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Santo Arsênio da Capadócia (séc. V)

Arsênio da Capadócia
(Fresco at mount Athos, XIV c.)
SALTÉRIO DE BÊNÇÃOS
Por Arsênio da Capadócia
Tradução: Fabio R. Araujo (auxiliado por Dom Estêvão Bittencourt)
Fonte: Biblioteca Ortodoxa de São Pacômio


Santo Arsênio habituou-se a usar os Salmos para bençãos, especialmente quando não havia uma benção determinada para uma ocasião particular. Aqui, na Primeira Parte, encontra-se a correspondência entre os salmos e diversas ocasiões. A lista original em grego pode se encontrada em O Geron Paisios escrita por Hieromonachos Christodoulos, Agion Oros, 1994.


Na Segunda Parte, nós apresentamos um índice remissivo (bem simples), talvez alguma outra pessoa possa melhorá-lo. Sem levar em conta qualquer consideração religiosa, este "Livro de Necessidades" é um retrato fascinante da vida da população de Anatolia no início do século vinte: independente de refletir mais a "longue duree" (longa duração) da história bizantina ou as dificuldades particulares da época de Santo Arsênio, nós não ficamos suficientemente informados mesmo para especular. Com certeza, não há aqui uma idealização de condições rurais: particularmente, vale a pena observar a extrema preocupação de se aliviar dores físicas e psicológicas, e a menção do que nós chamaríamos hoje de "stress pós-traumático".


Para nós, pelo menos, a justificação exata para a escolha do santo por um determinado salmo para uma determinada necessidade não é sempre óbvia; e talvez isto seja intencional, para fazer com que se reflita profundamente sobre as palavras. Ortodoxia não é mágica, e um documento como este não é um endosso a "superstição camponesa", mas um canal pelo qual o Amor de Deus pode entrar em todos os aspectos de nossa sociedade.

* * *

O SALTÉRIO COMO UM LIVRO DE NECESSIDADES,
de acordo com o uso de Santo Arsênio de Capadócia, como transmitido pelo ancião Paisios do Monte Athos.

PRIMEIRA PARTE:

UMA LISTA DE SALMOS PARA USO EM BÊNÇÃOS, ORDENADOS NUMERICAMENTE NO SALTÉRIO

[OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: O PRIMEIRO número é o número do salmo na "Bíblia dos Setenta" (Septuaginta) Grega. O SEGUNDO número é o número do salmo encontrado no texto do massorá e o da maioria das Bíblias em português!]
  • 1 (1) Uma árvore ou uma vinha é plantada, para que ela possa dar fruto.
  • 2 (2) Para que Deus ilumine aqueles que vão a reuniões e a concílios.
  • 3 (3) Para que o mal possa se afastar das pessoas, para que elas não atormentem injustamente seus companheiros.
  • 4 (4) Para que Deus cure as pessoas sensíveis que ficam doentes com depressão por causa do comportamento das pessoas de coração duro.
  • 5 (5) Para que Deus cure os olhos feridos que foram mordidos por uma pessoa má.
  • 6 (6) Para que Deus liberte a pessoa que esteja enfeitiçada.
  • 7 (7) Para aqueles que se prejudicam com o medo, terrores e com as intimidações de pessoas más.
  • 8 (8) Para aqueles que são feridos por demônios ou por pessoas perversas.
  • 9 (9 & 10) Para que os demônios deixem de lhe atormentar durante o sono ou com ilusões durante o dia.
  • 10 (11) Para casais de coração duro que discutem e se separam (quando o homem ou mulher de coração duro atormenta seu companheiro sensível).
  • 11 (12) Para pessoas com doenças mentais que possuem maldade e ferem outros.
  • 12 (13) Para aqueles que sofrem do fígado.
  • 13 (14) Para um demônio terrível, três vezes contínuas por três dias.
  • 14 (15) Para que os assaltantes e ladroes mudem e voltem a deixar de praticar o mal, e se arrependam.
  • 15 (16) Para que a chave seja encontrada quando for perdida.
  • 16 (17) Por uma acusação grave e injusta, três vezes por dia por três dias.
  • 17 (18) Quando houver um terremoto ou outro desastre natural, ou tempestade com raios e trovoes.
  • 18 (19) Para que mulheres dêem à luz sem problemas.
  • 19 (20) Para os casais que por razoes médicas não podem ter filhos, para que Deus os cure e que eles não se separe.
  • 20 (21) Para que Deus amacie os corações dos ricos e que eles dêem esmolas aos pobres.
  • 21 (22) Para que Deus contenha o fogo, e que nenhum mal pior ocorra.
  • 22 (23) Para que Deus suavize as crianças muito problemáticas que deixam tristes seus pais.
  • 23 (24) Para que a porta se abra quando a chave é perdida.
  • 24 (25) Para pessoas que têm problemas pela tentação e problemas em suas vidas por ela, fazendo-as perder sua paz e queixarem-se.
  • 25 (26) Quando alguém pede alguma coisa boa a Deus para que Ele a dê sem que a pessoa se prejudique.
  • 26 (27) Para que Deus proteja os camponeses do exército inimigo, para que eles não machuque as pessoas ou destrua seus campos.
  • 27 (28) Para que Deus cure aqueles que sofrem de doenças de origem nervosa ou mental.
  • 28 (29) Para aqueles que têm enjôo no mar e que têm medo de mar violento.
  • 29 (30) Para aqueles que estão em perigo em terras distantes, no território de pessoas incrédulas e cruéis, para que Deus as guarde e ilumine as pessoas que lá estão para que tenham paz e venham a conhecer a Deus.
  • 30 (31) Para que Deus dê semente e fruta suficiente quando o tempo não estiver bom para agricultura.
  • 31 (32) Para que os viajantes encontrem seu caminho quando estiverem perdidos e sofrendo com isto.
  • 32 (33) Para que Deus revele a verdade para aqueles que foram presos injustamente, e para que eles sejam libertados.
  • 33 (34) Para aqueles no limiar da morte, quando estão atormentados por demônios. Ou pelo exército inimigo quando ele traz perigo e invade a fronteira com intenções execráveis.
  • 4 (35) Para que Deus liberte as pessoas justas de armadilhas dos ímpios , que querem levar vantagem sobre o povo de Deus.
  • 35 (36) Para que o ressentimento desapareça completamente após discussões e desentendimentos.
  • 36 (37) Para as pessoas feridas gravemente por criminosos. 37 (38) Quando os dentes causarem dores advindas de dentes podres.
  • 38 (39) Para que as pessoas abandonadas e deprimidas encontrem trabalho, para que elas deixem de estar tristes.
  • 39 (40) Para que o amor entre patrão e empregado volte quando houver uma troca de palavras ásperas.
  • 40 (41) Para que mulheres dêem à luz sem problemas quando a criança vier prematuramente ao mundo.
  • 41 (42) Para jovens quando ficam doentes ao se apaixonarem, e uma pessoa fica sentido e triste.
  • 42 (43) Para que as pessoas se libertem de prisões de uma nação inimiga. 43 (44) Para que Deus revele a verdade a casais quando houver um mau entendimento, para que eles alcancem a paz e amor mútuo novamente.
  • 44 (45) Para aqueles que sofrem do coração ou dos rins.
  • 45 (46) Para as pessoas jovens que por causa da inveja possuem inimigos os impedindo de ter uma família (isto é, de se casarem).
  • 46 (47) Para que o empregador e empregado encontre paz, quando o empregado é ofendido pelo empregador, e para que o empregado encontre trabalho.
  • 47 (48) Quando gangues de criminosos roubam e desastres graves ocorram: para se lido continuamente por 40 dias.
  • 48 (49) Para aqueles que possuem um trabalho perigoso.
  • 49 (50) Para que as pessoas que estejam afastadas de Deus se arrependam e retornem para Deus e sejam salvas.
  • 50 (51) Quando, por causa de nossos pecados e fim de nos corrigir, a punição de Deus nos atinge (doenças epidêmicas e mortes de pessoas ou animais).
  • 51 (52) Para que os mestres de coração duro se arrependam e tenham compaixão e não atormentem as pessoas.
  • 52 (53) Para que Deus abençôe as redes e que elas fiquem cheias de peixes.
  • 53 (54) Para que Deus ilumine os ricos que compraram escravos para que eles os liberte.
  • 54 (55) Para que o nome de uma família que tenha sido acusada injustamente seja restaurado.
  • 55 (56) Para pessoas fracas, cujas almas foram feridas por seus companheiros.
  • 56 (57) Para aquelas pessoas que sofrem de dores de cabeça por grande tristeza.
  • 57 (58) Para que as coisas cheguem de forma útil para aqueles que trabalham com boa intenção, para que Deus impeça ações perversas de demônios ou pessoas desonestas.
  • 58 (59) Para aqueles que não podem falar, que Deus dê a eles a habilidade de falar.
  • 59 (60) Para que Deus revele a verdade quando um grupo inteiro de pessoas for injustamente acusado.
  • 60 (61) Para aqueles que têm problemas em seu trabalho seja por causa de preguiça ou por medo.
  • 61 (62) Para que Deus alivie os problemas da pessoa fraca, para que ele não seja dominado pelo desejo de queixar-se.
  • 62 (63) Para que os campos e as árvores dêem fruto quando a água for pouca.
  • 63 (64) Quando uma pessoa é mordida por um cachorro ou lobo raivoso. (Ele foi também por dar a eles água abençoada para beber).
  • 64 (65) Para que os mercadores prosperem, para que eles não falem muito e levem vantagem de pessoas simples.
  • 65 (66) Para que o mal não crie obstáculos nas residências e faça com que famílias fiquem tristes.
  • 66 (67) Para que os locais onde as galinhas foram criadas sejam abençoados.
  • 67 (68) Para que as mulheres com problemas durante a gravidez consigam passar por esta fase e ficar saudáveis.
  • 68 (69) Quando houver chuva forte e rios transbordarem, levando com eles pessoas e casas.
  • 69 (70) Para pessoas sensíveis que ficam tristes por pequenas coisas e entram em desespero, que Deus dê a elas a força.
  • 70 (71) Para pessoas isoladas que se tornam entediadas de outras por causa da inveja do demônio e entram em desespero, que eles tenham misericórdia e cura de Deus.
  • 71 (72) Para que Deus abençoe as colheitas da nova produção de agricultura que os camponeses trazem para casa.
  • 72 (73) Para que os criminosos se arrependam.
  • 73 (74) Para que Deus proteja os camponeses que trabalham nos seus campos quando o inimigo tiver rodeado a vila.
  • 74 (75) Para que o empregador desumano se torne calmo e não atormente seus seres humanos companheiros, os empregados.
  • 75 (76) Para uma mãe que está amedrontada durante o nascimento de seu filho, para que Deus a dê coragem e a proteja.
  • 76 (77) Quando não houver entendimento mútuo entre pais e crianças, que Deus os ilumine, para que as crianças ouçam seus pais e os pais mostrem amor.
  • 77 (78) Para que Deus ilumine aqueles que emprestam para que eles não pressionem seus companheiros pelos seus debtos, e para que eles tenham compaixão.
  • 78 (79) Para que Deus proteja as vilas de roubo de um exército inimigo.
  • 79 (80) Para que Deus cure uma pessoa cuja face fica inchada e toda sua cabeça está doendo.
  • 80 (81) Para que Deus tome conta dos pobres necessitados, tristes e em depressão por causa da pobreza.
  • 81 (82) Para que as pessoas comprem produtos dos camponeses, para que os camponeses não fiquem tristes nem em depressão.
  • 82 (83) Para que Deus impeça as pessoas más que pensam em assassinar.
  • 83 (84) Para que Deus preserve tudo que é mantido na casa, e os animais e os produtos dos produtores.
  • 84 (85) Para que Deus ajude aqueles que foram feridos por ladroes e além do mais ficaram psicologicamente afetados pelo terror.
  • 85 (86) Para que Deus salve o mundo quando pragas vierem e pessoas morrerem.
  • 86 (87) Para que aumente as vidas dos membros de família que ainda são necessários pelo resto da família.
  • 87 (88) Para que Deus proteja todos aqueles que não possuem protetor e estão sofrendo por causa de companheiros de coração duro.
  • 88 (89) Para que Deus dê força àqueles que ficam doentes com facilidade e são fisicamente fracos, para que eles possam trabalhar sem ficar cansados e deprimidos.
  • 89 (90) Para que Deus traga chuva onde houver seca, ou que os poços dêem água novamente se eles deixaram de dar.
  • 90 (91) Para que o demônio desapareça quando ele aparecer em frente a uma pessoa e trouxer terror.
  • 91 (92) Para que Deus dê prudência a pessoas para que elas progridam espiritualmente.
  • 92 (93) Para que Deus proteja a embarcação quando ela estiver em grande perigo no mar. (Ele havia também para atirar água abençoada nos quatro cantos do navio).
  • 93 (94) Para que Deus ilumine as pessoas desordeiras que causam problemas para a nação e trazem comoção às pessoas, causando problemas pela desordem e divisões.
  • 94 (95) Para que nenhum feitiço faça que casais comecem a encontrar razoes para discussões e brigas.
  • 95 (96) Para que Deus dê às pessoas surdas a habilidade de ouvir.
  • 96 (97) Para que os encantamentos se afastem das pessoas.
  • 97 (98) Para que Deus dê conforto aqueles que estão tristes para que eles deixem de ficar deprimidos.
  • 98 (99) Para que Deus abencôe e dê graças às pessoas jovens que desejam deixar tudo e seguir a Deus. [Eu não sei quão correta está minha tradução aqui (diz o tradutor do grego para inglês). Para mim, a frase exata que é usada me faria pensar de pessoas que seguem a vida monástica, mas não tenho certeza. --Trans.]
  • 99 (100) Para que Deus abencôe e realize os desejos das pessoas que agem de acordo com Seu desejo.
  • 100 (101) Para que Deus dê graças e talentos para as pessoas bons e simples.
  • 101 (102) Para que Deus abencôe as pessoas que são poderosas para que elas ajudem as pessoas com doçura e inteligência.
  • 102 (103) Para que o fluxo mensal de sangue venha à mulher quando estiver atrasado.
  • 103 (104) Para que Deus abencôe as posses das pessoas que não são tristes e deprimidas, mas que glorificam a Deus.
  • 104 (105) Para que as pessoas se arrependam e confessem seus pecados.
  • 105 (106) Para que Deus ilumine as pessoas para que elas não se afastem do caminho da salvação.
  • 106 (107) Para que Deus dê à mulher que não pode dar à luz a habilidade de fazê-lo.
  • 107 (108) Para que Deus enfraqueça os inimigos, para que eles mudem suas intenções más.
  • 108 (109) Para que Deus cure os epiléticos. Ou, para que Deus tenha piedade daqueles que acusam injustamente e se arrependam.
  • 109 (110) Para que os mais jovens respeitem os mais velhos.
  • 110 (111) Para que os juízes injustos se arrependam e julguem as pessoas de Deus com justiça.
  • 111 (112) Para que Deus proteja os soldados quando eles forem para a guerra.
  • 112 (113) Para que Deus dê bênçãos à viúva pobre, para que ela pague seus débitos evitando de ir para a prisão.
  • 113 (114 & 115) Para que Deus cure as crianças retardadas mentalmente.
  • 114 (116:1-9) Para que Deus abencôe e conforte as crianças pequenas tristes e pobres, para que elas não sejam humilhadas pelas crianças ricas e conseqüentemente fiquem deprimidas.
  • 15 (116:10-19) Para que Deus cure da terrível inclinação à mentira.
  • 116 (117) Para que famílias sejam mantidas unidas e amem e glorifiquem a Deus.
  • 117 (118) Para que Deus enfraqueça os bárbaros quando eles rodearem uma vila e levarem medo, e que Ele inverta suas intenções más.
  • 118 (119) Para que Deus despedace os bárbaros e enfraqueça suas ações quando eles assassinarem crianças e mulheres inocentes.
  • 119 (120) Para que Deus dê paciência e tolerâncias às pessoas que vivem juntas com pessoas más e injustas.
  • 120 (121) Para que Deus proteja os escravos das mãos do inimigo para que eles não sejam mutilados antes de serem liberados.
  • 121 (122) Para que Deus cure todos que sofrem de "mau-olhado".
  • 122 (123) Para que Deus dê visão a cegos e cure os olhos dos que estão com dores.
  • 123 (124) Para que Deus proteja as pessoas de cobras, para que elas não as morda.
  • 124 (125) Para que Deus proteja os campos das pessoas justas das pessoas más.
  • 125 (126) Para que Deus cure as pessoas que sofrem de dores de cabeça contínua.
  • 126 (127) Para que Deus traga paz à família quando houver discussões.
  • 127 (128) Para que a maldade dos inimigos nunca se aproxime dos lares, e para que haja paz e bênçãos de Deus na família.
  • 128 (129) Para que Deus cure as pessoas que sofrem de enxaquecas, ou, para que Deus tenha piedade das pessoas grossas e insensíveis que trazem tristezas às sensíveis.
  • 129 (130) Para que Deus dê coragem e esperança àqueles que começam um novo trabalho e não o conhecem bem, para que eles não encontrem dificuldade extrema no seu trabalho.
  • 130 (131) Para que Deus leve conforto e arrependimento com esperança às pessoas para que elas sejam salvas.
  • 131 (132) Para que Deus mostre piedade ao mundo quando, por causa de nossos pecados, ocorrem guerras contínuas.
  • 132 (133) Para que Deus ilumine as nações e elas se tornem amigas e os povos encontrem a paz.
  • 133 (134) Para que Deus proteja as pessoas de todo o perigo.
  • 134 (135) Para que as pessoas se concentrem no momento da oração e que suas mentes estejam unidas com Deus.
  • 135 (136) Para que Deus proteja os imigrantes quando eles abandonam seus lares e para para que eles sejam salvos de bárbaros.
  • 136 (137) Para que Deus traga firmeza à pessoa de caráter instável.
  • 137 (138) Para que Deus ilumine os senhores de um local para que os pedidos das pessoas sejam tratados com inteligência.
  • 138 (139) Para que Deus corte a tentação de pessoas sensíveis que tenham pensamentos blasfemadores.
  • 139 (140) Para que Deus dê paz ao líder da família que possui um caráter difícil e traz sofrimentos a toda a família.
  • 140 (141) Para que Deus torne calmo os maus que controlam um local que atormentam seus companheiros.
  • 141 (142) Para que Deus acalme o rebelde que está praticando o mal; e mesmo que ele seja curdo, que ele se torne um cordeiro. [Santo Arsênio estava vivendo na Asia Menor. Curdos, que eram quase sempre soldados, tinham uma reputação entre outros grupos étnicos de serem lutadores brutais. --Trans.]
  • 142 (143) Para que Deus proteja a mãe em sua gravidez para que ela não perca o seu filho.
  • 143 (144) Para que Deus dê paz às pessoas quando elas estão agitadas para que não ocorra guerra civil.
  • 144 (145) Para que Deus abençôe o trabalho das pessoas para que ele seja bem aceito por Deus.
  • 145 (146) Para que Deus interrompa o fluxo de sangue das pessoas que sofrem disso.
  • 146 (147:1-11) Para que Deus cure as pessoas que foram mordidas e feridas por dentes de pessoas más.
  • 147 (147:12-20) Para que Deus traga paz aos animais selvagens para que eles não incomodem pessoas ou tragam prejuízos a produções das fazendas.
  • 148 (148) Para que Deus torne o tempo apropriado para que as pessoas tenham abundância e glorifiquem a Deus. [Estas foram de Santo Arsênios. As seguintes são de Pai Paisios da Montanha Sagrada.]
  • 149 (149) Da gratidão e reconhecimento a Deus por Sua muita bondade e pela plenitude de Seu amor, que não conhece limite e nos tolera.
  • 150 (150) Para que Deus felicidade e conforto a nossos irmãos e irmãs tristes que estão em locais distantes, e para aqueles dentre nossos irmãos e irmãs que estão dormindo ainda mais longe.
Amém.

