durou setenta anos.

Capítulo XVI

Tendo retornado graças a Zorobabel, como nós o dissemos, logo eles murmuraram contra Deus, logo eles se jogaram aos pés dos ídolos e imitaram as abominações que praticavam os gentios. Pois, enquanto desprezavam os profetas de Deus, eles foram entregues aos gentios, colocados sob o jugo, massacrados até que o próprio Senhor, prometido pela voz dos patriarcas e dos profetas, desceu no seio da Virgem Maria por intermédio do Espírito Santo, condescendendo nascer para a redenção tanto desta nação quanto de todas as nações.

Desde a transmigração até a natividade do Cristo, houve catorze gerações: Jechonias, Salathiel, Zorobabel, Abiúde, Eliacim, Azor, Sadoc, Joachim, Eliud, Eleazarde, Mathan, Jacó, José, esposo de Maria, de quem Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu, e da qual José conta como a décima quarta.

Capítulo XVII

Para não ter o ar de conhecer que existe somente o povo hebreu, lembremos os outros reinos e em que tempo da história dos israelitas eles existiram: no tempo de Abraão, Ninus reinava sobre os assírios, Europa sobre Sycione ; em relação aos egípcios, era o décimo sexto governo que em sua língua eles chamavam dinastia. No tempo de Moisés, junto aos Argians, reinava Tropas, seu sétimo rei; na Ática, Cécrops, o primeiro rei ; junto aos egípcios Cencris, o décimo segundo, aquele que foi afogado no Mar Vermelho; junto aos assírios, Agatad, o décimo sexto; junto aos Sicionianos, Marate.

No tempo de Salomão, quando ele reinava sobre Israel, entre os latinos reinava o quinto rei, Sylvios; entre os lacedemônios, Festus; em Corinto, o segundo rei, Óxion; entre os egípcios, os tebanos reinavam desde 126; entre os assírios reinava Eutrope; entre os atenienses, o décimo rei, Agasate.

No tempo em que Amon reinava sobre Judá, quando o povo partiu em cativeiro para a Babilônia, Argeu reinava sobre os macedônios, Gygès sobre os lídios, Vafrés sobre os egípcios; na Babilônia era Nabucodonosor, que os trouxera em cativeiro, entre os romanos, o sexto rei, Servius.

Capítulo XVIII

Depois desses personagens, Júlio César foi o primeiro imperador que obteve o poder monárquico sobre todo o império. O segundo foi Otávio, sobrinho de Júlio César, que chamamos Augusto. É dele que o mês de agosto tirou seu nome. É durante o décimo nono ano de seu reino que Lyon foi fundada nas Gálias, como nós descobrimos de uma maneira muito certa. Essa cidade foi em seguida ilustrada e muito bonremente qualificada com o sangue dos mártires.

Capítulo XIX

No quadragésimo terceiro ano do reino de Augusto, Nosso Senhor Jesus Cristo nasceu pela carne, como nós o dissemos, da Virgem Maria em Belém, fortaleza de David. Vendo do lado do Oriente uma grande estrela, magos vieram com presentes e modestamente adoraram a criança, oferecendo seus presentes. Herodes, ciumento de sua realeza e se esforçando para perseguir o Cristo Deus, colocou as crianças à morte. Ele próprio também foi atingido em seguida pela justiça divina.

Capítulo XX

Pois enquanto o Senhor nosso Deus, Jesus Cristo, pregava a penitência, distribuindo a graça do batismo, prometendo o reino celeste a todas as nações, operando prodígios e milagres entre as populações, transformando água em vinho, fazendo desaparecer as febres, dando a luz aos cegos, devolvendo a vida aos homens enterrados, libertando os possuídos dos espíritos imundos, curando os leprosos que tinham vergonha de sua pele miserável, e, enquanto realizava ainda muitos outros milagres, mostrando às populações da maneira mais manifesta que ele era seu Deus, a cólera se acendeu entre os judeus, seu ciúme se desencadeou e seu espírito, alimentado do sangue dos profetas, trabalhou criminosamente preparando a morte do Justo.

Também para que fossem cumpridos os oráculos dos velhos profetas, ele foi traído por um discípulo, condenado pelos pontífices, ridicularizado pelos judeus, crucificado com criminosos e depois de ter entregue a alma, guardado pelos soldados. Essas coisas acontecidas, as trevas se espalharam pelo mundo inteiro e muitos que tinham se convertido gemendo confessaram-se a Jesus, filho de Deus.

Capítulo XXI

Prendeu-se também José que, após o ter embalsamado, o tinha enterrado em seu próprio sepulcro. José foi fechado em uma cela e guardado pelos príncipes dos próprios padres que tinham, como o relatam os atos de Pilatos endereçados ao imperador Tibério, mais de animosidade contra ele que contra o próprio Senhor. Ele também estava guardado pelos próprios padres enquanto que este o foi por soldados. Mas quando o Senhor ressuscitou enquanto os guardas estavam alarmados por uma visão angélica e não se encontravam na tumba, as paredes da cela na qual José estava detido suspenderam-se no ar durante a noite e ele foi libertado da prisão por um anjo que o descobriu, depois os muros foram colocados no lugar. Como os pontífices culpavam os guardas eles reclamavam com insistência o corpo santo, os soldados disseram-lhe: “Devolvei-vos vós mesmos José, nós devolveremos o Cristo; mas, dizendo a verdade, vós não sois mais capazes de devolver o benfeitor de Deus que nós o filho de Deus”. Os tendo assim confundidos, os soldados foram liberados sob essa desculpa.

Capítulo XXII

Relata-se que quando o apóstolo Tiago viu o Senhor já morto sobre a Cruz, teria atestado e jurado que não comeria pão até contemplar o Senhor ressuscitado. Também quando no terceiro dia o Senhor voltou após ter vencido triunfalmente o Tártaro, ele se mostrou a Tiago e disse: “Levantai Tiago, come, porque eu ressuscitei dentre os mortos”. Esse personagem Tiago, “O Justo” se chama o “irmão do Senhor” porque era filho de José, que o tinha engendrado de outra mulher.

Capítulo XXIII

Nós acreditamos que o domingo da ressurreição teve lugar no primeiro dia (da semana) e não no sétimo, como muitos pensam. É o dia da ressureição do Nosso Senhor Jesus Cristo que nós chamamos precisamente domingo, por causa da santa ressurreição. Foi o primeiro dia que viu a luz no começo do mundo, e foi o primeiro que mereceu contemplar o Senhor ressuscitando da tumba.

Desde o cativeiro de Jerusalém e a destruição do Templo até a Paixão do Nosso Senhor Jesus Cristo, isto é, até o décimo sétimo ano de Tibério, conta-se 668 anos.

Capítulo XXIV

O Senhor ressuscitado se entreteve durante quarenta dias com seus discípulos do reino de Deus. Diante seus olhares Ele foi levado numa nuvem e subiu aos céus onde está sentado gloriosamente à direita do Pai. Quanto a Pilatos, ele enviou seus atos a Tibério César e fez um resumo tanto dos milagres do Cristo quanto de sua paixão e de sua ressurreição. Esses atos nos são hoje conservados. Disso fez Tibério um resumo aos senadores, mas o Senado os rejeitou com indignação porque eles não lhe tinham sido endereçados em primeiro lugar. É daí que os primeiros germes do ódio contra os cristãos se multiplicaram.

Entretanto, Pilatos não permaneceu impune por sua maldade criminosa, o assassinato que cometeu contra Nosso Senhor Jesus Cristo: ele se matou com as próprias mãos. Muitos acreditam que ele foi maniqueísta, baseando-se nessa frase que se lê no Evangelho: “Vários vieram dentre os galileus, para lhe anunciar que Pilatos tinha misturado seu sangue à aquele de seus sacrifícios”. Da mesma maneira o rei Herodes, enraivecido contra os apóstolos do Senhor, foi atingido pela vontade divina por todos os seus crimes. Intumescido e cheio de vermes, ele pediu uma faca para curar seu mal e achou a liberdade golpeando-se com sua própria mão.

Capítulo XXV

O bem-aventurado apóstolo Pedro chegou a Roma sob o imperador Cláudio, o quarto desde Augusto. Ali ele pregou e provou por numerosos milagres, da maneira mais evidente, que o Cristo é o Filho de Deus.

Foi desde essa época que começou a existir cristãos na cidade de Roma. Pois, como o nome do Cristo se espalhava cada vez mais através das populações, o ciúme da antiga serpente se levantou contra Ele e em todas as entranhas o imperador Nero, este debochado, vão e soberbo. Esse súcubo se entregava aos homens ao mesmo tempo que os desejava; ele, que violou sua mãe da maneira mais imunda, suas irmãs e todas as mulheres de sua corte, atingiu o ápice de sua malícia atacando primeiro o culto do Cristo e desencadeando uma perseguição contra os crentes.

Ele tinha ao seu lado Simon, o mágico, homem cheio de crueldade e antigo mestre em toda a arte da magia. Esse personagem tinha sido expulso pelos apóstolos do Senhor, Pedro e Paulo. Furioso porque eles pregavam o Cristo filho de Deus e desdenhavam a adoração dos ídolos, Nero fez Pedro perecer sobre a cruz e Paulo pela espada. Mas ele próprio, que buscava fugir de uma revolta dirigida contra ele, se matou com suas próprias mãos a quatro milhas da cidade.

Capítulo XXVI

Tiago, irmão do Senhor, e Marcos, o Evangelista, receberam então a coroa de um martírio glorioso pelo nome de Cristo; mas o primeiro de todos que entrou nesse caminho foi o mártir levita Etienne. Após o assassinato do apóstolo Tiago, uma grande calamidade se abateu sobre os judeus. Com efeito, quando da ascensão de Vespasiano, o templo foi incendiado e 600.000 judeus pereceram nessa guerra, pela espada e pela fome. Quanto à Domiciano, ele foi o segundo depois de Nero a exercer a repressão com rigor contra os judeus. Ele confinou o apóstolo João ao exílio na ilha de Patmos, e cometeu diversas crueldades contra as populações. Depois de sua morte, o bem-aventurado apóstolo evangelista João voltou do exílio. Quando ele ficou velho e cheio de dias, após uma vida perfeita a serviço de Deus, ele se deitou vivo em um sepulcro. Relata-se que ele não experimentou a morte até que o Senhor viesse de novo para julgar; é ele mesmo quem diz nos evangelhos nesses termos: “Eu quero que ele permaneça até que Eu volte”.