SEGUNDA PARTE:

ÍNDICE REMISSIVO

[OBSERVAÇÃO IMPORTANTE: Apenas o número do salmo Septuaginta é fornecido neste índice.]
  • AGRICULTURA: 1, 26, 30, 50, 52, 62, 66, 71, 83, 124, 147, 148
  • ANIMAIS, Inimigos: 63, 123, 147 CRIANÇAS: 22, 76, 109, 113, 114
  • MORTE: 33, 150
  • DESASTRES: 17, 21, 30, 50, 62, 68, 85, 89
  • SAÚDE, Física: 5, 12, 28, 36, 37, 44, 56, 58, 63, 79, 86, 88, 95, 102, 108, 122, 125, 128, 145, 146
  • SAÚDE, Psicológica: 4, 7, 8, 9, 11, 24, 27, 41, 55, 56, 60, 61, 69, 70, 80, 81, 84, 97, 100, 103, 128, 136, 138
  • SAÚDE, de Mulheres: 18, 19, 40, 67, 75, 106, 142, 145
  • LEIS E GOVERNO: 14, 16, 32, 36, 47, 51, 59, 72, 82, 84, 93, 101, 108, 110, 137, 140, 141, 143
  • MAGIA E DEMÔNIOS: 5, 6, 8, 9, 13, 33, 57, 65, 90, 94, 96, 121
  • PAZ E GUERRA: 26, 33, 42, 73, 78, 93, 107, 111, 117, 118, 120, 127, 131, 132, 135, 140, 141, 143
  • PAZ (entre amigos e família): 10, 19, 22, 35, 41, 43, 45, 54, 65, 76, 86, 94, 109, 116, 126, 127, 139
  • PROPRIEDADE: 14, 15, 23, 47, 83, 103, 124
  • PROTEÇÃO: 9, 13, 34, 47, 48, 57, 90, 133
  • PREOCUPAÇÕES SOCIAIS: 20, 32, 35, 38, 51, 53, 59, 77, 80, 81, 87, 93, 101, 110, 112, 113, 114, 119, 124, 137, 140
  • ESPIRITUALIDADE: 3, 9, 24, 25, 29, 49, 50, 57, 72, 91, 98, 99, 100, 104, 105, 108, 115, 119, 130, 134, 136, 149
  • VIAGENS E EMIGRAÇÃO: 28, 29, 31, 92, 135, 150
  • TRABALHO: 2, 38, 39, 46, 48, 51, 52, 57, 60, 64, 74, 81, 83, 100, 101, 103, 129, 137, 140,144

Concílios - Concílio de Calcedônia (451 dc).

Concílio de Calcedônia (451 dc).


Definição de fé:

Este magno e universal Sínodo, reunido pela graça de Deus e pela vontade dos muito piedosos e muito cristãos nossos imperadores, os augustos Valenciano e Marciano, na Metrópole da Calcedônia da Bitinia, em templo da Santa e vitoriosa mártir Eufemia, define quanto segue:


Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, confirmando a seus discípulos no conhecimento da fé, disse; Dou-lhes minha paz, minha paz lhes deixo, para que nenhum dissentisse de seu próximo dos dogmas da piedade, e se demonstrasse verdadeiro o anúncio da verdade. E por quanto o maligno não cessa de obstaculizar, com seu joio, semeia-a da piedade e de procurar sempre algo novo contra a verdade, Deus, como sempre, provê ao gênero humano e inspirou um grande zelo a este nosso piedoso e fidelíssimo imperador, e chamou a si, desde todas partes, aos chefes do sacerdócio, para que, com a graça do senhor de todos nós, Cristo, afastássemos toda peste de engano das ovelhas de Cristo, e os restaurássemos com o alimento da verdade. O que fizemos, proscrevendo com voto comum as falsas doutrinas, e renovando nossa adesão à fé ortodoxa dos padres, pregando a todos o símbolo dos 318 (padres de Nicéia), e reconhecendo como padres próprios a aqueles que acolheram esta síntese da piedade, e aquela dos 150 que se reuniram na grande Constantinopla e confirmaram também eles a mesma fé.

Confirmando também nós, as decisões e as fórmulas de fé do concílio reunido outrora em Efeso (431) que presidiram Celestino (bispo) dos romanos e Cirilo (bispo) dos alexandrinos, de santíssima memória, definimos que tem que resplandecer a exposição da reta e descontaminada fé, feita pelos 315 Santos e bem-aventurados padres reunidos em Nicéia (325), sob o Imperador Constantino, de feliz memória, e que se deve manter em vigor quantos foi decretado pelos 150 santos padres de Constantinopla (381) para extirpar as heresias que então germinavam, e reafirmar nossa mesma fé católica e apostólica.

(Neste ponto se repetem os símbolos da fé de Nicéia e Constantinopla)

Teria sido, então, suficiente para o pleno conhecimento e confirmação da piedade este sábio e saudável símbolo da divina graça. Na verdade, ensina o que melhor se pode pensar com relação ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, e apresenta, a quem o acolhe com fé, a encarnação do Senhor.