Capítulo XXVII

O terceiro após Nero, Trajano, desencadeou uma perseguição contra os cristãos. É sobre ele que o bem-aventurado Clemente, que foi o terceiro bispo da Igreja Romana, sofreu o martírio, que São Simeão, bispo de Jerusalém, filho de Cleofas, foi, diz-se, crucificado pelo nome do Cristo e que Inácio, bispo de Antioquia, foi conduzido à Roma e entregue às feras. Tudo isso se cumpriu no tempo de Trajano.

Capítulo XXVIII

Depois dele, Hélios Adriano foi imperador. Foi por Hélios Adriano, sucessor de Domiciano, que Jerusalém foi denominada aelia, porque foi ele quem a restaurou. Depois dessas paixões dos santos, não foi suficiente ao partido adverso ter excitado as nações incrédulas contra os adoradores do Cristo; foi necessário ainda desencadear cismas entre os próprios cristãos. Provocou heresias, e a fé católica dividida e interpretada de uma maneira e de outra. Com efeito, sob o reino de Antonino, surgiu o erro absurdo dos marcionitas e dos valentinianos, e Justino, o filósofo, após ter escrito obras sobre a igreja católica, recebeu a coroa do martírio pelo nome do Cristo.

Na Ásia, onde se desencadeou uma perseguição, o bem-aventurado Policarpe, discípulo de João, apóstolo e evangelista, foi consagrado ao Senhor pelo fogo no octagésimo primeiro ano de sua idade com um puríssimo holocausto. Nas Gálias muitos foram coroados de pérolas celestes em nome do Cristo graças a seus martírios. As narrativas de suas paixões são conservadas fielmente entre nós até os nossos dias.

Capítulo XXIX

Entre esses mártires havia o primeiro bispo da igreja de Lyon, Pothin, e cheio de dias sofreu e suportou diversos suplícios em nome do Cristo. Pois o bem-aventurado Irineu, sucessor desse mártir, que tinha sido enviado a esta vila pelo bem-aventurado Policarpe, se distinguiu por suas admiráveis virtudes. Em um curto espaço de tempo converteu inteiramente, sobretudo pela predicação, a cidade ao cristianismo. Mas quando veio a perseguição, o diabo perpetrou, pela mão de um tirano, matanças e uma tão grande multidão de cristãos aí foi degolada por ter confessado o nome do Senhor que através dos lugares escorreu o sangue cristão. Nós não podemos recolher seu nome (do tirano), nem seus nomes (dos cristãos), pois o Senhor os registrou no livro da vida. Infligindo ao bem-aventurado Irineu diversos suplícios em sua presença, o carrasco o consagrou ao Senhor Cristo pelo martírio. Depois dele quarenta e oito mártires foram também supliciados, entre eles nós lemos que o primeiro foi Véctios Epagathus.

Capítulo XXX

Sob Dece, imperador, numerosos conflitos se desencadearam contra o nome cristão, e houve tantos massacres de cristãos que é impossível numerá-los. Babylas, bispo de Antioquia, com três crianças, a saber, Urbano, Prilidan e Epolon; Xisto, bispo da igreja romana, e Laurent, arquidiácono, assim como Hipólito, pereceram martírios por terem confessado o nome do Senhor. Valentiniano e Novatien, que eram então os principais chefes dos heréticos, atacaram a nossa fé sob a pressão do inimigo.

Nesse tempo, sete homens, que tinham sido ordenados bispos, foram enviados para pregar nas Gálias, como conta a história da paixão do santo mártir Saturnino. Ele disse: “Sob Dece e Grat, cônsules, assim como uma fiel lembrança disso é conservada, a cidade de Toulouse recebeu São Saturnino, seu primeiro e eminente bispo”. Vejamos, pois, aqueles que foram enviados: junto aos turanginos o bispo Gatien, entre os arlesianos o bispo Trophine, em Narbonna o bispo Paulo, em Toulouse o bispo Saturnino, entre os parisienses o bispo Denis, na Auvergne o bispo Austremoine; junto aos limusinos, Martial foi designado como bispo. Um deles, o bem-aventurado Denis, bispo de Paris, depois de ter sofrido diversos suplícios em nome do Cristo, terminou a vida presente golpeado pela espada.