Mas dado que aqueles que tratam de frear o anúncio da verdade, com suas heresias cunharam novas expressões: alguns tratam de alterar o mistério da economia da encarnação do Senhor para nós, rechaçando a expressão Teotokos [Mãe de Deus] para a Virgem; outros introduzem confusão, misturam e imaginam bobamente que é uma única àquela natureza da carne e aquela outra da divindade; e sustentam absurdamente que a natureza divina do unigênito pela confusão possa sofrer; por tudo isto, o atual, santo, magno e universal sínodo, querendo impedir toda reação contra a verdade, ensina que o conteúdo desta predicação foi sempre idêntico, e estabelece, primeiro que tudo, que a fé dos 318 santos padres deve ser intangível; confirma a doutrina em torno da natureza do Espírito, transmitida em tempos posteriores pelos padres reunidos na cidade real, contra aqueles que combateram ao Espírito Santo, doutrina que eles declararam a todos, não certamente para adicionar nada ao que antes se sustentava, a não ser para demonstrar com o testemunho da escritura, seu pensamento sobre o Espírito santo, contra aqueles que tratavam de negar o senhorio- Contra aqueles, em seguida, que tratam de alterar o mistério da economia, e alegam que seja só homem aquele que nasceu da Santa Virgem Maria, (este concílio) faz suas as cartas sinodais do bem-aventurado Cirilo, que foi pastor da Igreja de Alexandria, a Nestório e aos orientais, como adequadas tanto para contradizer a loucura nestoriana, para dar uma clara explicação a aqueles que desejassem conhecer com piedoso zelo o verdadeiro sentido do símbolo de salvação. A isto apontou, e com justiça, contra as falsas concepções e para a confirmação da verdadeira doutrina a carta do Pontífice Leão, muito santo arcebispo da enorme e antiqüíssima cidade de Roma, escrita ao arcebispo Flaviano, da santa memória, para refutar a malvada concepção de Eutiques; ela, de fato, está em harmonia com a confissão do grande Pedro; e é para nós uma coluna comum. (Este concílio), de fato, opõe-se a aqueles que tratam de separar em dois fios o mistério da divina economia; separam-se do sagrado consenso aqueles que se atrevem a declarar passível a divindade do Unigênito; resiste a aqueles que pensam em uma mistura ou confusão das duas naturezas de Cristo, e expulsa a aqueles que afirmam, insanamente, que tenha sido celestial, ou de qualquer outra substância a forma humana de servo que Ele assumiu de nós, e excomunga, enfim, a aqueles que fabulam de duas naturezas do senhor antes da união e uma só depois desta união.

Seguindo então, aos Santos Padres, unanimemente ensinamos a confessar um solo e mesmo Filho: nosso senhor Jesus Cristo, perfeito em sua divindade e perfeito em sua humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem (composto) de alma racional e de corpo, consubstancial ao Pai pela divindade, e consubstancial a nós pela humanidade, similar em tudo a nós, exceto no pecado, gerado pelo Pai antes dos séculos segundo a divindade, e, nestes últimos tempos, por nós e por nossa salvação, engendrado na Maria virgem e mãe de Deus, segundo a humanidade: um e o mesmo Cristo senhor unigênito; no que têm que se reconhecer duas naturezas, sem confusão, imutáveis, indivisas, inseparáveis, não tendo diminuído a diferença das naturezas por causa da união, mas sim mas bem tendo sido assegurada a propriedade de cada uma das naturezas, que concorrem a formar uma só pessoa. Ele não está dividido ou separado em duas pessoas, mas sim é um único e mesmo Filho Unigênito, Deus, Verbo, e Senhor Jesus Cristo como primeiro os profetas e mais tarde o mesmo Jesus Cristo o ensinou que si e como nos transmitiu isso o símbolo dos padres.

Estabelecido isto por nós com toda a diligência possível, define o santo e universal sínodo que não seja lícito a ninguém apresentar ou inclusive escrever ou compor uma fórmula de fé diversa, como tampouco acreditar ou ensinar de um modo distinto. Aqueles que logo ousarem ou compor uma fórmula diversa de fé ou apresentá-la, ou ensiná-la, ou transmitir um símbolo diverso a aqueles que tratam de converter-se do helenismo ao conhecimento da verdade, ou do judaísmo, ou de qualquer heresia, todos eles, se forem clérigos ou bispos, sejam suspensos, o bispo, de sua sede, o clérigo do ministério, ou se fossem laicos ou monges, deverão ser excomungados.

Hierarquia Celeste - Anônimo (~séc. V).


Hierarquia Celeste
São Dinis, o Areopagita (Pseudo-Dioníso)________________________________


Introdução.

O presente trabalho consiste na apresentação da obra de referência obrigatória no estudo da Angeologia, "Hierarquia Celeste" de São Dinis, o Areopagita.

A apresentação tem por base o texto publicado nas "Oeuvres Complètes du Pseudo-Denys l’Areopagite" traduzido para o francês, anotado e comentado por Maurice de Gandillac numa edição apresentada em 1980 pela Editora Aubier na sua coleção "Bibliothèque Philosophique". É importante advertir desde já que o texto aqui exposto não corresponde a uma tradução rigorosa e integral da obra para o português. Pretende-se somente proporcionar uma abordagem relativamente facilitada a um texto que nada tem de fácil, nem no seu estilo, nem no seu conteúdo.

São Dinis o Areopagita foi discípulo de São Paulo, o qual ministrou a ele os primeiros conhecimentos dos mistérios divinos. Encontramos a respeito dele uma referência nos Atos dos Apóstolos: "Assim saiu Paulo do meio deles. Todavia algumas pessoas, agregando-se a ele, abraçaram a fé; entre as quais foi Dionísio, o areopagita..." (At 17:33-34).

Ele teria sido o primeiro ateniense convertido por São Paulo e foi o primeiro bispo de Atenas. A sua obra teve grande impacto em toda a igreja sobretudo após a divulgação que se iniciou em meados do século V. Em sua teologia transparece uma forte formação filosófica imbuída do pensamento neo-platônico.

Os seus textos mais conhecidos no nosso tempo são: "Hierarquia Celeste", "Hierarquia Eclesiástica", "Os Nomes de Deus", "Teologia Mística" e 10 cartas.

As críticas históricas, tanto as que procuram examinar as evidências externas como as que se dedicam à investigação do próprio texto, afirmam que as obras não pertencem a São Dinis, mas a um autor desconhecido do século IV ou V. Esse hipotético autor é designado por uns como pseudo-Dinis o Areopagita e por outros como Dinis o pseudo-Areopagita. Alguns afirmam que somente no ano 533 num concílio realizado em Constantinopla os textos de São Dinis o chamado "Corpus dionysiacum" fazem a sua aparição na história.

É claro que os críticos para fazerem valer as suas teses têm que contradizer São Gregório de Nazianzo, São Jerônimo, Orígenes, São Máximo o Confessor, Liberatus de Cartago, além de muitos outros autores.

Sabe-se que existiram doutrinas e costumes elaborados mantidos secretamente desde os tempos de São Paulo, visto que São Basílio o Grande e Tertuliano referiram-se a alguns deles. É possível ainda admitir a existência de contraposições posteriores. Mas a conjunção desses dois fatores era pouco grata aos defensores de ambas as teses.

De qualquer forma, além dessa polêmica, os textos afirmam-se de modo especial em virtude do seu valor interno. Os cristãos ortodoxos foram sempre aqueles que os invocaram em virtude da sua retidão dogmática, solidez filosófica e profundidade espiritual. Entre eles destacam-se São Máximo o Confessor, São João Damasceno, São Teodoro o Estudita, São Symeão o Novo Teólogo e São Gregório de Palamas. Entre outros aprofundamentos teológicos podemos citar a teologia apofática como aquela que tem em São Dinis o seu deliberador.

Os seus textos se difundiram largamente tanto no ocidente como no oriente cristão. São Máximo o Confessor (580-662) fixa-nos definitivamente no seio da tradição oriental. Até São Gregório de Palamas e mesmo depois dele São Dinis é considerado como o verdadeiro inspirador de toda a mística. No ocidente foi necessário esperar mais dois séculos para que a importância do "Corpus dionysiacum" se impusesse através de João Scot que demonstrou entusiasmo por ele.

A "Hierarquia Celeste" é constituída de 15 capítulos ao longo dos quais São Dinis nos fala da iluminação divina, da relação entre os símbolos, das alegorias e dos mistérios divinos a eles associados, da função hierárquica, do significado dos nomes dos anjos, da composição das três grandes ordens angélicas e das imagens utilizadas para a representação dos seres angélicos. Porém, para conhecermos a obra nada melhor do que mergulharmos no próprio texto.

Pe. Sérgio


 Hierarquia Celeste
São Dinis, o Areopagita (Pseudo-Dioníso)

Capítulo I.

A Luz irradia do Pai. A Luz saí d’Ele para nos iluminar com os Seus excelentes dons. Apenas Ela nos restabelece e nos eleva. É Ela que nos converte à unidade do Pai segundo as Sagradas Escrituras: "Porque Dele, por Ele e para Ele são todas as coisas..." (Rom 11: 36).

"Toda a dádiva excelente e todo o dom perfeito vêm do alto e descende do Pai das Luzes..." (Tg 1: 17).

É por isso que invocando Jesus, Luz do Pai, através do Qual temos acesso ao Pai, princípio de toda a Luz, elevemos nossos olhos tanto quanto pudermos até as iluminações provenientes das Sagradas Escrituras e iniciemos na medida das nossas forças, no conhecimento da hierarquia das inteligências celestes tal como nos revelam as próprias Escrituras: "(O Verbo) era a Luz verdadeira, que ilumina todo o homem que vem a este mundo" (Jo 1:9).

Os santos que primitivamente regularam os nossos ritos religiosos, organizaram a nossa hierarquia sagrada segundo o modelo das hierarquias celestes. Essas hierarquias encontram-se revestidas na sua descrição de uma variedade de figuras e formas materiais para que elevemos a nossa compreensão de forma analógica desses símbolos, às realidades espirituais, das quais esses símbolos são apenas imagens.

De fato, é para nós impossível a contemplação das hierarquias celestes sem utilizarmos meios materiais adequados a nossa natureza para nos guiarmos nessa contemplação. A beleza manifesta-se na harmonia das figuras, os aromas agradáveis representam a iluminação intelectual, a luz material representa a efusão de luz imaterial e a recepção da Santa Eucaristia manifesta a participação em Jesus.

A nossa própria hierarquia imita a hierarquia celeste o tanto quanto possível enquanto instituição humana, a fim de que ela entre em colegialidade com o sacerdócio angélico.

Capítulo II.

É necessário que elevemos a nossa compreensão a partir das alegorias com as quais as inteligências celestes nos são representadas nas Sagradas Escrituras, a fim de não deduzirmos como pensaria qualquer pessoa desprevenida, que as inteligências celestes têm vários pés e vários rostos, que elas se assemelham ao gado como os bois, que apresentam o aspecto selvagem do leão, o bico curvo da águia, ou ainda, que possuem asas e penas como as aves. Não devemos imaginá-las como rodas inflamadas girando no céu, como guerreiros a cavalos armados de lanças, nem sob outras formas que as Sagradas Escrituras nos transmitem através de uma variedade de símbolos reveladores.

Se os teólogos aplicaram essa imaginação poética às inteligências celestes foi porque tiveram em conta o caráter humano da nossa inteligência, a fim de nos proporcionarem um meio de elevação espiritual adaptado a nossa natureza.

Se aceitarmos essas alegorias como figurações de realidades que não podemos conhecer nem contemplar, julgaremos que as imagens usadas pelas Sagradas Escrituras para representar as inteligências celestes são inadequadas ao seu objetivo, que os nomes atribuídos aos anjos não correspondem senão muito parcialmente às realidades que sugerem. Contrapomos, que para materializar os anjos os teólogos deveriam ter utilizado imagens tanto quanto possível adequadas ao seu objeto, utilizando substâncias que consideramos como sendo as mais nobres, ao invés de ligar à essas realidades uma multiplicidade de figuras retiradas do que poderia ser considerado como pertencendo às mais baixas realidades terrestres. Assim, a alegoria seria mais rica de ensinamentos espirituais e não nos arriscaríamos a ofender a dignidade das potências divinas. Com efeito, não seríamos levados a imaginar que o céu está cheio de rebanhos de leões, manadas de cavalos, bandos de pássaros e de outros animais com essas alegorias inadequadas?

Mas se procurarmos a verdade estará claro para nós, que os autores Sagrados tiveram o cuidado providencial de simultaneamente dar expressão contida a tudo isso que os nossos contraditores consideram um ultraje às potências divinas e nos pouparão dos riscos de uma ligação excessiva a tudo que tais símbolos podem ter de baixo e vulgar.

Se é necessário dar figura ao desfigurado, dar forma ao que está sem forma, não é somente porque somos incapazes de contemplar diretamente essas realidades, mas porque convém às passagens místicas das Sagradas Escrituras ocultar sob a forma de enigmas, a santa e misteriosa unidade dessas inteligências que não pertencem a esse mundo. Porque nem todos são santos e como dizem as Sagradas Escrituras: "Mas nem em todos há a ciência..." (1Co 8:7).

Quanto ao caráter inadequado das imagens escriturísticas, é necessário responder a essa objeção afirmando que a revelação do sagrado se faz de dois modos: o primeiro modo procede por imagens adequadas ao seu objeto; o segundo modo pelo contrário passa pela inadequação das imagens que modela levada até à extrema inacreditibilidade, até o absurdo. É por isso que as Sagradas Escrituras se referem a Trindade sobreessencial com os nomes de Razão, Inteligência e Essência, manifestando assim o que convém atribuir a Deus de racionalidade e sabedoria: designando-A como Substância que subsiste por si própria, como causa verdadeira da existência de todos os seres, ou ainda, como Luz e Vida.

Essas designações são seguramente mais santas e parecem de algum modo superiores às imagens materiais. Mas na realidade elas são menos deficientes que as outras se se pretender significar toda a Verdade da própria Divindade que está para lá de toda a essência e de toda a vida e que não se caracteriza por nenhuma luz, da qual nenhuma razão e nenhuma inteligência pode dar uma imagem autêntica.

É por isso que também acontece de celebrar-se nas mesmas Escrituras a Trindade, representando-A de um modo que não é desse mundo, por imagens que não se Lhe assemelham de modo algum. Elas descrevem-Na como invisível, ilimitada e incompreensível, não procurando significar o que Ela é, mas o que Ela não é.

A meu ver, essa segunda maneira de celebrar a Santíssima Trindade Lhes convém melhor, porque seguindo a tradição sagrada nós temos razão em dizer que Ela não é nada do que são os outros seres, e nós ignoramos essa indefinível Sobreessência que não se pode pensar nem dizer.

Assim, as negações são verdadeiras no que concerne aos mistérios divinos, enquanto que toda afirmação pela positiva permanece inadequada. Convém mais ao caráter secreto d’Aquele que permanece em si próprio incomum, não revelar o invisível a não ser através de imagens sem semelhança com o seu objeto.

(São Dinis nos introduz em dois métodos teológicos: o afirmativo ou Catafático e o negativo ou Apofático. O primeiro, que São Dinis considera menos adequado, refere-se a Deus através de afirmações como: Deus é Amor, Verdade, Mestre, Senhor, Pai, Todo-Poderoso, Santo, Eterno, etc. O método Apofático proposto por São Dinis procede pela negativa, como também nos fala São João Crisóstomo, o reconhecimento da incompreensibilidade de Deus é a única maneira de compreendê-Lo. Esse método refere-se a Deus como sendo Inacessível, Inexprimível, Invisível, Incompreensível, Imutável, etc.).

Portanto, longe de humilhar as legiões celestes as alegorias honram-nas, porque mostram até que ponto essas legiões que não pertencem a este mundo excluem toda a materialidade.

(Temos que entender esse termo "materialidade" como empregado para designar uma materialidade terrena. De fato, só Deus é espírito puro e todas as criaturas mesmo as angélicas são dotadas de alguma materialidade).

A utilização de figuras sagradas de natureza mais elevada nos induziria mais facilmente a erros, porque elas nos levariam a imaginar as essências celestes como figuras de ouro, ou como seres luminosos lançando raios, ou como seres de bela estatura revestidos de suntuosas vestes repletas de esplendor, ou sob todas as outras formas do mesmo gênero de que a teologia fez uso para representar as inteligências celestes: "O que falava comigo tinha uma cana de ouro de medir, para medir a cidade, as suas portas e o muro" (Apoc 21:15).

"Como estivessem olhando para o céu, quando Ele ia subindo, eis que se apresentaram junto deles dois personagens vestidos de branco..." (At 1:10). "E, fixando Nele os olhos todos os que estavam sentados no conselho, viram o Seu rosto como o rosto de um anjo" (At 6:15). "Passados quarenta anos, apareceu-lhe no deserto do Monte Sinai um anjo na chama de uma sarça que ardia" (At 7:30). "Porque um anjo do Senhor desceu do Céu, e, aproximando-se, revolveu a pedra e sentou sobre ela. O seu aspecto era como um relâmpago. A sua veste branca como a neve" (Mt 28:2-3).

Não importa qual imagem possa servir de ponto de partida para a bela contemplação, o que importa é que possamos nos apoiar em figurações materiais para aplicar a esses seres que são inteligíveis e inteligentes as metáforas sem semelhança com o objeto do qual falamos atrás, na condição de nunca esquecermos a grande diferença existente entre o comportamento dos seres inteligentes e o comportamento dos seres sensíveis (esses são privados de razão).

As alegorias sagradas são usadas pelos teólogos não somente para revelarem as ordens celestes, mas também para manifestarem os mistérios de Deus. Ainda que se refiram a Ele fazendo apelo às mais belas imagens como: Sol de Justiça; Estrela da Manhã (Apoc 22:16; Núm 24:17; 2Pdr 1:19), Luz Radiante (Jo 1:5) e apelo a símbolos de nível mediano como: Fogo que queima sem consumir (Êx 3:2), Água que conduz à plenitude da vida e de metáforas vulgares quando se fala por exemplo de Ungüento suave; Pedra Angular (Ef 2:20), mesmo assim as Sagradas Escrituras fazem ainda uso de figuras animais quando atribui a Deus qualidades do leão e da pantera ou quando apresenta-O como um leopardo ou como um urso que perdeu os seus filhos (Os 13:7).

Finalmente, o apelo à metáfora mais indigna de todas e que parece ser a mais inadequada: com efeito, não foi sob a forma de um vaso de terra que os admiráveis intérpretes dos ministérios divinos nos representaram?

Por tudo isso, vemos que nada há de absurdo, quando os teólogos representam igualmente as essências celestes por imagens inadequadas que não apresentam nenhuma semelhança com o seu modelo original. Talvez não tivéssemos procurado a interpretação espiritual minuciosa dessas santas realidades, se não tivéssemos perturbados pelo caráter disforme das imagens que nas Sagradas Escrituras representam os anjos.

Capítulo III.

Hierarquia é uma santa ordem, um saber e uma ação tão próxima quanto possível da forma divina elevada à imitação de Deus na medida das iluminações divinas. Na sua simplicidade, na sua bondade, na sua perfeição fundamental, na perfeição que convém a Deus, comunica a cada ser segundo o seu mérito uma parte da sua própria luz. Ela o aperfeiçoa através da iniciação divina, revestido da sua própria forma, de modo harmonioso e estável àqueles que ela aperfeiçoou.

A finalidade da hierarquia consiste em conferir às criaturas tanto quanto possível a semelhança divina para uní-las a Deus. Deus é para a hierarquia, com efeito, o mestre de todo o conhecimento e de toda a ação. Ela não cessa de contemplar a Sua divina bondade e dos seus seguidores ela faz imagens perfeitas de Deus. Tendo recebido a plenitude do Seu esplendor elas são capazes, seguindo os preceitos da Trindade, de transmitir essa luz até mesmo aos seres que lhe são hierarquicamente inferiores.

Assim, quando se fala de hierarquia, se entende por isso uma certa ordenação perfeitamente santa, imagem do esplendor divino, tendendo tanto quanto possível e sem sacrilégio assemelhar-se Àquele que é o seu próprio princípio. Para cada um dos membros da hierarquia a perfeição consiste em imitar a Deus o melhor que puder, tornando-se "cooperadores" Dele.

"Efetivamente, nós somos cooperadores de Deus..." (1Cor 3:9).

Se, por exemplo, a ordem hierárquica impõe a uns a função de receber a purificação e a outros a de purificar; a uns a de receber a iluminação e a outros a de iluminar; a uns a de receber o aperfeiçoamento e a outros a de aperfeiçoar; cada um imitará a Deus segundo o modo que convém a sua própria função.

Convém, que os purificados se libertem de toda a impureza e de toda a dissemelhança; que os iluminados recebam a plenitude da luz divina e que elevem a sua inteligência até atingirem a capacidade de contemplar; que os perfeitos tenham abandonado toda a imperfeição e tomem parte da perfeição dos iniciados; e que os iluminadores, com inteligências mais transparentes que as outras, difundam essa luz por todos os lados e por todos aqueles que forem dignos dela.

Assim, cada escalão da ordem hierárquica na medida de suas forças eleva-se para a cooperação divina e ao seu redor cada um revela essa cooperação às inteligências que amam a Deus, cumprindo na virtude e sob a ação da Graça o que a própria Divindade cumpre graças ao Seu caráter sobreessencial.

Capítulo IV.

Antes de mais nada, queremos afirmar em primeiro lugar que foi por bondade que a Divindade criou essa ordem hierarquia, porque Lhe pertence esse Bem totalmente transcendente a chamar todos os seres para entrarem em comunhão com Ela na medida da capacidade de cada um. É por isso que tudo que existe tem alguma relação com a Divindade, a Causa Universal, porque sem a participação n’Ela que é a essência e o princípio de todo o ser, nada existiria.

É, portanto, a esses seres que recebem de forma inicial e múltipla a participação divina e que revelam ao seu redor de modo original e múltiplo o mistério da Divindade, que é atribuído de forma louvável e sublime o título de seres angélicos — pois eles receberam em primeiro lugar a iluminação e é por intermédio deles que nos são transmitidas essas revelações que ultrapassam a todos nós. Como ensina a teologia, a Lei nos foi transmitida pelos anjos.

"Para que é então a Lei? Foi acrescentada por causa das transgressões, até que viesse a descendência, a quem tinha sido feita a promessa, e foi promulgada pelos anjos na mão de um mediador" (Gál 3:19).

Foram os anjos que guiaram os nossos veneráveis antepassados em direção às realidades divinas; tanto nos tempos que precederam a Lei, como no tempo da Lei; tanto na prescrição a eles de regras de conduta desviando-os de uma vida repleta de erros e de pecados, assim como na revelação da interpretação da santa hierarquia e das visões secretas dos mistérios que não são deste mundo; como também ainda na revelação das profecias divinas.

"Vós, que recebestes a Lei por ministério dos anjos e não a guardastes" (At 7:53). "Este viu claramente numa visão, cerca da hora de Noa, que um anjo de Deus se apresentava diante dele e lhe dizia: Cornélio" (At 10:3).

Se argumentar-se que Deus manifestou-Se sem intermediários a algum santo, que se saiba que nunca ninguém O viu e nem jamais O verá, porque essa verdade provem claramente das Sagradas Escrituras e é a própria substância de Deus naquilo que tem de mais secreto.

"Ninguém jamais viu a Deus; o Unigênito, que está no seio do Pai, Ele mesmo é que O deu a conhecer" (Jo 1:18). "...Que é o Único que possui a imortalidade e que habita numa Luz inacessível, O qual não foi nem pode ser visto por nenhum homem, ao qual seja dada honra e império sempiterno. Amém" (1Tim 6:16).

Seguramente, Deus apareceu a certos homens piedosos segundo o modo que convinha a Sua divindade, revelando-Se por visões adaptadas à medida dos visionários. A santa teologia tem razão ao chamar visão divina ― Teofania ― a essa espιcie de apariηão, na qual se reflete a semelhança divina segundo o modo que convém à figuração do infigurável, isto é, elevando espiritualmente os visionários para as realidades divinas. Com efeito, através dessa visão os visionários recebem a plenitude da iluminação divina e uma certa iniciação sagrada em relação aos mistérios de Deus. Os nossos ilustres antepassados não foram iniciados através dessas visões, senão por intermédio das potências celestes.

Há de se cogitar, que a tradição escriturística afirma que os mandamentos da Lei foram transmitidos diretamente por Deus a Moisés. Certamente! Mas se as Sagradas Escrituras assim se exprimem é para que não ignoremos que essas prescrições são a própria imagem da Lei divina e sagrada. A teologia ensina sabiamente que essas prescrições vieram até nós por intermédio dos anjos, para que a ordem instituída pelo Divino Legislador nos ensine que é por intermédio de seres hierarquicamente superiores que se elevam espiritualmente para o Divino aqueles que Lhe são inferiores.

"Porque, se a palavra anunciada pelos anjos ficou firme, e toda a prevaricação e desobediência recebeu a justa retribuição que merecia..." (Hebr 2:2).

Mesmo ao que concerne ao mistério divino do amor de Jesus pelos homens foram os anjos que em primeiro lugar receberam a iniciação. E foi por intermédio deles que esse conhecimento desceu até nós.

Foi assim que o divino Gabriel ensinou ao grande sacerdote Zacarias que o filho que iria ter contra toda a sua esperança, mas pela graça de Deus, seria o profeta da obra divino-humana, através do qual Jesus operaria para bem do mundo e para a sua salvação.

Igualmente o arcanjo Gabriel ensinou à Santíssima Virgem Maria que nela se cumpriria o mistério da Encarnação. Um outro anjo instruiu José sobre a verdade dos acontecimentos e sobre o cumprimento das promessas divinas feitas a Davi. Foi um anjo que difundiu a boa nova aos pastores, que eram de algum modo homens purificados pela vida tranqüila que levavam e afastados das multidões, ao mesmo tempo que os exércitos celestes transmitiam a toda a terra o célebre cântico de glorificação "Glória a Deus nas alturas, paz na terra aos homens a quem Ele ama".