Quanto à Saturnino, quando estava seguro de sofrer o martírio, disse a dois de seus padres: “Veja que eu já estou imolado, e o momento de minha desaparição é iminente. Eu vos peço não abandonar-me completamente enquanto meu fim não tiver sido completo como ele deve ser”. Enquanto que, após sua prisão, ele foi conduzido ao capitólio, aqueles o abandonaram e ele ficou estendido sozinho. Quando se viu abandonado por eles, conta-se que ele fez essa súplica: “Senhor Jesus Cristo, escute-me do alto de teu santo céu. Que jamais essa igreja mereça o destino de ter um pontífice escolhido entre seus habitantes”. Pois nós sabemos o que se passou até agora nessa cidade. Quanto a ele, foi amarrado atrás de um touro furioso e precipitado do alto do capitólio. Assim ele terminou sua vida.

Gatien, Trophine e Austremoine, assim como Paulo e Marcial, que viveram na maior santidade depois de terem conquistado a Igreja dos povos e difundido em todos os lugares a fé do Cristo, faleceram numa bem-aventurada contrição. Assim deixando a terra, uns pela via do martírio, outros por contrição, esses homens foram igualmente reunidos no mundo celeste.

Capítulo XXXI

Um de seus discípulos, encontrando-se na cidade de Bourges, anunciou aos habitantes aquele que dá a salvação a todos, o Cristo Senhor. Entre estes, somente alguns eram crentes; ordenados clérigos, eles se iniciaram na prática do canto e aprenderam como se constrói uma igreja e como se devem celebrar as solenidades em honra do Deus Todo-Poderoso; mas, ainda tendo somente poucos recursos para construir, eles buscaram a casa de um habitante para dela fazer uma igreja. Os senadores e outros personagens mais afortunados do lugar estavam então ligados aos cultos pagãos; quanto aos crentes, eles pertenciam aos meios pobres, conforme a palavra do Senhor, onde ele culpa os judeus nesses termos: “Os prostituídos e os publicanos vos precederão no Reino de Deus”.

Aqueles, pois, não tendo obtido a casa deste a quem eles tinham pedido, foram encontrar um certo Leocádius, eminente senador das Gálias, que pertencia à família de Véctius Epagathus, o qual tinha sofrido o martírio em Lyon em nome do Cristo, como nós lembramos acima. Quando eles lhe expuseram sua petição, ao mesmo tempo que sua fé, esse homem respondeu: “Se a casa que eu tenho na cidade de Bourges devesse ser digna dessa obra, eu não recusaria emprestá-la”.

Escutando estas palavras, eles se prosternaram a seus pés e tendo-lhe oferecido 300 peças de ouro com um prato de prata, lhe disseram que essa casa era digna que aí se celebrassem os mistérios. Aceitando deles três peças de ouro a título de agradecimento, ele lhes abandonou generosamente o resto, e como ainda estava engajado nos erros da idolatria, se fez cristão e fez de sua casa uma igreja. É agora a primeira igreja da vila de Bourges. Ela foi admiravelmente restaurada e ornada das relíquias do primeiro mártir Etienne.

Capítulo XXXII

Valeriano e Galiano foram os vigésimos sétimos a governar o Império Romano; eles desencadearam em seu tempo uma grande perseguição contra os cristãos. Foi então que Cornélio ilustrou Roma com seu sangue bem-aventurado e Cipriano Cartago. Em seu tempo também Chrocus, rei dos alamanos, tendo erguido um exército, invadiu as Gálias. Conta-se que esse Chrocus era de uma grande arrogância. Após ter cometido um certo número de maldades supostamente pelo conselho de uma mãe má, ele mobilizou, como nós dissemos, a nação dos alamanos, invadiu todas as Gálias e demoliu de cima abaixo todos os monumentos que tinham sido construídos desde a Antigüidade.

Vindo à Auvergne, ele incendiou, destruiu e demoliu o templo que se chama na língua gaulesa, Vasso-Galate. Esse templo tinha sido feito e restaurado admiravelmente. Sua parede era dupla. Era formado internamente por pequenos blocos de pedra e, no exterior, por pedras de cantaria (taille). Esse muro tinha uma espessura de 30 pés. Quanto ao interior, era decorado de mármore e de mosaico. O piso também era de mármore; por cima tinha um teto de chumbo.

Capítulo XXXIII

Perto dessa cidade, Liminius e Antoliano, mártires, descansam. Foi lá que Cássios e Victorino, associados no amor do Cristo por uma afeição fraternal, ganharam igualmente o reino dos céus vertendo seu próprio sangue. Com efeito, uma tradição antiga conta que Victorino tinha iniciado como servidor do padre do templo pré-citado. Freqüentemente em um burgo que se chama o burgo dos cristãos para perseguir os cristãos, ele encontrou Cássios, que era cristão. Tocado por suas pregações e seus milagres, ele acreditou no Cristo. Deixou as grosserias da idolatria e, santificado pelo batismo, adquiriu um grande nome ao operar milagres. Pouco depois, associados sobre a terra, como nós o dissemos, pelo martírio, (todos os dois) ganharam igualmente o reino celeste.

Capítulo XXXIV

Quando os alamanos se lançaram sobre a Gália, São Privat, bispo da cidade de Javols, foi descoberto numa gruta da montanha de Mende, onde se entregava aos jejuns e à prece enquanto a população era aprisionada na fortaleza do castelo de Grèzes. Enquanto ele não consentiu, como um bom pastor, em entregar suas ovelhas ao lobo, foi forçado a sacrificá-las aos demônios. Maldizendo essa vilania, aos mesmo tempo em que se recusou a cometê-la, ele foi espancado a golpes de bastão até que o tiveram por morto. Depois dessa tortura, ele entregou a alma no fim de poucos dias. Quanto a Chrocus, prenderam-no em Arles, cidade das Gálias, e fizeram-no sofrer diversos suplícios, pois ele pereceu de um golpe de espada, expiando como merecia os suplícios que tinha inflingido aos santos de Deus.

Capítulo XXXV

Sob Diocleciano, que foi o trigésimo-terceiro a governar o império romano, uma grave perseguição foi desencadeada contra os cristãos durante quatro anos. Matou-se mesmo uma vez no muito santo dia de Páscoa uma grande multidão de cristãos, porque eles praticavam o culto do verdadeiro Deus. Nesse tempo, Quirinus, bispo da igreja de Sissek , sofreu um glorioso martírio em nome do Cristo. Depois de ter amarrado ao pescoço uma pedra de calcário, a ferocidade dos pagãos o precipitou no abismo de um rio. Quando ele caiu no abismo, permaneceu longo tempo sob as águas, sustentado por um milagre divino. Essas águas não engoliram o homem sob o qual o peso do pecado não exercia pressão.

A multidão do povo à volta, admirando essa fato, se precipitou para livrar o bispo, a despeito do furor dos gentios. Vendo isso, ele não suportou ser subtraído ao martírio, mas com olhos levantados ao céu, gritou: “Senhor Jesus, você que está sentado gloriosamente à direita do Pai, não permita que me afastem desse estado, mas, recolhendo minha alma, condescenda-me reunir-me a teus mártires no repouso eterno.” Depois dessas palavras ele entregou sua alma. Seu corpo foi recolhido por cristãos e enterrado com veneração.

Capítulo XXXVI

Constantino, o trigésimo-quarto a ocupar o império dos romanos, reinou com felicidade durante trinta anos. Durante o décimo-primeiro ano de seu reino, quando depois da morte de Diocleciano a paz tinha sido devolvida às igrejas, o mui bem-aventurado prelado Martinho nasceu em Sabaria, cidade da Panônia, de pais gentios, porém não de baixa condição. Durante o vigésimo ano de seu reinado, o dito Constantino aprisionou Crispus, seu filho, e assassinou Fausta, sua mulher, em um banho quente, porque todos os dois quiseram traí-lo, ele, o imperador.

Em seu tempo o venerável bosque da Cruz do Senhor foi descoberto graças aos esforços de sua mãe Helena, sob a indicação de Judá, um hebreu que depois do batismo recebeu o nome de Quiriacus. Foi até esta época que o historiógrafo Eusébio prosseguiu sua Crônica. A partir do vigésimo-primeiro ano do reinado deste imperador, Jerônimo fez adições. Ele indicou que o padre Juvencas colocasse os Evangelhos em versos sob o pedido do dito imperador.

Capítulo XXXVII

Foi sob o reinado de Constâncio que viveu Tiago de Nisibis. Cedendo à suas preces, as orelhas da divina clemência afastaram muitos perigos de sua cidade. Cita-se também Maximino, bispo de Trèves, que se distinguiu por sua grande santidade.

Capítulo XXXVIII

Durante o décimo nono ano do reinado de Constantino, o Jovem, Antônio, morreu no seu centésimo quinto ano. Mas essa morte é datada por Jerônimo, que somente lhe deu cem anos, do décimo nono ano do reinado de Constâncio, e não com escreveu Gregório daquele de Constantino, o Jovem. O mui bem-aventurado Hilário, bispo de Poitiers foi enviado ao exílio por instigação dos heréticos; aí ele escreveu livros em favor da fé católica que enviou a Constâncio; este, tendo-lhe agraciado no curso do quarto ano do seu exílio, permitiu-lhe retornar à sua casa.

Capítulo XXXIX

Então, aparecia também nossa luz e novos raios luminosos aclararam a Gália; foi o tempo no qual o mui bem-aventurado Martinho começou a pregar nas Gálias. Manifestando às populações por numerosos milagres que o Cristo, filho de Deus, é o verdadeiro Deus, ele fez recuar a incredulidade dos gentios. Igualmente, destruiu templos, sufocou a heresia, edificou igrejas e, ao mesmo tempo, ilustrou-se por outros numerosos milagres, devolvendo a vida a três mortos para perfeccionar seus títulos de glória. Durante o quarto ano (dos reinados) de Valentiniano e de Valente, São Hilário de Poitiers, cheio de santidade e de fé, reputado por seus numerosos milagres, emigrou aos céus; ele também, nós lemos, ressuscitou dos mortos.

Capítulo XL

Melânia, nobre matrona e habitante da cidade de Roma, partiu para Jerusalém por devoção, deixando Urbano, seu filho, em Roma. Ele se mostrou tão cheio de bondade e de santidade a todos que foi denominado thècle pelos habitantes.