Por intermédio dos anjos José foi avisado que ele deveria partir para o Egito e assim novamente quando de seu regresso a Judéia. Não falou também Jesus a nós como um mensageiro quando Ele nos comunicava a vontade do Pai?

Capítulo V.

Importa agora procurar a razão pela qual os teólogos chamam anjos a todas as essências celestes indistintamente, enquanto reservam o termo angélico mais propriamente à ordem mais baixa que é subordinada às legiões dos Arcanjos, dos Principados, das Potestades, das Dominações, essências das quais a tradição revela e as Escrituras reconhecem como superiores.

Ora, nós afirmamos que em toda a ordenação sagrada as ordens superiores possuem todas as iluminações das ordens inferiores, sem que essas últimas participem nos privilégios das que lhe são superiores. É por isso que os teólogos chamam de anjos os escalões mais altos e mais santos das essências celestes, porque eles são reveladores da iluminação divina.

Quando fazemos referências à ordem inferior não seria adequado designar os seus membros de Principados, Tronos ou Serafins, porque eles não participam de modo algum das capacidades das essências celestes que possuem um nível superior. O que podemos afirmar é que se todos os anjos recebem um nome comum isto se sucede também pelo fato das potências celestes possuírem em comum o poder de permanecerem em harmonia com Deus e de entrarem em comunhão com a luz que vem de Deus.

Capítulo VI.

Quais e quantas são as ordens desses seres que vivem no Céu? Como é que cada hierarquia recebe a sua consagração ou o seu aperfeiçoamento? Afirmo que apenas o Princípio Divino poderia responder exatamente a essas questões. Mas os seres angélicos não ignoram nem as qualidades que lhes são próprias, nem a hierarquia sagrada que os rege e que não pertence a este mundo.

É impossível conhecermos os segredos das inteligências que vivem no céu, a menos que Deus nos revele por intermédio dessas mesmas inteligências, as quais não ignoram a sua própria natureza. Portanto, não faremos nada de nossa própria autoria e nos contentaremos em expor na medida dos nossos conhecimentos essas visões angélicas, tal como os santos teólogos as contemplam e tal como eles a nós revelaram.

Os seres angélicos dividem-se em três ordens e possuem nove nomes.

A primeira ordem rodeia a Deus de modo permanente e está unida a Ele constantemente. Ela está em primeiro lugar e não possui qualquer mediação: são os Tronos santíssimos e os batalhões notáveis por seus números de olhos e de asas que recebem os nomes de Querubins e Serafins. Eles têm uma proximidade de Deus superior a todos os outros. Essa ordem de três batalhões formam uma só e constitui a primeira hierarquia de nível igual.

A segunda ordem compõe-se de Virtudes, Dominações e Potestades constituindo a segunda hierarquia.

A terceira ordem constitui a última hierarquia celeste. É a ordem dos Anjos, Arcanjos e Principados.

Capítulo VII.

Todos os nomes atribuídos às inteligências celestes designam capacidades para eles receberem a semelhança divina.

Querubim em hebraico significa "aquele que arde". Significa também "massa de conhecimento e efusão de sabedoria".

A primeira hierarquia é a mais sublime de todas e graças a sua proximidade com Deus recebe primeiro que as outras as aparições Dele e os seus nomes revelam o modo como se ligam a Ele.

Os Serafins têm como qualidades especiais o movimento perpétuo em torno dos segredos divinos, o calor, a profundidade, o ardor dum constante movimento que não conhece diminuição, o poder de elevarem eficazmente as suas semelhanças aos que lhes são inferiores, comunicando-lhes o mesmo ardor a mesma chama e o mesmo calor. Eles têm o poder de purificarem a evidente e indestrutível aptidão para conservarem a sua própria luz, o seu poder de iluminação e a faculdade de abolirem todas as trevas.

Os Querubins designam aptidões a conhecerem e a contemplarem a Deus, a receberem os mais altos dons da Sua Luz, a contemplarem na sua potência primordial o esplendor divino, a acolherem em si a plenitude dos dons que transmitem sabedoria e a comunicá-los em seguida às essências inferiores graças a expansão da própria sabedoria que lhes foi transmitida.

Os Tronos, sublimes e luminosos, indicam a ausência total de qualquer concessão aos bens inferiores e a tendência contínua para os cumes, que sublinha bem o fato de eles nada terem em comum com o que lhes está abaixo. Eles indicam a sua infalível aversão a toda indignidade, a grande concentração de toda a sua capacidade para se manterem constante e firmemente perto do Altíssimo, a capacidade de receberem indiferentemente todas as visitações da Divindade, o privilégio que têm de servirem de assento a Deus e o seus zelos em se abrirem aos dons de Deus.

Essa é a explicação de seus nomes na medida do que nos é possível revelar aos homens.

Resta-nos dizer o que entendemos pela suas hierarquias. Que o objetivo de toda hierarquia é imitar constantemente a Deus; que toda a função hierárquica consiste em acolher e transmitir a pureza sem mistura da luz divina e da sabedoria, como já o dissemos.

Agora proponho-me a mostrar o que as Escrituras revelam das suas hierarquias.

Esses seres angélicos constituem uma só hierarquia inteiramente homogênea. Devemos pensar que eles são puros não apenas por estarem livres de todo o pecado e de tudo o que é profano, mas porque eles ignoram toda a imaginação material; porque estão acima de toda a fraqueza; porque a sua sublime pureza ultrapassa a de quaisquer outras inteligências angélicas; porque conservam sem qualquer perda ou corrupção a estabilidade perpétua do poder que possuem de estarem em harmonia com Deus.

Eles são igualmente contemplativos. Não porque contemplem intelectualmente símbolos nem porque se elevem espiritualmente através de santas alegorias, mas porque recebem em toda a plenitude o saber de uma Luz superior através da contemplação desse Ser Sobreessencial e triplamente luminoso, que está na origem e no princípio de toda a beleza. Eles têm igualmente o mérito de entrarem em comunhão com Jesus através de uma verdadeira proximidade, pois tomam parte no conhecimento de Suas operações divinas, uma vez que lhes foi dada no mais alto grau a capacidade de imitarem a Deus. Eles entram em contato tanto quanto lhes é possível com as virtudes, pelas quais Ele exerce a Sua ação divina face aos homens e manifesta o Seu amor por eles.

Eles são perfeitos não pela iluminação de uma sabedoria que lhes permitiria analisar a variedade dos santos mistérios, mas pela plenitude duma deificação, pela ciência superior que possuem na qualidade de mensageiros das operações divinas. É diretamente de Deus que eles recebem a iniciação sagrada e é graças a esse poder de se elevarem diretamente até Deus, que eles devem a superioridade sobre todos os outros seres.

Os teólogos mostram claramente que as ordens inferiores das essências celestes aprendem de seus superiores tudo o que lhes concernem às operações divinas, enquanto que a ordem mais elevada é iniciada por Deus. Eles nos revelam, que certos anjos são iniciados por aqueles que possuem um nível mais elevado que o seu e que aprendem através desses, que Deus é o Senhor das potências celestes, o Rei da Glória, que sob a forma humana subiu aos céus. Outros recebem de Jesus Cristo a sua iniciação sem intermediários, recebendo d’Ele antes de todos os outros a revelação da obra redentora que Ele levou a cabo por amor aos homens.

"Eu sou (responderá Ele) O que falo a justiça, e venho para defender e salvar" (Is 63:1).

Assim é, tanto quanto eu posso conhecer, essa primeira ordem das essências celestes, aquela que rodeia a Deus e que se situa na Sua vizinhança, aquela que envolve o Seu perpétuo conhecimento. Ela pode não somente contemplar, mas ainda receber iluminações e sustentar-se do maná divino.

Digna ao mais alto nível, de entrar em comunhão e em cooperação com Deus, essa primeira ordem assemelha-se tanto quanto pode à bondade dos poderes e das operações próprias a Deus.

É por isso que a teologia nos transmite os hinos que cantam esses anjos, onde se manifesta o caráter transcendente da sua sublime iluminação. Se ousarmos utilizar uma imagem terrena, eles se assemelham à voz de uma torrente tempestuosa quando gritam: "Bendita seja a glória do Senhor, que se vai do seu lugar" (Ez 3:12). Outros anjos entoam o hino célebre e venerável: "Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos, toda a terra está cheia da Sua glória" (Is 6:3).

Nessa primeira ordem das essências celestes estão os lugares divinos, onde segundo a expressão das Sagradas Escrituras a Divindade "repousa". Essa ordem ensina também aos outros anjos que a Divindade é una. Una em Três Pessoas e que Ela exerce a sua Providência benfeitora desde as essências que vivem no céu até as mais baixas criaturas terrenas, pois Ela é o Princípio e a Causa de toda a essência e é Ela que envolve o universo inteiro de modo sobreessencial num abraço irresistível.

Capítulo VIII.

Abordaremos agora a segunda ordem das inteligências celestes iniciando-nos no conhecimento das Dominações, Virtudes e Potestades.

Cada uma dessas denominações revela a forma própria de cada inteligência angélica de imitar e se configurar a Deus.

O nome das santas Dominações significa a elevação espiritual livre de qualquer compromisso terreno tal como convém a uma entidade incorruptível e verdadeiramente livre, tendendo com um firme vigor para o verdadeiro princípio de toda a Dominação, recebendo ela e os seus subordinados à medida das suas forças a semelhança do Senhor e participando do princípio constante e divino de toda a Dominação.

No que concerne às santas Potestades o seu nome indica uma certa vigorosidade corajosa em todos os atos pelos quais se configuram a Deus. Uma vigorosidade que exclui qualquer enfraquecimento de forças no recebimento das iluminações divinas que lhe é outorgada; uma vigorosidade que se eleva corajosamente até a imitação de Deus e que não abandona a ascensão à forma divina e cujo olhar permanece rigidamente direcionado para a fonte de toda a potestade Sobreessencial. Porque essa vigorosidade torna-se imagem da potestade, da qual ela assume a forma, ligando-se a ela com todas as suas forças para fazer descer sobre as essências inferiores o seu processo dinâmico e deificante.

O nome das Virtudes indica que ela tem o nível igual das Dominações e Potestades. Ela é disposta harmonicamente e sem confusão para receber os dons divinos. Ela indica ainda que o poder intelectual que lhe pertence é perfeitamente ordenado e que longe de abusar do seu poder ela se eleva harmoniosamente para as realidades divinas, conduzindo na sua bondade as essências inferiores e imitando tanto quanto pode a virtude fundamental, que é a fonte de toda a virtude sem deixar de difundí-la na medida de sua capacidade.

Eis como a segunda hierarquia das inteligências celestes manifesta a sua identidade com Deus. É assim que ela se purifica, se ilumina e se aperfeiçoa graças às iluminações divinas que lhe são transmitidas pelos membros da primeira ordem hierárquica.

Essa tradição, que se transmite regularmente de anjo a anjo, simbolizará a nós essa perfeição que vinda de longe, se confunde descendo progressivamente do primeiro ao segundo nível. Do mesmo modo, as evidentes perfeições das realidades divinas são mais perfeitas que as participações nas visões divinas que se fazem através de intermediários. Assim parece-me que a participação imediata das ordens angélicas que mais se aproximam de Deus é mais clara que a dos anjos cuja iniciação é mediata. É por isso que segundo os termos consagrados pela nossa tradução as primeiras inteligências iluminam e purificam as que têm um nível (hierárquico) inferior, de modo que essas últimas elevadas por intermédio da primeira até o princípio Universal e Sobreessencial tomem parte tanto quanto lhes é possível nas iluminações e nos aperfeiçoamentos operados por Aquele, que é o princípio de toda a perfeição.

A Lei Universal, pela qual as essências celestes da segunda ordem participam por intermédio das de primeira ordem nas iluminações divinas, é instituída pelo Princípio Divino.

Deus no Seu amor paternal pelos homens depois de ter corrigido Israel para convertê-lo e reconduzí-lo ao caminho da salvação, livrou-o em primeiro lugar da barbárie vingativa das nações, a fim de assegurar o aperfeiçoamento aos homens submetidos a Sua providência e praticou em seguida o ato de libertá-lo de seu cativeiro e de devolvê-lo a sua antiga felicidade. Como diz as Sagradas Escrituras segundo a visão de um de seus teólogos Zacarias (Zac 1:8-17), parece ter sido um anjo da primeira ordem, daqueles que vivem junto de Deus, que recebeu do próprio Deus as palavras consoladoras. Foi enviado ao encontro do primeiro um outro anjo pertencente aos níveis inferiores para receber e transmitir a iluminação e que uma vez iniciado na vontade divina, confiou ao teólogo a santa nova de que Jerusalém refloresceria e que multidões de homens a repovoariam.