Capítulo XLI

Depois da morte de Valentiniano, Valente, seu sucessor no império inteiro, obrigou os monges ao serviço militar e ordenou espancar os refratários a golpes de vara. Em seguida, os romanos fizeram uma guerra encarnecida na Trácia. A carnificina foi tal que os romanos, privados da ajuda dos cavalos, tiveram que fugir a pé. Enquanto eram massacrados pelos godos em uma grande matança, Valente, que ferido por uma flecha, fugia, se refugiou em uma pequena cabana diante da ameaça dos inimigos, mas a cabana, tendo sido incendiada em cima dele, privou-o da sepultura desejada. Foi assim que a vingança divina, merecida pela efusão do sangue dos santos, se manifestou finalmente. Nessa parte para Jerônimo, e a partir dessa época, foi Orósio padre que escreveu a sequência.

Capítulo XLII

Quando o imperador Graciano viu que a república estava desorganizada, fez de Teodósio seu colega no império. Esse Teodósio colocou toda a sua esperança e sua confiança na misericórdia de Deus. Ele manteve na obediência numerosas nações menos pela espada do que pelos cuidados e preces, consolidando a república e entrando na cidade de Constantinopla como vencedor.

Capítulo XLIII

Maximiniano, que tinha conseguido uma vitória por sua tirania esmagando os bretões, foi estabelecido imperador por seus soldados. Ele estabeleceu sua sede na cidade de Trèves, e após ter adormecido, traiçoeiramente o imperador Graciano o matou. O bem-aventurado Martinho, que era já bispo, veio encontrar esse Maximiniano. No lugar de Graciano, Teodósio, aquele que tinha colocado toda a sua esperança em Deus, tomou todo o império nas mãos. Em seguida, confiando nas inspirações divinas, despojou Maximiniano do império e o matou.

Capítulo XLIV

Em Auvergne, após Austremoine, bispo e pregador, o primeiro bispo foi Urbicus, de família senatorial, que se convertera. Ele tinha uma esposa que, segundo o costume eclesiástico, tinha renunciado a todo o comércio com o bispo, e vivia religiosamente. Eles se ocupavam, todos os dois, à prece, à caridade e às boas obras. Enquanto eles se comportavam assim, a perversidade do inimigo, que era sempre ciumenta da santidade, se levantou junto à mulher. Inflamada de concupiscência por seu marido, ele fez dela uma nova Eva.

Inflamada pela paixão, envolvida pelas trevas do pecado, essa mulher retornou à casa da igreja através das trevas da noite. Tendo encontrado tudo cerrado, ela se pôs a bater às portas da casa eclesiástica e dizer: “Até quando dormirás tu, bispo? Porque tu desdenhas tua companheira? Porque com as orelhas tampadas, recusas tu escutar os preceitos de Paulo? Ele escreveu, com efeito: “Volte em direção à outro, afim de que Satã não vos tente”. Veja que eu voltei para ti e não foi a um vaso estrangeiro, mas a meu próprio vaso que retornei.”

Enquanto ela insistia em fazer esses discursos e outros semelhantes, os escrúpulos do bispo acabaram abrandando-se. E ele a fez penetrar em sua cama e, após ter dormido com ela, a expulsou. Voltando em seguida a si, desolado do pecado que perpetrou, ele entrou em um monastério de sua diocese para fazer penitência, e quando aí expiou nos gemidos e nas lágrimas o erro que tinha cometido, voltou à cidade. Quando o curso de sua vida se completou, ele deixou esse mundo. Pois uma filha nasceu dessa união; ela permaneceu na religião. O dito bispo, assim como sua esposa e sua filha, foram enterrados numa cripta em Chantoin, ao longo da calçada pública . Em seu lugar foi colocado o bispo Legonus.

Capítulo XLV

Quando este último morreu, São Ilidius o sucedeu; era um homem de santidade iminente e de uma virtude notável, que se distinguia de tal maneira por sua santidade que sua reputação penetrou até nos países estrangeiros. Isso fez com que o chamassem para curar do espírito imundo a filha do imperador de Trèves, o que nós relatamos no livro que escrevemos sobre sua vida . Ele viveu, como conta a tradição, até muito velho, cheio de dias e de boas obras. Quando ele percorreu com felicidade até o fim o caminho dessa vida, emigrou até junto do Cristo e foi enterrado em uma cripta nos arredores dessa cidade. Ele tinha um arquidiácono que levava o nome de Juste. Esse homem passou o curso de sua vida nas boas obras, e divide o túmulo de seu mestre. Logo depois da morte do bem-aventurado confessor Ilidius, seu glorioso sepulcro foi teatro de tão numerosos milagres que é impossível lhes descrever inteiramente e de deles reter a lembrança. E ele teve como sucessor São Nepociano.

Capítulo XLVI

São Nepociano foi o quarto bispo de Auvergne. De Trèves, enviou-se embaixadores à Espanha, do qual um, um certo Artêmios, de uma sabedoria e de uma beleza admiráveis, foi na flor da idade. Ele foi tomado por uma febre violenta. Enquanto os outros iam adiante, ele foi deixado doente em Clermont d‘Auvergne. Pois nessa época, ele foi acorrentado em Trèves pelas amarras do casamento. Ele foi visitado e untado de óleo santo por São Nepociano, e por um dom do senhor, a saúde lhe foi devolvida. Como ele tinha recebido do mesmo santo a palavra da predicação, esquecendo tanto sua esposa terrestre quanto suas riquezas pessoais, ele se uniu à Igreja e tornou-se clérigo, distinguindo-se de tal maneira por sua santidade que foi chamado a suceder ao bem-aventurado Nepociano para dirigir as ovelhas do rebanho do Senhor.

Capítulo XLVII

Na mesma época, Injurieux, um dos senadores de Auvergne que tinha grandes riquezas, pediu em casamento uma moça de condição semelhante, e tendo sido dada uma soma em dinheiro (arrhes), ele fixou o dia do casamento. Todos os dois eram filhos únicos de seus pais. Quando o dia chegou depois da celebração da solenidade das núpcias, eles foram colocados em uma mesma cama, segundo o costume. Mas a moça, gravemente contristada e voltada em direção à parede, chorava amargamente: “Por que, disse então o rapaz, tu estás embaraçada? Explique a mim, eu te peço.”

Como ela mantinha silêncio, ele acrescentou: “Eu te imploro por Jesus Cristo, filha de Deus, que me exponha sabiamente o que causou tua dor.” Então ela, voltando-se em direção a ele, respondeu: “Mesmo que eu chore todos os dias de minha vida, jamais minhas lágrimas serão suficientes para poder lavar a dor tão imensa de meu coração. Eu tinha decidido, com efeito, preservar para o Cristo meu fraco corpo de todo o contato masculino: minha maldição! Eu estou tão abandonada por Ele que não pude cumprir o que desejava, e o que eu tinha conservado desde o começo de minha vida perdi neste último dia que não deveria ter visto. Vejo-me abandonada pelo Cristo mortal, que me prometia por dote o Paraíso; a sorte me associou a um homem mortal, e no lugar de rosas que não florescem, são pedaços de rosas dessecadas que não somente não me embelezam, mas me enfeiam. Enquanto eu devia cobrir a roupa da pureza sob o rio do carneiro que corre por quatro braços, a roupa que eu corto é-me um fardo, e não uma honra. Mas porque prolongar longamente este discurso? Infortunada que sou, eu, a quem a sorte devia merecer os céus, estou hoje mergulhada no abismo. Oh, se tudo isso devia me acontecer, porque o dia de minha vida que marcou o começo de minha vida não foi também o fim? Oh, que então eu somente atravessasse a porta da morte antes de ser alimentada do leite! Oh, os sugadores de minhas amas de leite deveriam ter me distribuído para os funerais! Os objetos terrestres me fazem horror, porque eu contemplo as mãos do Redentor transpassadas pela vida do mundo. Eu também não olho os diademas nos quais brilham as soberbas pedras preciosas, pois é a coroa de espinho que eu admiro mentalmente. Eu desdenho tuas vastas terras que se estendem ao longo e ao largo porque aspiro as graças do paraíso. Teus terraços me fazem horror, pois contemplo o Senhor residindo sobre os astros.”

Estes propósitos, acompanhados de lágrimas abundantes, tocaram de piedade o rapaz, que respondeu: “Nós fomos as crianças únicas de pais muito nobres de Auvergne e eles quiseram nos unir para perpetrar sua descendência com medo que, quando nós desaparecêssemos do mundo, um herdeiro estranho recolhesse a sucessão.” A isto ela replicou: “O mundo não é nada, as riquezas não são nada, a pompa desse século não é nada, mesmo a vida da qual gozamos não é nada. Mas a vida que é preciso procurar é aquela que não está nem confinada, nem terminada pela morte, aquela que nenhuma doença mata, e a qual nenhum poente coloca fim; é a vida na qual permanecemos em uma beatitude eterna, onde se vive numa luz que não se apaga e na qual, o que é melhor de tudo, gozando da presença do próprio Senhor para o contemplar continuamente e elevado à condição dos anjos, gozamos de uma alegria inalterável.”

A essas palavras, ele replicou: “Tuas palavras muito doces fizeram brilhar em meus olhos a vida eterna como uma grande estrela; se tu queres renunciar à concupiscência carnal, eu participarei da tua resolução.” Ela lhe respondeu: “É difícil ao sexo masculino fazer esse sacrifício às mulheres. Entretanto, se tu o fazes de maneira que nós permaneçamos sem nos corrompermos no século, eu te reservarei uma parte do dote que me foi prometido por meu esposo, o Senhor Jesus Cristo, a quem fiz o voto de ser Sua serva e Sua esposa.” Armado do estandarte da cruz, ele disse então: “Eu farei o que tu me exortas.” Tendo dado as mãos, eles dormiram e doravante se deitaram durante muitos anos em uma mesma cama, mas conservando uma castidade digna de elogios, o que foi colocado em evidência mais tarde quando de suas mortes.