Um outro teólogo Ezequiel declara que essa lei foi santamente instituída por Deus e que na Sua glória mais elevada do que qualquer outra, Ele comanda os Querubins.

"Estes são os mesmos animais que eu vi debaixo do Deus de Israel, junto do rio Cobar; e conheci que eram Querubins" (Ez 10:20).

Deus no Seu amor paternal pelos homens e querendo punir Israel para os ensinar ordenou por um ato de justiça que os inocentes fossem separados dos responsáveis. É o primeiro dos Querubins que segundo o texto sagrado recebe a santa ordem e se reveste de um manto que caí até os pés como símbolo da sua função sagrada. Em seguida, somente o Princípio Divino de toda a ordem prescreve ao primeiro dos anjos que o segredo da decisão divina seja transmitido àqueles anjos que usam armas destruidoras. Lhe é ordenado ainda que atravesse toda a cidade de Jerusalém e marque os inocentes nas suas frontes. Aos outros anjos Ele ordena: "Passai pelo meio da cidade, seguindo-o, e feri: não sejam compassivos os vossos olhos, nem tenhais compaixão alguma. O velho, o jovem e a donzela, o menino e as mulheres, matai todos, sem que nenhum escape; mas não mateis nenhum daqueles sobre quem virdes o tau; começai pelo Meu santuário. Começaram, pois pelos anciãos que estavam diante da casa do Senhor" (Ez 9:5-6).

E que dizer ainda daquele anjo que anunciou a Daniel: "Desde o princípio das tuas preces, foi dada esta ordem, e eu vim para ta descobrir, porque tu és um varão de desejos; toma, pois, bem sentido no que vou dizer-te e compreende a visão" (Dan 9:23).

Ou daquele que recebe o fogo do meio dos Querubins: "E (o Senhor) falou ao homem que estava vestido de roupas de linho, dizendo: Vai ao meio das rodas que estão debaixo dos Querubins, enche a tua mão de carvões ardentes, que estão entre os Querubins, e espalha-os sobre a cidade..." (Ez 10:2).

E ainda daquele que demonstra mais claramente a boa ordem que preside aos anjos: o Querubim que toma o fogo e o põe nas mãos daquele que estava vestido de roupas de linho (Ez 10:6-7).

Que dizer igualmente daquele que chamou o divino Gabriel e lhe disse: "Ouvi a voz dum homem no meio de Ulai, o qual gritou e disse: Gabriel, explica-lhe esta visão" (Dan 8:16).

Ou que dizer enfim de todos os outros exemplos fornecidos pelos santos teólogos?

Capítulo IX.

Falta-me contemplar a terceira ordem que termina a hierarquia angélica e que se compõe de Principados, Arcanjos e Anjos. Creio que em primeiro lugar é preciso explicar o sentido desses nomes sagrados.

O nome dos Principados celestes significa que eles possuem na ordem sagrada um princípio e uma hegemonia de forma divina; que eles possuem das potências de comando da mais alta conveniência o poder de se converterem inteiramente ao Princípio que está acima de todo o princípio e de conduzirem os outros para eles com uma autoridade primordial e de revelarem o Princípio Sobreessencial de toda a ordem pela harmonia do seu comando.

Os Santos Arcanjos têm o mesmo nível que os Principados celestes e formam uma única hierarquia juntamente com os Anjos.

A ordem dos Arcanjos, graças ao seu lugar intermediário na hierarquia, participa nos dois extremos uma vez que ela entra em comunhão com os Principados e com os Anjos. Em um dos extremos ela participa no sentido de sua conversão ao Princípio Sobreessencial e lhe confere a unidade graças aos poderes invisíveis da harmonização; no outro extremo ela participa no sentido de também pertencer ao nível dos intérpretes, recebendo hierarquicamente a iluminação por intermédio das potências do primeiro nível transmitida aos Anjos e por intermédio desses transmitida a nós na medida em que cada um possa recebê-la através dos segredos divinos.

Como já dissemos, os Anjos terminam e completam a regra das inteligências celestes, porque são eles que possuem entre elas o mais baixo grau da qualidade angélica e se nós os designamos por anjos é precisamente porque por seu intermédio se manifesta a sua hierarquia mais claramente aos nossos olhos.

A ordem superior (Tronos, Querubins e Serafins) mais próxima — pela sua dignidade — do Santuário Secreto inicia misteriosamente a segunda ordem, aquela que se compõe das Dominações, Potestades e Virtudes, que por outro lado comanda os Principados, Arcanjos e Anjos. A segunda ordem revela os mistérios menos secretamente que a primeira ordem mas menos abertamente que a última. A função reveladora pertence à ordem dos Principados, Arcanjos e Anjos. É ela que através dos graus da sua própria ordenação preside as hierarquias humanas, a fim de que se produzam de modo ordenado a elevação para Deus, a conversão, a comunhão, a união e ao mesmo tempo o movimento que provem de Deus que gratifica liberalmente todas as hierarquias e dons e as ilumina, fazendo com que essas hierarquias humanas entrem em comunhão com essa função reveladora. Daí resulta, que a teologia reserva aos Anjos o cuidado pela nossa hierarquia chamando a Miguel o arconte (magistrado da Grécia antiga) do povo judeu e aos outros anjos arcontes de outras nações, porque: "Quando o Altíssimo dividiu as nações, quando separou os filhos de Adão, fixou os limites dos povos segundo os números dos filhos de Israel" (Dt 32:8) (versão dos 70).

Se nos perguntarmos como é que apenas o povo judeu foi elevado às iluminações de origem divina? É necessário dizer que os anjos preencheram de justiça a sua função de vigilância e não é culpa deles se outras nações se envolveram no culto de falsos deuses. Foram essas nações, com efeito, que pelos seus próprios movimentos abandonaram a via da ascensão espiritual para o divino. Foi à medida do seu orgulho e da sua presunção que elas veneraram os ídolos que lhes pareciam divinos. O povo hebreu testemunha propriamente essa verdade, pois a ele sucedeu-se o mesmo acidente. Porque as Sagradas Escrituras dizem: "O meu povo calou-se, porque não teve ciência. Porque tu (ó sacerdote) rejeitaste a ciência, também Eu te rejeitarei a ti" (Os 4:6).

Nem a nossa vida é necessariamente determinada, nem a liberdade dos seres submetidos à Providência das luzes divinas priva essas luzes do seu poder de iluminação providencial. Mas é a suficiente assimilação das visões — e da sabedoria que por elas é transmitida — que impede toda a participação nos dons luminosos da bondade paternal e constitui obstáculo a sua difusão, na medida em que torna as comunicações desiguais, pequenas ou grandes, obscuras ou claras, enquanto que a Fonte Radiante permanece única e simples sempre idêntica a si própria e superabundante. É assim mesmo entre as outras nações, nações das quais nós nos elevamos para o oceano indefinido e generoso dessa Luz Divina, que difunde os Seus dons sobre todos os seres. É para o único Princípio Universal que os anjos encarregados de cuidar de cada nação elevaram todos aqueles que os quiseram seguir.

Lembremo-nos de Melquisedec que teve em si próprio um grande amor a Deus, do Deus Altíssimo e Verdadeiro. Os conhecedores da Sabedoria Divina não se contentaram em chamá-lo de amigo de Deus, mas chamaram-no de Sacerdote para indicar claramente aos homens sensatos que o seu papel não foi somente o de converter-se ao culto do verdadeiro Deus, mas ainda enquanto grande sacerdote teve a função de conduzir a outros na ascensão espiritual, a qual leva à Única e Verdadeira Divindade.

"E Melquisedec, rei de Salém, trazendo pão e vinho, porque era sacerdote do Deus Altíssimo" (Gên 14:18).

Não nos esqueçamos do faraó que aprendeu sob a forma de visão de um anjo dedicado ao cuidado dos egípcios (Gên 41:1-7), tal como do príncipe dos Babilônios que aprendeu através do seu anjo particular; a solicitude do poder universal (Dan 12). Ministros do verdadeiro Deus, os anjos foram instituídos como condutores dessas nações para interpretarem as visões enviadas por Deus sob a forma alegórica, por intermédio de homens cuja santidade era próxima a dos anjos como Daniel e José; porque no Universo há um só Princípio e uma só Providência. Não poderíamos imaginar que Deus partilhasse o governo do povo judeu com anjos ou falsos deuses. As expressões que nos poderiam fazer crer nisso, devem ser interpretadas segundo um sentido sagrado. Elas não significam que Deus tenha partilhado o governo da humanidade, mas sim que neste mundo em que a Providência universal do Altíssimo tinha confiado para a salvação de todos os povos com anjos encarregados de os conduzir a Ele, foi só Israel que converteu-se à Luz e confessou o verdadeiro Senhor. Por isso, para mostrar que Israel tinha se devotado ao culto do verdadeiro Deus as Sagradas Escrituras exprimem-se assim: "A porção, porém, do Senhor é o Seu povo" (Dt 32:9).

Mas para mostrar que um dos anjos foi designado para a função de conduzir esse povo à confissão d’Aquele que é o Princípio Único e Universal, a teologia relata igualmente que Miguel preside ao governo do povo judeu. "Mas Eu te anuciarei o que está expresso na Escritura da Verdade; e em todas estas coisas ninguém Me ajuda senão Miguel, que é o vosso príncipe" (Dan 10:21).

As Sagradas Escrituras nos ensinam assim de modo claro, que não existe mais do que uma só Providência para o universo inteiro. Providência sobreessencialmente, transcendente a toda a potência visível ou invisível. Na medida do possível, todos os anjos dedicados a cada nação elevam para essa Providência aqueles que os seguem de bom grado.

Capítulo X.

Concluamos, portanto, que a ordem mais antiga dentre as inteligências que envolvem Deus, iniciada nos mistérios pelas iluminações que lhe vêem do próprio Princípio de toda a iluminação, recebe purificação, iluminação e aperfeiçoamento graças ao Dom das iluminações mais secretas da Divindade.

Depois dessa e proporcionalmente a sua natureza vem a segunda ordem, depois a terceira e por último a hierarquia humana. Todas as ordens se elevam hierarquicamente para o Princípio fundamental de toda a harmonia. Elas são reveladoras e mensageiras das que as precedem. Deus as distinguiu segundo os modos de harmoniosa deificação que convém em particular a cada uma. Os teólogos dizem que os Serafins trocam mútuos clamores mostrando assim segundo creio e de modo claro, que os primeiros transmitem aos segundos conhecimentos teológicos. "Clamavam um para o outro e diziam: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos" (Is 6:3).

Capítulo XI.

Uma vez colocada essas questões convem considerar porque razão nos acostumamos a chamar igualmente "potências celestes" a todas as essências angélicas. Não podemos dizer como o fizemos para o termo Anjo, que a ordem das Santas Potestades é a última das ordens e que as essências superiores participam na iluminação das ordens inferiores e que essas últimas não tomam parte na iluminação das primeiras. Tal explicação não justificaria a extensão do nome de potestades celestes a todas as inteligências divinas dos Serafins, dos Tronos ou das Dominações em virtude do princípio segundo o qual as ordens inferiores não participam nas propriedades das superiores. Restariam os Anjos e antes deles os Arcanjos, os Principados e as Virtudes que os teólogos subordinam às Potestades e que recebem freqüentemente na linguagem comum o nome de potestades ou potências celestes ao mesmo título que os outros anjos.

Ao usar o nome de potestades para designar todas as essências não introduzimos nenhuma confusão nas propriedades de cada ordem. No seio de todas as inteligências divinas distinguimos com efeito três qualidades: a essência, a potência e o ato. Se nos ocorre designá-las indistintamente por essências ou potências celestes importa considerar que o fazemos por rodeio de palavras e não se trata de atribuir na totalidade às essências subordinadas a eminente propriedade das santas potestades. Como já foi dito, as ordens superiores possuem as propriedades das inferiores, porque somente uma parte das iluminações primordiais é transmitida às ordens inferiores à medida de suas capacidades.

Capítulo XII.

Vejamos um outro problema que é colocado a quem quer que se envolva no estudo escriturístico minucioso: Uma vez que as últimas ordens não participam inteiramente nas ordens superiores, porque é que os grandes sacerdotes da hierarquia humana recebem nas Sagradas Escrituras o título de anjos do Senhor Todo Poderoso?

"Porque os lábios dos sacerdotes serão os guardas da ciência; da sua boca se há de aprender a lei, porque ele é o anjo do Senhor dos exércitos" (Ml 2:7; cf.Apoc 2:1).

Creio que o uso desse termo não contradiz as definições dadas até o momento. Quando se diz que às inteligências da terceira ordem falta a inteira potência, integral e sublime que pertence às ordens mais antigas, entende-se que elas participam na medida de suas forças numa comunhão única e universal, harmoniosa e sintética. Assim é, por exemplo, que se a ordem dos Querubins participa numa sabedoria mais elevada, as legiões formadas de essências inferiores participam também na sabedoria, mas de forma mais parcial. A participação geral na sabedoria é a característica comum a todas as inteligências que vivem em conformidade com Deus.