Com efeito, logo depois de ter terminado sua prova, a jovem emigrou ao pé do Cristo e depois do ofício fúnebre o marido a depositou em um sepulcro, e declarou: “Eu te rendo graças, Senhor Jesus Cristo, Senhor Eterno Nosso Deus porque eu restituí à Tua piedade esse tesouro maculado tal qual o recebi de Ti quando me foi confiado.” A essas palavras ela replicou sorrindo: “Porque tu falas quando não te perguntam?”. Depois disso, ela foi enterrada, e ele a seguiu pouco tempo depois. Como os dois sepulcros tinham sido colocados ao longo de muros diferentes, um milagre estranho que testemunhou sua castidade se produziu. Com efeito, uma manhã, enquanto as pessoas se encontravam nos lugares, eles encontraram lado a lado os sepulcros que tinham sido deixados a uma grande distância um do outro, sem dúvida para que esses dois seres que o céu reuniria não tivessem seus corpos separados no monumento onde estavam enterrados. Os habitantes da localidade continuaram até os nossos dias a lhes denominar “os dois amantes”. Nós fizemos menção deles no Livro dos Milagres.

Capítulo XLVIII

Durante o segundo ano do reinado de Arcádius e de Honórius, São Martinho, bispo de Tours, cheio de milagres da santidade, grande benfeitor dos fracos, morreu no quadragésimo vigésimo primeiro ano de sua idade e no vigésimo sexto de seu episcopado em Candes, vila de sua diocese, para emigrar com felicidade junto do Cristo. Ele morreu à meia-noite, um domingo, sob os consulados de Atticus e de César. Durante sua morte muitos escutaram cantos no céu, que nós contamos mais longamente no Livro Primeiro de seus milagres. Pois, como o santo de Deus tinha começado a ficar doente em Candes, como nós dissemos, as populações do Poitou e do Tourane aí se encontraram para assistir a sua passagem. Quando ele morreu, uma grande altercação surgiu entre as duas populações.

Com efeito, os poitevinos diziam: “É nosso monge. Ele tornou-se abade entre nós. Nós reclamamos aquele que nos foi confiado. Que vos contentais de ter gozado de sua eloquência enquanto ele foi bispo nesse mundo; vós tomais parte à sua mesa, vós fordes cheios de suas bênçãos, mas vós haveis gozado de seus milagres. Que todas essas coisas vos contentem, pois, e que nos seja permitido levar seu cadáver inanimado.”

A isso os touranginos responderam: “Se vós pretendeis que os milagres feitos entre nós devam nos contentar, sabeis que ele os operou mais quando ele se encontrava entre vós que aqui mesmo, pois deixando de lado o maior número, ele ressuscitou dois mortos entre vós e um somente entre nós. Como ele mesmo dizia frequentemente, sua virtude miraculosa foi maior antes de seu episcopado que depois de seu episcopado. É, pois necessário, que o que ele não acabou entre nós durante sua vida, o acabe após sua morte. Ele vos foi retirado e nos foi dado por Deus. Além disso, se se respeita um costume instituído de grande utilidade, é na cidade onde ele foi ordenado que segundo a ordem de Deus ele terá seu sepulcro. Na verdade, se vós pretendeis reivindicar um privilégio para vosso monastério, sabeis que seu primeiro monastério se encontrava entre os milaneses.”

Enquanto eles discutiam, o sol se punha e a noite tombava; as portas foram fechadas com um cadeado e o corpo, colocado no meio, foi guardado pelas duas populações, pois poderia acontecer que à manhã ele fosse retirado à força pelos poitevinos. Mas o Deus todo poderoso não queria que a cidade de Tours fosse frustrada de seu próprio patriarca. Pois finalmente, aproximando-se da meia-noite, todo o bando dos poitevinos cedeu ao sono e não restou ninguém do efetivo para velar. Quando os touranginos os viram dormindo, pegaram o fardo do corpo muito santo; uns o jogaram pela janela, outros o recolheram de fora.

Ele foi colocado sob um barco e, com toda a população, desceu o rio Vienne. Chegando no leito do Loire, dirigiu-se em direção à cidade de Tours, dando grandes ações de graça acompanhadas de cantos. Acordados pelas vozes, os poitevinos, que não tinham mais o tesouro que guardavam, voltaram confusos para suas casas. Se alguém pergunta porque desde a passagem do bispo Gatien até a de São Martinho houve apenas um único bispo, a saber, Litorius, que se saiba que por causa da oposição dos pagãos à cidade de Tours permaneceu longamente privada por longo tempo da bênção episcopal. Com efeito, os cristãos desse tempo celebravam o ofício divino clandestinamente e em lugares secretos, pois quando os pagãos descobriam cristãos, estes eram oprimidos por golpes ou degolados.

Desde a paixão do Senhor até a morte de São Martinho conta-se 412 anos.

Fim do Primeiro Livro contendo os 5.596 anos que decorreram da origem do mundo até a morte do bispo São Martinho.

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Fonte: História Medieval (http://www.ricardocosta.com)
Tradução: Josemar Machado