O que não é comum é o caráter mais ou menos imediato e primordial dessa participação, grau que se define para cada essência na medida de suas próprias capacidades. Essa verdade pode ser aplicada sem risco a todas as inteligências divinas, porque assim como as primeiras ordens possuem as propriedades de suas subordinadas, também as últimas possuem as propriedades das suas superiores, não do mesmo modo, mas de modo inferior. Eu não vejo inconveniente que um grande sacerdote da hierarquia humana seja chamado de anjo pelos teólogos, porque ele participa segundo a sua própria capacidade no papel de intérprete dos anjos e na medida de suas possibilidades tende a imitar o seu poder revelador.

Notaremos, que a teologia concede o título de deuses às essências celestes e chama também "deuses" aos homens que se distinguem pelo seu amor a Deus e pela sua santidade: "Jacó pôs àquele lugar o nome de Fanuel, dizendo: Eu vi a Deus face a face, e a minha alma foi salva" (Gên 32:30). "E o Senhor disse a Moisés: Eis que Te constituí deus do faraó, e Arão, teu irmão, será teu profeta" (Êx 7:1). "Eu disse: Sois deuses" (Sl 81:6).

Ora, o mistério divino é transcendente; o seu caráter sobreessencial separa-o de todas as coisas e nenhum ser vivo merece em propriedade ser nomeado do mesmo modo. Toda a inteligência que tende integralmente ― no máximo da sua potência ― para a união com Deus e que se eleva incessantemente tanto quanto pode para as iluminações divinas imitando o próprio Deus, se isso se pode dizer à medida de suas forças, então merece bem o título de divina.

Capítulo XIII.

Prossigamos o nosso caminho e examinemos porque é que se diz que um dos teólogos recebeu a visita de um Serafim. Notemos que Serafim é um anjo da primeira ordem, das mais antigas essências celestes, o qual desce para purificar o profeta.

"Voou para mim um dos Serafins, o qual trazia na mão uma brasa viva, que tinha tomado do altar com uma tenaz" (Is 6:6).

Alguns intérpretes respondem que em virtude da definição já dada aos nomes que se atribuem em comum a todas as inteligências, as Sagradas Escrituras não afirmam que a inteligência que desce para purificar o teólogo pertence a essa ordem superior que se situa próxima a Deus, mas que se trata de um dos anjos que nos são designados a título de ministro sagrado encarregado da purificação do profeta. Seria um desses anjos que teria recebido por semelhança o nome de Serafim, em virtude da operação que realiza apagando pelo fogo os pecados que as Sagradas Escrituras enumeram e restabelecendo na obediência de Deus aquele que tinha sido purificado. Assim, segundo esse estudo minucioso, as Sagradas Escrituras falando simplesmente de Serafim não designam uma dessas inteligências que se situam nas proximidades de Deus, mas designam outras das potências purificadoras que nos são dedicadas.

Um outro estudioso oferece uma solução referente a isso para nos tirar desse embaraço. Esse grande mensageiro, que aparece ao teólogo para iniciá-lo nos segredos divinos, "relatou" a Deus e depois à hierarquia primordial a santidade da sua própria operação purificadora. O estudioso que assim falava, afirmava que a potência divina se difunde por todo lado e penetra todas as coisas de modo irresistível, permanecendo misteriosa não somente pela sua total e sobreessencial transcendência, mas ainda pelo mistério pelo qual envolve todas as suas operações providenciais. Portanto, está claro que a potência divina se revela a quem quer que seja dotado de inteligência e que esteja à medida de suas capacidades receptoras.

Tendo doado sua própria luz às essências mais antigas, ela usa em seguida o serviço dessas mesmas essências para transmitir essa mesma luz de modo harmonioso às essências de ordem inferior, segundo a aptidão visionária de cada ordem. Por outro lado, se preferirmos uma expressão mais clara com imagens mais adequadas temos: a difusão do raio solar atravessa mais facilmente a primeira matéria que é mais transparente que todas as outras. Através dessa matéria o seu próprio esplendor brilha de modo mais visível, mas quando se depara com matérias mais opacas a sua potência de difusão se obscurece, porque as matérias penetradas resistem pela sua própria natureza à passagem da efusão luminosa e esta resistência aumenta progressivamente ao ponto de quase impedir inteiramente a passagem do raio luminoso.

Pela mesma razão, o calor do fogo transmite-se melhor nos corpos que são mais aptos a recebê-lo e que pelo seu movimento interno de ascensão se aproximam mais da sua semelhança, mas logo que se aproxima de substâncias refratárias a sua chama permanece sem efeito ou pelo menos não deixa mais do que um ligeiro traço. O melhor ainda é dizer: o fogo não atua sobre substâncias que não têm afinidade com ele a não ser por intermédio de corpos já familiarizados, de modo a fazer o fogo chegar aos objetos inflamáveis e somente em seguida através deles aquecer a água ou outra substância rebelde à combustão.

É através dessa lei harmoniosa que rege toda a natureza, que o Princípio maravilhoso de toda a ordem visível e invisível manifesta originalmente por efusões benfeitoras a chama da sua própria luz às essências superiores, que por seu intermédio aquelas que vêm depois delas participam na luz divina. Com efeito, essas essências que confessam Deus em primeiro lugar e que tendem mais que todas as outras para a virtude divina, merecem ser as primeiras na imitação divina. São elas que na sua bondade distribuem generosamente às ordens inferiores esse esplendor que as penetra, que por sua vez as distribuem às outras subordinadas. É assim que gradativamente a que precede, distribui à seguinte a luz divina que ela própria recebeu, a qual se distribui providencialmente sobre todas as essências à medida das suas capacidades.

Capítulo XIV.

O que significam os números atribuídos tradicionalmente aos anjos.

Mas ainda é conveniente a meus sentidos refletir sobre essa tradição escriturística que atribui aos anjos os números de mil vezes mil e dez mil vezes dez mil (Daniel 7:10), retornando sobre eles mesmos e multiplicando por eles mesmos os números mais elevados que nós conhecemos, para nos revelar claramente que o número das legiões celestes para nós escapa de todas as medidas.

Tal é, com efeito, a multidão desses exércitos bem-aventurados que não são desse mundo, que ela ultrapassa a ordem débil e restrita de nossos sistemas de numeração material e que só pode ser conhecida e definida pela sua própria inteligência e sua própria ciência que não são desse mundo, mas que pertencem ao céu e que elas receberam como dom perfeitamente generoso da Tearquia, pois essa Tearquia conhece o infinito, Ela é a fonte de toda sabedoria, o princípio comum e supraessencial de toda existência, a causa que dá classificação de essência a todo ser, a potência que contem e o termo que abarca a totalidade do universo.

Duplo papel das essências celestes,

Capítulo XV.

Quais são as imagens figurativas das potências angélicas: o fogo, a forma humana, os olhos, o nariz, as orelhas, a boca, o tato, as pálpebras, as sobrancelhas, a flor da idade, os dentes, os ombros, os braços, as mãos, o coração, o peito, o dorso, os pés, as asas, a nudez, a vestimenta, os véus brilhantes, o manto sacerdotal, os cintos, os bastões, as lanças, os machados, as correntes, os ventos, as nuvens, o bronze, o âmbar, os coros, os aplausos, as nuanças das pedras coloridas, a forma de leão, aquela do boi e da águia, os cabelos, os mantos cavalares, os rios, os carros, as rodas e a alegria que se atribui aos anjos.

Continuando nossa reta eis o que nos resta dizer. O olho de nossa inteligência vai afrouxar, se você vê bem, o esforço pelo qual ele se ensaiava de maneira angélica nas mais altas visões. Nós vamos descer de novo aos planos da divisão e da multiplicidade para a diversidade polimórfica das figuras que os anjos assumem. Retornaremos em seguida aos nossos passos e subiremos das imagens para a simplicidade das essências celestes. Mas saiba primeiramente (Maurice de Gandillac acrescenta aqui: "somente isso") que as interpretações sagradas das imagens figurativas revelam às vezes que as mesmas ordens das essências celestes, tanto iniciam quanto são iniciadas, que aquelas da última ordem iniciam e que aquelas da primeira ordem são iniciadas e que elas possuem todas, como se diz, potências superiores, médias e inferiores, sem que portanto exegeses (estudos) desse gênero tenham nada de irracional. Com efeito, pretender que todas juntas, tais ordens sejam iniciadas por aquelas que as precedem e que essas últimas recebam delas a mesma iniciação, ou ainda, que as superiores iniciando as inferiores, sejam a seguir iniciadas por aquelas mesmas que elas iniciaram, seria o puro absurdo e a confusão total. Mas afirmando-se que as mesmas essências iniciam e são iniciadas nós não entendemos por essa afirmação, que elas iniciam as mesmas que as iniciaram: nós apenas queremos dizer que cada uma delas é iniciada por aquelas que as precedem e que ao mesmo tempo elas iniciam aquelas que a seguem.

Não há então nenhuma inconveniência em afirmar que as figurações sagradas que as Escrituras nos apresentam, podem se atribuir às vezes sem modificação, propriamente e verdadeiramente, às vezes às potências primeiras, às vezes às médias, às vezes às últimas. Por exemplo: o poder de se elevar ao alto por um movimento constante de conversão, aquele de executar em torno de si próprio uma indefectível revolução conservando suas próprias potências, o poder de participar na potência providencial comunicando-se processivamente com as ordens inferiores, tudo isso convem, sem mentir, a todas as essências celestes, a algumas todas as vezes (como se disse muitas vezes) de modo eminente e total, às outras de modo parcial e inferior.

É necessário que abordemos agora o problema colocado e que comecemos a elucidação das figuras, procurando o porquê da Teologia, como se pode constatar, situar as alegorias tiradas do fogo quase acima de todas as outras. Você notará, com efeito, que ela não só nos apresenta rodas de fogo ardente (Dan 7:9), mas ainda animais como brasas de fogo ardente (Ez 1:13) e homens com semelhança de fogo (Ez 1:27) (Maurice traz "brilhantes como de fogo"). Ela imagina em volta das essências celestes mãos cheias de brasas acesas (Ez 10:2) e rios de fogo (Dan 7:10). Ela afirma em outra passagem que os tronos são de chamas de fogo (Dan 7:9) e invoca a etmologia da palavra serafins para declarar que essas inteligências superiores são incandescentes e para lhes atribuir as propriedades e os atributos do fogo. No total, quer se trate da alta ou da baixa hierarquia, é sempre para as alegorias tiradas do fogo que vão suas preferências. Me parece que de fato, é a imagem do fogo que revela melhor o modo pelo qual as inteligências celestes se conformam a Deus. É por isso que os Santos Teólogos descrevem freqüentemente sob forma incandescente essa essência suprasubstancial que escapa a toda figuração e é essa forma que fornece mais de uma imagem visível daquilo que nós ousamos chamar de propriedade teárquica.

O fogo sensível é, por assim dizer, presente em toda parte e ilumina tudo sem se misturar com nada, permanecendo sempre totalmente separado. Ele brilha com um clarão total e permanece ao mesmo tempo secreto, pois em si ele permanece desconhecido fora de uma matéria que revele sua operação própria. Não se pode suportar o seu clarão nem contemplá-lo face a face, mas seu poder se estende por toda parte e de lá onde ele nasce ele tira tudo para si fazendo dominar (essas duas palavras faltam em Maurice) seu ato próprio. Por essa transmutação ele faz dom de si a qualquer um que se aproxime por pouco que seja: ele regenera os seres por seu calor vivificante (Maurice traz "por sua vivificação"), ele os clareia por suas brilhantes iluminações, mas em si, ele permanece puro e sem mistura. Ele tem o poder de decompor os corpos sem sofrer ele mesmo nenhuma alteração. Ele se agita vivamente. Ele vive nas alturas, ele escapa a toda atração terrestre, ele se move sem cessar, ele se move por si próprio e ele move os outros. Seu domínio se estende por toda a parte, mas ele não se deixa prender em lugar algum. Ele não precisa de ninguém. Ele se aumenta insensivelmente, manifestando sua grandeza em toda matéria que o acolhe. Ele é ativo, poderoso, invisível e presente por toda a parte. Negligenciado, ele parece que não existe. Mas, sob o efeito dessa fricção que é como uma oração, ele aparece bruscamente com todas as suas qualidades; logo se o ve tomar um voo irresistível e é sem perder nada de si que ele se comunica jubilosamente em torno de si. Encontraremos ainda, mais uma propriedade do fogo que se aplica como uma imagem sensível às operações da Tearquia. Os conhecedores da Sabedoria Divina o sabem bem já que atribuem figuras incandescentes às essências celestes, revelando assim que formas elas assumem e tanto quanto lhes é possível, a semelhança de Deus.

Mas eles usam também para os figurar alegorias antropomórficas, porque o homem possui uma inteligência; porque ele é capaz de olhar para o alto; porque ele se mantem firme e direito; porque sua natureza é aquela de um príncipe e de um chefe; porque se é verdade que no plano sensível os animais desprovidos de razão tem maiores poderes que os do homem, no entanto, é ele que domina todos pelo entendimento de sua potência intelectual, pela soberania de seu poder racional, pelo caráter naturalmente livre e independente da sua alma.

Quer me parecer ainda mais, que cada parte do corpo humano pode nos fornecer muitas imagens que se aplicam perfeitamente (essas seis últimas palavras faltam em Maurice) às potências celestes. Pode-se dizer que as faculdades visuais significam sua tendência a se elevar, em plena claridade, para as Luzes Divinas assim como a maneira pela qual elas recebem impassivelmente as iluminações teárquicas com toda simplicidade "ternamente", com flexibilidade, sem resistência, em um voo rápido e puro. O discernimento dos odores significa o poder de agarrar ao máximo as suaves emanações que ultrapassam a inteligência, de discernir da ciência segura seus contrários e deles fugir absolutamente. O ouvido significa o poder de participar na inspiração teárquica e dela tirar o saber que ela contem. O paladar significa a plenitude dos alimentos intelectuais e a arte de se abeberar (matar a sede) na fecundidade dos canais divinos; o tato, a arte de distinguir seguramente o útil do nocivo; as pálpebras e as sobrancelhas, o cuidado com o qual elas conservam as visões intelectuais de Deus; a adolescência e a juventude a constante floração das potências vitais; os dentes, a perfeição com a qual eles dividem o alimento que eles recebem, pois cada essência intelectual tendo recebido de uma essência mais divina, em dom, a intelecção unitiva, a divide e a multiplica providencialmente para elevar espiritualmente tanto quanto possa a essência inferior (daquela que ela é encarregada).

As espáduas (ombros), os braços e as mãos, representam o poder de fazer, de agir, de operar; o coração é o símbolo de uma vida conforme a Deus e que espalha em sua bondade sua própria potência vital sobre os seres submetidos a sua Providência; o peito revela a muralha inexpugnável (segura) ao abrigo da qual um coração generoso espalha seus dons vivificantes; o dorso (costa) figura a reunião de todas as potências que engenharam a vida; os pés, o caráter móvel e rápido desse curso perpétuo que os conduz para as realidades divinas. É por isso que as alegorias divinas colocam asas nos pés das santas inteligências, pois as asas significam uma rápida elevação espiritual, uma elevação celeste, uma progressão para o alto, uma ascensão que libera a alma de toda baixeza; A ligeireza das asas simbolizam a ausência de toda atração terrestre, o impulso total e puro, isento de todo peso, para os cimos; o corpo e os pés nús significam desembaraço, liberação, independência, purificação relativamente a toda suprafluidez exterior, assimilação máxima à divina simplicidade.

Mas como a sabedoria, toda junta una e variada, veste sua nudez e as representa como portadoras de equipamentos, é necessário explicar agora, tanto quanto pudermos, as santas vestimentas e os instrumentos sagrados que se atribuem às inteligências celestes.

Eu penso que a toga luminosa e incandescente significa a forma divina; segundo o simbolismo do fogo, essa potência de iluminação que elas extraem da morada celeste que lhes foi determinada e que é o próprio lugar da luz; enfim o caráter totalmente inteligível da iluminação delas e totalmente intelectual da visão delas. A toga pontifical significa o poder de se elevar espiritualmente até os espetáculos divinos e místicos e aí consagrar uma vida inteira. Os cinturões significam o cuidado com o qual elas conservam suas potências genéticas; o poder que elas tem de se recolher, de unificar suas potências mentais reentrando nelas mesmas, e se dobrando novamente harmoniosamente (Maurice traz "facilmente") sobre si no círculo indefectível (infalível) da própria identidade delas.

As varas representam o poder real, a soberanidade, a retitude com a qual elas conduzem todas as coisas a seu acabamento; as lanças e os machados, sua arte de discriminar o que é estrangeiro, a sutileza, a atividade e a eficácia de suas potências de análise; os equipamentos dos geometras e dos arquitetos, seu poder de fazer fundação, de edificar e de acabar, e em geral, tudo que concerne à elevação espiritual e a conversão providencial de seus subordinados. Acontece também às vezes, que os instrumentos com os quais os representamos simbolizam os julgamentos de Deus à respeito dos homens, uns representando as correções disciplinares ou os castigos merecidos, outros representando o socorro divino em circunstâncias difíceis "nos incêndios", o fim da disciplina ou o retorno a anterior felicidade, ou ainda o dom de novos benefícios, pequenos ou grandes, sensíveis ou intelectuais. Em suma, uma inteligência perspicaz não ficaria embaraçada em fazer corresponder os sinais visíveis às realidades invisíveis.

Acrescentemos, que os chamamos ventos, para mostrar a rapidez com a qual elas agitam por toda parte de maneira quase instantânea, o vai-e-vem do alto para baixo e de baixo para o alto, pelo que elas elevam suas subordinadas até o cimo mais alto e pelo que elas inclinam suas superiores a descer processivamente para se comunicarem com as essências inferiores e exercer a Providência delas para com essas últimas. Poder-se-ia dizer também que o nome de vento, que significa um espírito aéreo, revela a maneira pela qual as inteligências divinas vivem em conformidade com Deus; pois esse nome contem a imagem e a marca da atividade teárquica (como foi mostrado mais explicitamente na Teologia Simbólica dando a exegese dos quatros elementos) graças a seu movimento natural e vivificante, graças a indomável impetuosidade de sua marcha adiante, graças ao mistério para nós incognoscível (desconhecido) dos princípios e dos fins de seu movimento: "não sabes, (diz a Escritura) donde vem, nem para onde vai" (Jo 3:8).

Mas, a Escritura as representa também sob a forma de nuvens (Ez 10:4) para significar assim que as santas inteligências contêm de um modo que não é daqui de baixo, a plenitude da luz secreta; que tendo recebido em primeira mão e sem orgulho excessivo a efusão primordial dessa luz, elas a transmitem a suas subordinadas em segunda mão e de modo generoso tanto quanto essas últimas possam receber; enfim elas possuem uma fecundidade que doa a vida e que faz crescer os seres e que os aperfeiçoa derramando sobre eles a chuva da inteligência, e chamando por chuvaradas fecundantes para partos vivificantes o seio que as recebeu.

Se a teologia atribui além disso às essências celestes a forma do cobre e do âmbar e aquela das pedras multicores (Ez 8:2; 40:3; Apoc 21:19-20), é porque o âmbar que reune em si as formas do ouro e da prata simboliza por sua vez a pureza incorruptível, inesgotável, indefectível (infalível) e intangível que pertencem ao ouro e o clarão luminoso, brilhante e celeste que pertencem à prata. Quanto ao cobre pelas razões que foram ditas ele lembra seja o ouro seja o fogo. E no que concerne às formas multicores das pedras crê-se que elas representam no branco, a luz; no vermelho, o fogo (1da pág.seg.) (essas quatro palavras faltam em Maurice); no amarelo, o ouro; no verde, o apogeu da juventude. Para cada espécie você encontrará assim um ensinamento espiritual na exegese simbólica das imagens que ela representa.

A figura do leão (Ez 1:10; Apoc 4:7) deve revelar esse esforço soberano, veemente, indomável, pelo qual as essências celestes imitam tanto quanto elas podem o mistério da inefável (encantadora) Tearquia, envolvendo intelectualmente os traços desse mistério, disfarçando-os modesta e misticamente sobre a via sobre a qual a iluminação divina as eleva.

A figura do boi (Ez 1:10; Apoc 4:7) marca a força e a potência, o poder de escavar sulcos intelectuais para receber as fecundas chuvas do céu, enquanto os chifres (essas 4 palavras faltam em Maurice) simbolizam a força conservadora e invencível.

A figura da águia (Ez 1:10; Apoc 4:7) indica a realeza, a tendência aos cumes, o voo rápido, a agilidade, a prontidão, a engenhosidade em descobrir os alimentos fortificantes, o vigor de um olhar estendido livremente, diretamente e sem desvio para a contemplação desses raios, dos quais a generosidade do Sol teárquico multiplica-os.

A figura do cavalo (Apoc 6:2-8) significa a obediência e a docilidade. Se eles são brancos, essa limpidez tão próxima quanto possível da luz divina; se eles são baios (castanho ou amarelo torrado), o caráter misterioso; se eles são de uma cor entre o branco, o amarelo e a camurça, o poder do fogo e sua eficácia; se eles são pretos com o dorso tendendo ao azul escuro e o baixo dorso tendendo ao branco, a síntese dos opostos e o poder de passar de um ao outro, essa adaptação dos superiores aos inferiores e dos inferiores aos superiores que nasce da conversão de uns e do cuidado providencial dos outros.

Se nós não tivéssemos o desígnio (intenção) de conservar nesse tratado proporções harmoniosas, nós poderíamos considerar cada parte dos animais que acabamos de citar, todos os detalhes de sua estrutura física e nós não estaríamos errados de aplicar esses detalhes às potências celestes segundo o procedimento das imagens diferentes (da pág.seg.; ver todo o cap.II). É assim que, para quem quer se elevar do sensível ao espiritual as faculdades irascíveis (iradas) desses animais ensinam essa virilidade da inteligência, da qual a cólera é o último eco; suas faculdades concuspiscentes (desejo de bens ou gozo material) ensinam o desejo amoroso que provam os anjos à volta de Deus; mais sinteticamente todas as sensações das bestas privadas de razão e a multiplicidade de suas partes ensinam as intelecções imateriais das essências celestes e suas potências sem diversidade. Mas para quem sabe raciocinar, esses exemplos bastam; dizendo melhor, a exegese de uma só dessas imagens paradoxais esclarece por analogia todos os símbolos do mesmo tipo.

É necessário examinar ainda o que significa a aplicação alegórica às essências celestes dos nomes de rios, de rodas e de carros (Dan 7:10; Ez 10:2; 2Rs 2:11). Os rios de fogo significam esses canais teárquicos que generosamente não cessam de escoar seus fluxos sobre as essências celestes e que conservam assim sua vivificante fecundidade. Os carros significam essa comunidade que se liga ao mesmo varão do carro (nota do tradutor: entenda-se os carros da época como carroças) essências de nível igual. Quanto às rodas aladas que avançam sem desvio nem inclinação, elas significam o poder de rolar de maneira reta, em linha reta sobre a via reta e sem desvio, graças a uma rotação perfeita que não pertence a esse mundo. Mas a alegoria sagrada das rodas da inteligência se presta ainda a uma outra exegese que corresponde a um outro ensinamento espiritual. Como diz, com efeito, o teólogo, deu-se a elas o nome de galga que em hebreu significa ao mesmo tempo revolução e revelação (Ez 10:13). Essas rodas inflamadas e que recebem a forma divina tem o poder de rolar sobre elas mesmas, porque elas se movem perpetuamente em torno do imutável bem; elas têm também o poder de revelar, pois elas iniciam nos mistérios; e elas elevam espiritualmente as inteligências de baixo, ao mesmo tempo que fazem descer as iluminações mais elevadas até as mais humildes.

Resta-nos explicar o que as Escrituras entendem quando elas falam da alegria das ordens celestes (Lc 15:10). Essas ordens, com efeito, não saberiam de maneira nenhuma sentir as volúpias apaixonadas que os homens conhecem. O que se quer dizer por conseqüência é que elas participam da alegria divina por ocasião do retorno de pecadores: elas experimentam uma felicidade calma e verdadeiramente divina, uma felicidade boa e sem inveja ao vigiar providencialmente e ao salvar aqueles que se convertem a Deus; uma alegria inefável (encantadora), a qual adveio com freqüência também a homens santos graças as visitações deificantes das iluminações divinas.

Tais são minhas explicações concernentes às alegorias sagradas. Se elas estão distantes de revelar exatamente as iluminações, elas ao menos economizarão, eu penso, a humilhação de nos prendermos ao caráter imaginativo desses símbolos. Mas se nos reprovassem o fato de não termos feito menção a todas as potências, a todos os atos, a todas as alegorias que as Escrituras contêm relativamente ao anjos, nós teríamos o direito de justificar algumas de nossas omissões reconhecendo que nós ignoramos a ciência das realidades que não são desse mundo e que para nos conduzir a essa ciência nos fizeram falta as luzes de um iniciador. Quanto a outras omissões concernentes a questões análogas àquelas que nos tratamos, elas se explicam pelo duplo cuidado de não estender nosso tratado para outras medidas e respeitar o nosso silêncio a respeito de mistérios que nos ultrapassam.